Enquanto os profissionais se dedicam a aprimorar os comandos usados em ferramentas de inteligência artificial, a capacidade de fazer boas perguntas aos próprios seres humanos pode estar sendo deixada de lado.
É essa a ideia por trás do conceito de "human prompting", proposto pelo futurista norte-americano Jacob Morgan.
Se a engenharia de prompts busca extrair respostas melhores das máquinas, o "prompting humano" procura estimular nas pessoas aquilo que a tecnologia não consegue oferecer por conta própria, como experiência, criatividade, discernimento e pensamento crítico.
“Há 10 anos, se uma pessoa apresentasse alguma coisa em uma reunião, eu presumiria que aqueles pensamentos eram dela.
Hoje, já não sei se estou falando com o profissional ou com o ChatGPT”, analisa.
Autor de seis livros sobre liderança, experiência do funcionário e futuro do trabalho, entre eles Líder do Futuro, publicado no Brasil pela editora Cultrix, Morgan defende que a inteligência artificial deve ser tratada como uma ferramenta, e não como uma colega de trabalho.
Para ele, a tecnologia pode ampliar a produtividade, mas não deve substituir o julgamento, as relações e a responsabilidade humana nas decisões.
“Quantos tokens vêm com o emprego?”: IA pode se tornar um novo critério para escolher onde trabalhar
Candidatos estão reformulando currículos para destacar habilidades em IA
Empresas multiplicam cargos com IA na área de dados: nova demanda ou apenas hype?
Em entrevista à Época NEGÓCIOS, concedida durante o Impulso 2026, evento promovido pelo iFood Benefícios em São Paulo, o futurista afirma que a dependência excessiva da IA pode enfraquecer o pensamento crítico dos profissionais e dificultar a avaliação de suas competências pelas empresas.
Nesse cenário, caberá aos líderes ir além dos materiais apresentados e questionar como os funcionários chegaram à determinada conclusão, se conseguem defender suas ideias e de que maneira reagiriam diante de contextos diferentes.
Morgan também pondera que a inteligência artificial não afeta todas as ocupações da mesma forma e contesta o discurso de empresas que atribuem demissões exclusivamente à tecnologia.
Apesar dos riscos, diz manter uma visão otimista sobre o futuro do trabalho.
ÉPOCA NEGÓCIOS — O que significa o conceito de human prompting?
Jacob Morgan — "Human prompting" é a capacidade de extrair das pessoas percepções, criatividade, tomada de decisão e discernimento.
É uma habilidade nova porque, até pouco tempo atrás, não precisávamos nos perguntar constantemente se determinada ideia havia sido elaborada por uma pessoa ou produzida por uma ferramenta.
Há dez anos, quando alguém apresentava alguma coisa em uma reunião, a suposição era de que aquela pessoa havia feito o trabalho.
Ela conhecia o assunto e conseguia debater, argumentar e defender suas ideias.
Com a inteligência artificial, nem sempre sabemos com quem estamos falando.
É a pessoa ou é o ChatGPT?
Estamos nos tornando tão dependentes dessas ferramentas que corremos o risco de simplesmente memorizar o que elas nos dizem e repetir esse conteúdo.
Por isso, líderes e funcionários precisarão aprender a trazer novamente a dimensão humana para as conversas.
ÉPOCA NEGÓCIOS — Como um líder pode identificar se o funcionário realmente domina aquilo que apresenta?
Jacob Morgan — Será necessário fazer perguntas que revelem o raciocínio da pessoa para além do conteúdo apresentado.
Ela consegue defender aquele ponto? Consegue explicar como chegou à conclusão? É capaz de discordar, considerar outro contexto ou discutir as consequências daquela decisão?
Imagine uma empresa na qual todos trabalhem remotamente e entreguem apenas o resultado do trabalho.
Os textos parecem melhores, os e-mails estão mais polidos e as apresentações são excelentes.
A percepção pode ser de que todos se tornaram muito mais capazes.
Mas, quando essas pessoas participam de uma reunião de planejamento, precisam ser questionadas, defender seus argumentos, construir relações ou lidar com um conflito, talvez não saibam como agir.
O desafio é descobrir quais são os aspectos humanos mais importantes do trabalho e reforçá-los, em vez de terceirizá-los para a tecnologia.
Profissional apresenta seu trabalho
Unsplash
ÉPOCA NEGÓCIOS — O maior risco, então, é a perda do pensamento crítico?
Jacob Morgan — Sim.
A questão não é apenas usar ou não usar inteligência artificial.
Precisamos entender para que devemos usá-la, quais são suas limitações e em que situações podemos confiar nela.
As pessoas colocam nessas ferramentas seus e-mails, apresentações, análises e documentos estratégicos.
Depois, levam o resultado para suas equipes como se ele representasse seu próprio pensamento.
Isso é muito diferente de usar um sistema de gestão ou uma plataforma de aprendizagem, que desempenha uma função específica e não conversa com você.
Nunca demos a milhões de funcionários acesso simultâneo a uma tecnologia que faz tantas coisas, mas que, ao mesmo tempo, eles não compreendem completamente.
Mesmo sem saber se as respostas estão corretas ou se a ferramenta pode inventar informações, as empresas usam esse conteúdo para produzir apresentações, atender clientes e desenvolver estratégias.
ÉPOCA NEGÓCIOS — Por que pequenos erros da IA podem representar um problema para as empresas?
Jacob Morgan — Porque esses erros podem se acumular ao longo do tempo.
É como um avião que se desvia apenas um grau da rota.
No início, ninguém percebe, mas quando ele chega ao destino, pode estar em um lugar completamente diferente do planejado.
A inteligência artificial pode introduzir pequenas imprecisões, um viés aqui, uma orientação equivocada ali.
Quando milhares de pessoas dentro de uma companhia usam essas respostas durante semanas, meses ou anos, os erros começam a se sobrepor.
Estamos usando e, potencialmente, confiando em algo que não compreendemos por completo.
Os líderes também dizem: “Nós não entendemos totalmente, sabemos que vocês não entendem, mas queremos que utilizem mais”.
Nunca vivemos uma situação como essa.
ÉPOCA NEGÓCIOS — A inteligência artificial deve ser tratada como uma colega de trabalho?
Jacob Morgan — Não.
A inteligência artificial é uma ferramenta, não uma colega.
As pessoas são suas colegas de trabalho.
Quando começamos a tratar a tecnologia como uma pessoa e a interagir com ela como se fosse humana, surgem vários problemas.
A IA deveria ajudar a ampliar os aspectos humanos do trabalho e melhorar a colaboração entre as pessoas, não substituir essas relações.
Também precisamos discutir confiança, segurança e privacidade.
As empresas colocam informações confidenciais e estratégicas nessas plataformas.
Como executivo, eu me perguntaria se realmente quero entregar os segredos de funcionamento do meu negócio a outra companhia, que pode, no futuro, desenvolver um produto ou serviço concorrente.
Isso não significa que a tecnologia não tenha valor.
Há muitos ganhos possíveis de eficiência e produtividade.
Eu mesmo utilizo a IA para preparar entrevistas e podcasts.
Mas é preciso entender o que entregar à ferramenta e o que deve continuar sob responsabilidade humana.
Jacob Morgan no Impulso 2026, evento do iFood Benefícios, em São Paulo
Divulgação
ÉPOCA NEGÓCIOS — Quais habilidades humanas ganharão valor com o avanço da IA?
Jacob Morgan — Nos próximos anos, haverá uma valorização muito grande de profissionais capazes de pensar criticamente, construir relações, interpretar contextos, discordar e defender uma ideia.
Pode parecer óbvio falar sobre a importância das habilidades humanas, mas elas se tornarão cada vez mais valiosas dentro das organizações.
A ironia é que preservar a humanidade no ambiente de trabalho será uma das maiores transformações e um dos maiores desafios das empresas.
É possível que vejamos algo semelhante ao que ocorreu com os alimentos orgânicos.
Assim como consumidores procuram produtos sem determinados componentes artificiais, talvez as pessoas passem a buscar produtos, serviços e experiências criados essencialmente por seres humanos.
Um cliente poderá querer saber se está conversando com uma pessoa ou com uma máquina e se determinado produto foi realmente concebido por alguém.
Toda essa discussão nos obrigará a definir com mais clareza o que significa ser humano no trabalho.
ÉPOCA NEGÓCIOS — A adoção da IA está reduzindo as oportunidades para profissionais em início de carreira?
Jacob Morgan — Existe uma disrupção nas posições de entrada, mas ela não é uniforme.
Não acontece da mesma maneira em todas as empresas, profissões e indústrias.
Algumas áreas, como determinadas funções de atendimento ao cliente, podem sentir mais os efeitos, enquanto outras podem registrar expansão.
As empresas ainda estão em uma grande fase de experimentação.
Muitas não sabem qual será o verdadeiro impacto da inteligência artificial e estão testando diferentes estruturas.
Algumas reduziram equipes e depois perceberam que a tecnologia não conseguia substituir a capacidade humana de compreender contextos ou identificar problemas.
Também precisamos ter cuidado com a narrativa usada pelas companhias.
No mercado financeiro, uma empresa que anuncia demissões provocadas por erros estratégicos ou contratações excessivas pode ser punida.
Mas, se disser que está cortando empregos por causa da inteligência artificial, pode ser vista como inovadora, eficiente e orientada para o futuro.
Portanto, é difícil saber quanto desses movimentos é realmente provocado pela IA.
Não gosto de fazer generalizações.
Haverá muita transformação em diferentes áreas, mas acredito que o resultado líquido será positivo.
ÉPOCA NEGÓCIOS — Você costuma se definir como uma pessoa otimista.
Mesmo diante desses riscos, mantém essa visão sobre o futuro?
Jacob Morgan — Sim.
Sou sempre do time das pessoas.
Acredito que vamos encontrar uma forma de lidar com essas questões e já existem organizações tentando fazer isso.
A transformação não será fácil.
Costumo comparar esse processo a uma viagem para a Disney: muitas pessoas não gostam do trajeto, mas gostam de chegar ao destino.
Podemos enfrentar dificuldades para sair do ponto A e chegar ao ponto B, mas, daqui a alguns anos, talvez a gente olhe para trás e perceba que alcançamos um lugar melhor.
Para isso, precisamos manter o ser humano no centro das decisões e não a inteligência artificial.
Futuro do Trabalho
Arte/ÉpocaNegócios
Mais Lidas
