Puterrier sobe ao palco do Espaço Favela do Rock In Rio no dia 11 de setembro, mesma data em que o K-pop estreia no line-up oficial do festival com Stray Kids, NEXZ e Hwasa.
A presença do funkeiro carioca não é nada aleatória: nos últimos anos, ele conquistou uma base de fãs além do público tradicional do funk - incluindo mulheres, pessoas LGBT+ e, mais recentemente, k-poppers.
Puterrier, nome artístico de Vitor Mitoso, conta que sequer acompanhava o gênero antes de perceber que seus próprios ouvintes estavam fazendo a ponte.
"Achei maneiro que pessoas de outros gostos musicais estavam me ouvindo, pessoas que não ouviam funk.
Interagi e, depois que interagi, vi que deu um engajamento absurdo.
Não entendi nada", lembra em entrevista com a Quem.
Sua maior identificação com grupos sul-coreanos é a forma próxima com a qual eles lidam com o público.
“Eles tratam os fãs de uma forma muito íntima, e têm um cuidado a mais.
Eu sempre fui assim", diz ele, que já fez remix com músicas sul-coreanas.
“Nunca imaginei, lá atrás na minha carreira, que teria esse público, que minha parada seria assim e que eu cantaria no Rock in Rio.
Acho muito f*da e condizente com o que eu sou.”
Puterrier é atração do Palco Favela do Rock in Rio
Reprodução/Instagram
Dono de hits como Marolento, Atrás da Equipe, Delírios de Amor e Vou Investir em Você, com MC Carol, com quem dividirá palco na Cidade do Rock, Puterrier passou por diferentes estilos musicais.
Ele começou a escrever ainda criança, influenciado pelo avô, César, que também escrevia poesias.
Aos 9 anos, ajudou colegas de escola a escrever uma música para uma garota da turma, mas os meninos apresentaram a composição como se fosse deles.
Quando a menina descobriu que o carioca havia escrito a letra, os colegas o agrediram.
“Fiquei pensando: ‘Os moleques ficaram p*tos porque elas viram que fui eu que escrevi e gostaram’.
Fiquei com isso na minha cabeça durante anos”, contou.
Aos 13, lançou a primeira canção de trap, tentando assumir uma postura mais 'séria'.
A virada aconteceu justamente quando ele começou a explorar o lado debochado e sensual que já fazia parte de sua personalidade.
Ele começou a misturar o funk com atabaque com grime, gênero britânico derivado hip-hop, e nasceu o que ele chama de AtabaGrime.
'Quem gosta de nós, gosta'
A sexualidade sempre foi uma parte importante do trabalho de Puterrier, mas ele afirma que procura fazer isso por uma perspectiva diferente da forma pejorativa e objetificado que costuma aparecer em parte do funk nacional, contando histórias de personagens femininas que têm controle sobre seus desejos.
Segundo ele, essa escolha ajudou a formar um público diferente.
“Minha música é animada, então vai muito público feminino e público LGBT também, muito pelos posicionamentos”, explica.
A estratégia também aparece em suas colaborações, como com as drag queens Kaya Conky, Grag Queen e A Travestis.
Bem resolvido com sua heterossexualidade, Puterrier relata que seus posicionamentos em apoio à comunidade provocaram reações adversas, gerando uma certa resistência de parte do mercado do funk.
“Com certeza é uma retaliação.
Não uma retaliação completa, mas uma estranheza”, afirmou.
“Não vou ficar chorando.
Eu tenho meu público forte.
A gente nem precisa disso".
Ele cita como exemplo o fato de ter poucos amigos dentro da cena e acredita que algumas oportunidades podem não chegar justamente por causa de sua postura.
“Quem gosta de nós, gosta.
Quem tem os mesmos princípios que eu defendo, vai me seguir.
Vai atrair quem tiver que atrair e está beleza, porque quero gente com o mesmo pensamento me seguindo”, garante.
“Eu não dou muito rolê, não tenho muita amizade no meio.
Não chamam por conta dessas paradas.”
Puterrier é atração do Palco Favela do Rock in Rio
Reprodução/Instagram
MC Carol e os próximos feats
A parceria com MC Carol é outro capítulo dessa trajetória.
Os dois lançaram Vou Investir em Você em dezembro de 2025, que brinca com a ideia de homens que acreditam estar fazendo muito ao pagar contas ou bancar programas para as parceiras.
A cantora, também conhecida por hits sobre feminismo, cantará com ele na sexta-feira do festival.
Puterrier também revelou à Quem que está preparando outras parcerias.
Entre os nomes que já estão no radar ou em negociação estão MC Coringa, Tarde de Quebrada e outros artistas do funk.
Mas os sonhos maiores estão fora da zona de conforto: Zeca Pagodinho, Anitta, BTS e Xande de Pilares.
“Esse é o top”, brinca.
MC Carol e Puterrier
Reprodução/Instagram
Da onde surgiu o nome Puterrier?
O nome artístico de Vitor nasceu na Zona Norte do Rio, onde cresceu.
Ele estava em uma roda cultural quando chegou usando um chinelo novo.
Um amigo brincou que o calçado era “de puterrier”, expressão que ficou na cabeça do então aspirante a músico.
Pouco depois, ele criou o refrão de sua primeira música com a alcunha.
Durante a pandemia, interrompeu os estudos e depois precisou terminar o colégio enquanto começava a ganhar atenção com suas músicas.
Quando uma delas chegou a cerca de 30 mil visualizações, ele percebeu que algumas pessoas já o reconheciam na rua e pediam fotos.
Ele decidiu, então, concluir os estudos por meio de um supletivo para poder se dedicar à carreira.
A agenda atual é muito diferente daquela época.
Puterrier conta que faz, em média, seis shows por mês, mas nem todos são para o mesmo público: ele se apresenta em festivais, festas de 15 anos, boates e até eventos direcionados especificamente aos fãs de K-pop.
“Eu nunca esperei que fosse isso.
Lá atrás na minha carreira, se alguém falasse: ‘Tu vai ter esse público, tua parada vai ser assim’, eu nunca imaginei”, reflete.
Para o show no Rock In Rio, ele terá dançarinas e uma estrutura inspirada também no K-pop, além da participação de MC Carol.
“Eu gosto mais de fazer show do que de gravar música”, confessa.
Puterrier é atração do Palco Favela do Rock in Rio
Reprodução/Instagram
