Quarenta anos após Chernobyl, animais vivem com mutações e alterações provocadas pela radiação; entenda - QTU Questões do Universo

Quarenta anos após Chernobyl, animais vivem com mutações e alterações provocadas pela radiação; entenda

Fonte: Bandeira da fonte

Quarenta anos depois do acidente nuclear de Chernobyl, a região ao redor da usina continua marcada pela radiação, mas também pela presença de uma fauna que voltou a ocupar áreas abandonadas pelos seres humanos.
Lobos, ursos, bisões, linces, cavalos-de-Przewalski e cerca de 200 variedades de aves estão entre os animais registrados na zona de exclusão criada após a tragédia de 1986.
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A coexistência entre a biodiversidade e a contaminação radioativa, porém, ainda levanta uma questão central entre os pesquisadores: os animais estão prosperando principalmente porque a presença humana desapareceu ou continuam sofrendo efeitos provocados pela radiação? Os estudos apontam para as duas situações, com diferenças de acordo com a espécie e o nível de exposição.
A região que ficou sem moradores
A explosão na usina Vladimir Ilich Lenin ocorreu em 26 de abril de 1986, no norte da Ucrânia.
O acidente provocou diretamente a morte de 31 pessoas e levou à realocação de cerca de 116 mil moradores.
Entre eles estavam os 48 mil habitantes de Pripyat, cidade localizada a apenas três quilômetros da usina e hoje deserta.
A retirada da população criou uma área de 2.590 quilômetros, que passou a ser conhecida como zona de exclusão.
A evacuação também teve consequências para os animais domésticos.
Muitos moradores deixaram cães e gatos para trás porque acreditavam que retornariam depois.
Integrantes do Exército soviético receberam a ordem de matar os animais que permanecessem na região, considerados possíveis vetores de contaminação.
Apesar disso, atualmente estima-se que entre 600 e 800 cães e gatos abandonados ainda circulem pela zona de exclusão, segundo as organizações Clean Futures Fund (CFF) e SPCA International.
Vacas passaram a agir de maneira semelhante à de animais em estado selvagem
Reprodução
Menos pessoas, mais espaço para a vida selvagem
Com a ausência de cidades, agricultura e grande parte da atividade humana, diferentes espécies passaram a ocupar a área.
Germán Orizaola, doutor em Biologia e pesquisador da região, registrou a presença de grandes mamíferos e de centenas de espécies de aves.
A aparente recuperação da fauna, no entanto, não significa que a radiação deixou de representar um problema.
Segundo os estudos citados, alguns animais apresentam alterações relacionadas à exposição, enquanto outros parecem ter desenvolvido respostas adaptativas.
O debate entre os cientistas se concentra justamente nessa combinação.
A ausência de seres humanos reduz ameaças como caça, pesca e poluição urbana, mas a contaminação radioativa permanece no ambiente.
Rãs mais escuras e insetos afetados
Entre as respostas adaptativas observadas estão mudanças na coloração das rãs.
Orizaola afirmou ter identificado rãs da zona de exclusão mais escuras.
— Também encontramos algum indício de respostas adaptativas à radiação, como mudanças na coloração das rãs.
As rãs da zona de exclusão são mais escuras, o que poderia protegê-las da radiação.
Ao mesmo tempo, alguns insetos apresentam menor expectativa de vida ou maior vulnerabilidade a parasitas, especialmente nas áreas de maior radioatividade.
O texto também menciona alterações na aparência de determinadas espécies.
As aves apresentam efeitos adversos como falhas no sistema imunológico, aumento do albinismo e variações genéticas.
Essas alterações, porém, não impedem o ciclo reprodutivo dos grupos citados.
Teias de aranha e alterações de comportamento
Uma produção da National Geographic, apresentada pelo ator Will Smith, registrou aranhas construindo teias irregulares e assimétricas próximas a algumas casas das aldeias.
— Muitas das teias que foram construídas próximas a algumas das casas das aldeias eram extremamente incomuns.
As imagens mostraram estruturas com aberturas e sem a simetria normalmente associada às teias.
A produção concluiu:
— As aranhas tinham problemas para tecer uma teia normal.
O comportamento das aranhas foi apresentado como outro possível efeito da exposição à radiação.
Vacas que passaram a viver como animais selvagens
Pesquisadores da Reserva de Radiação e Biosfera Ecológica de Chernobyl acompanharam vacas da região durante três anos.
Em relatórios divulgados em 2021, observaram que os animais haviam formado manadas e já apresentavam um comportamento diferente daquele esperado de animais domésticos ou de criação.
As vacas passaram a agir de maneira semelhante à de animais em estado selvagem.
Os estudos apontam que espécies menores, como roedores e aves, estão entre as mais afetadas.
Foram registradas sequelas de saúde associadas à radiação, incluindo tumores e cataratas.
A adaptação gradual e as mutações observadas em algumas espécies não significam que a contaminação tenha desaparecido.
Ainda existem altas concentrações de césio na região, incluindo césio-137 presente nos organismos.
A presença desses materiais também não impede que alguns animais morram em consequência da exposição à radiação.
Radiação ou ausência de humanos?
Os dados alimentam uma discussão mais ampla sobre o impacto real da radiação sobre a fauna.
Alguns pesquisadores questionam se determinados efeitos foram superestimados quando comparados às consequências da atividade humana.
Caça, pesca e poluição urbana podem representar ameaças maiores para determinados grupos, especialmente mamíferos, no médio prazo.
Sem essas pressões, a região se tornou um espaço ocupado por animais que, em condições normais, disputariam território com cidades, estradas e atividades agrícolas.
Isso ajuda a explicar o paradoxo de Chernobyl: uma das áreas mais conhecidas por sua contaminação nuclear também se tornou um dos lugares onde a presença humana foi drasticamente reduzida.
O que mudou em 40 anos
Quatro décadas depois da explosão, a zona de exclusão reúne uma fauna diversificada, mas não é um ambiente livre das consequências do desastre.
Pesquisas registram animais que vivem, se reproduzem e ocupam a região, ao mesmo tempo em que identificam alterações na saúde, na aparência e no comportamento de algumas espécies.
A paisagem de Chernobyl, portanto, combina duas marcas da tragédia: a contaminação que permanece no ambiente e o retorno de uma vida selvagem que encontrou, na ausência das pessoas, espaço para ocupar uma região transformada pelo maior desastre nuclear de sua história.