Devemos evitar beber na frente dos adolescentes? Sem defender a abstinência, um estudo conduzido ao longo de mais de duas décadas mostra que a forma como os pais consomem álcool ajuda a moldar aquilo que seus filhos consideram um comportamento "normal".
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Não é preciso pânico: apesar do movimento 'álcool zero', simples moderação no consumo já tem efeito positivo de longo prazo
É sexta-feira à noite.
Você serve uma taça de vinho enquanto seu filho adolescente está sentado no balcão da cozinha, absorvido pelo celular.
Ele mal levanta os olhos.
Ainda assim, percebe muito mais do que você imagina.
Meu novo estudo mostra que os hábitos de consumo de álcool observados pelos filhos dentro de casa influenciam de forma duradoura o comportamento deles.
Essa influência é especialmente forte em uma fase específica da vida: entre os 15 e os 17 anos.
É nessa idade que os adolescentes começam a vivenciar situações sociais em que o álcool está presente e a formar sua própria ideia do que é um consumo "normal".
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Isso não significa que seja necessário abandonar totalmente a bebida alcoólica.
No entanto, alguns comportamentos podem ser ajustados para aumentar as chances de que os filhos desenvolvam, ao longo da vida, uma relação razoável com o álcool.
Vinte e três anos de acompanhamento
Meu estudo se baseia em 23 anos de dados representativos da população australiana, obtidos por meio da pesquisa Household, Income and Labour Dynamics in Australia (HILDA).
O levantamento acompanhou mais de 6.600 pessoas ao longo do tempo, reunindo mais de 43 mil observações.
Para estimar a influência dos pais, relacionei o consumo de álcool de cada participante em determinada idade com o consumo médio de sua mãe e de seu pai quando ele tinha entre 12 e 18 anos.
Em seguida, comparei a intensidade dessa relação ao longo das diferentes fases da vida.
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Os resultados mostraram que a influência dos pais é mais forte quando os filhos têm entre 15 e 17 anos.
Ela diminui ao longo dos 20 anos de idade e volta a aparecer entre os 28 e os 37 anos entre aqueles que se tornam pais.
Esse efeito ocorre principalmente entre pais e filhos do mesmo sexo.
As mães influenciam mais as filhas, enquanto os pais influenciam mais os filhos.
Já não foi observada uma influência mensurável dos pais sobre as filhas.
Ainda assim, foi identificada certa influência das mães sobre os filhos homens, especialmente durante a adolescência e, novamente, no fim dos 20 anos e ao longo dos 30.
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Quando os filhos se tornam pais, eles parecem retomar os hábitos de consumo de álcool com os quais cresceram.
As filhas tendem a se inspirar mais no exemplo das mães, enquanto os filhos que se tornam pais começam a reproduzir comportamentos observados nos próprios pais, mesmo que não os tivessem adotado anteriormente.
Genética ou normas familiares?
Os resultados apontam mais para a influência das normas familiares do que para fatores genéticos.
Ao comparar pais biológicos e não biológicos, categoria que inclui padrastos, madrastas, pais adotivos, famílias acolhedoras e outras pessoas que exercem papel parental sem vínculo biológico, a relação entre o consumo de álcool das mães e o das filhas permaneceu igualmente forte, independentemente de existir ou não parentesco biológico.
Isso sugere que as filhas aprendem comportamentos, em vez de simplesmente herdarem uma predisposição imutável.
Entre os meninos, os resultados são mais complexos, mas a conclusão geral é a mesma: o que os filhos observam importa.
Nada disso significa que uma simples taça de vinho consumida diante do adolescente lhe fará mal.
O estudo avaliou padrões de consumo repetidos ao longo de vários anos, e não episódios isolados.
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O que parece fazer diferença é a mensagem transmitida ao longo do tempo: com que frequência o álcool está presente, em que quantidade e qual papel ocupa no cotidiano.
Ele está no centro de todas as comemorações? É a primeira resposta para um dia ruim? Ou aparece apenas ocasionalmente, sem ter grande importância?
Como os adolescentes constroem sua relação com o álcool
Os resultados se somam a um conjunto maior de pesquisas sobre a forma como os pais influenciam o consumo de álcool dos filhos.
Uma revisão de estudos longitudinais mostrou que diversos fatores parentais, como o exemplo dado pelos pais, a limitação do acesso dos adolescentes ao álcool, a supervisão, a qualidade da relação familiar e a comunicação clara, estão associados a um menor consumo de álcool na vida adulta.
Outro estudo australiano mostrou que episódios de consumo excessivo de álcool pelos pais estavam associados a uma probabilidade maior de seus adolescentes já terem experimentado bebida alcoólica.
Isso sugere que os filhos aprendem não apenas se os adultos bebem, mas também qual lugar o álcool ocupa na rotina familiar.
Pesquisas longitudinais realizadas na Austrália também mostraram que oferecer álcool aos adolescentes, mesmo com as melhores intenções, está associado, no longo prazo, a um consumo mais elevado e a mais problemas relacionados ao álcool, em vez de promover um aprendizado sobre o consumo responsável.
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A boa notícia é que as tendências gerais caminham na direção certa.
Na Austrália, os adolescentes bebem muito menos hoje do que há 20 anos.
Em 2001, cerca de 70% dos jovens de 14 a 17 anos haviam consumido álcool nos 12 meses anteriores.
Em 2022-2023, essa proporção caiu para aproximadamente 30%.
Reduções semelhantes foram observadas em diversos países de alta renda.
Vários fatores podem explicar esse fenômeno, incluindo mudanças nas normas culturais, maior conscientização sobre os riscos do álcool e, como sugere este estudo, transformações nos hábitos dos pais que se transmitem de geração em geração dentro das famílias.
O que os pais podem fazer na prática?
O objetivo não é ser perfeito.
Trata-se, antes, de reduzir riscos, criando dentro de casa hábitos nos quais o álcool tenha um papel menos central, menos carregado emocionalmente e menos acessível.
As evidências disponíveis apontam especialmente para as seguintes medidas:
Manter um consumo de álcool moderado e discreto.
As recomendações oficiais sugerem que adultos não ultrapassem dez doses padrão por semana, enquanto a abstinência continua sendo a opção mais segura para menores de 18 anos;
Não oferecer bebidas alcoólicas aos adolescentes, mesmo com boas intenções.
Estudos australianos mostram que essa prática está associada, a longo prazo, a maior consumo e mais problemas relacionados ao álcool;
Estabelecer regras claras e conversar sobre álcool de forma tranquila, frequente e coerente.
Uma pesquisa longitudinal mostrou que adolescentes consumiam menos álcool quando regras rígidas eram acompanhadas por diálogo constante e de qualidade com os pais;
Ter atenção especial ao próprio consumo quando os filhos têm entre 15 e 17 anos, já que essa parece ser a fase em que a influência familiar é mais determinante.
Se seus filhos já são adultos, seu exemplo ainda pode fazer diferença.
Meu estudo mostra que a influência dos pais reaparece quando os filhos formam suas próprias famílias, especialmente no caso das mulheres.
Os hábitos transmitidos anos antes podem ressurgir quando esses adultos passam a decidir que tipo de ambiente familiar desejam construir.
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Os pais não controlam tudo.
Amigos, estresse e contexto social também exercem influência.
Ainda assim, eles ajudam a moldar o pano de fundo: essa mensagem discreta, porém constante, que transmite para que serve o álcool e qual lugar ele deve ocupar em uma vida comum.
* Sergey Alexeev é pesquisador sênior da Universidade de Sydney e da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW)
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons.
Leia o artigo original.
Que cuidados você deve tomar ao consumir álcool na frente de seus filhos?
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