O sonho nasceu ainda menino, ao ver o pai conduzir uma embarcação pelo Rio Guaíba, em Porto Alegre.
Décadas depois, aquela lembrança de infância virou projeto de vida.
O advogado aposentado gaúcho Celsom Costa Júnior, de 62 anos, deixou a rotina urbana, transformou um barco em moradia e passou a percorrer o litoral brasileiro até escolher Paraty, na Costa Verde fluminense, como seu novo endereço.
Há cerca de dois anos, vivia na cidade.
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A trajetória construída no mar terminou de forma trágica nesta semana.
Depois de desaparecer durante a ventania que atingiu o Estado do Rio na quarta-feira, Celsom foi encontrado morto pelo Corpo de Bombeiros por volta das 10h30 desta quinta-feira, na Praia de Tarituba, na mesma Paraty.
Com a confirmação da identidade dele, chegou a três o número de mortos em decorrência dos fortes ventos que atingiram o estado.
Dos tribunais ao mar
Há cerca de sete anos, Celsom deixou Porto Alegre e iniciou uma viagem pela costa brasileira.
Navegou por Santa Catarina, Paraná e São Paulo até ancorar em Paraty.
O barco, batizado de Avalon, deixou de ser apenas um meio de transporte e passou a ser sua casa.
Era ali que acordava todos os dias, pescava, tocava cavaquinho, recebia amigos e registrava a rotina a bordo.
A relação com a embarcação era tão forte que o Avalon ganhou até um perfil próprio nas redes sociais.
Amigos contam que Celsom havia passado os últimos dias com familiares em Porto Alegre.
No domingo, embarcou de volta ao litoral fluminense depois de ser avisado de que o Avalon apresentava um vazamento.
Voltou disposto a resolver o problema e seguir a rotina que havia escolhido para si.
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Segundo a prima Elisa Costa, de 45 anos, hoje moradora de Curitiba, a ligação de Celsom com o mar vinha desde a infância e acompanhou toda a vida dele.
— Desde pequeno ele gostava muito do mar.
Era um sonho que carregava havia muitos anos.
Quando conseguiu realizar, viveu exatamente da maneira que queria.
Ele era muito feliz ali — contou ao GLOBO por telefone.
Embora tenha construído carreira como advogado, Celsom nunca abandonou o desejo de viver a bordo de uma embarcação.
No mar, encontrou uma rotina cercada por pescarias, música e encontros com amigos.
Suas redes sociais eram repletas de fotografias dos peixes que pescava, das paisagens da Costa Verde e dos momentos vividos na embarcação ou na beira da praia.
Para o amigo Luis Fernando Fabre, que o conhecia havia anos, o barco representava muito mais do que uma casa.
— Ele largou a vida urbana para viver perto do mar, que era a grande paixão dele.
O Avalon era muito mais do que um barco.
Era o lugar onde encontrava paz e liberdade.
Todo mundo que o conhecia sabia o quanto aquela embarcação significava para ele.
A vida a bordo, segundo familiares e amigos, não afastou Celsom das pessoas.
Pelo contrário.
Ele era conhecido pela facilidade em fazer amizades e pelo jeito acolhedor.
A demonstração desse carinho também apareceu nas dezenas de mensagens deixadas por amigos nas redes sociais após a confirmação de sua morte.
— Ele era muito festeiro, gostava de reunir as pessoas.
Fazia amigos com muita facilidade.
E o churrasco dele era o melhor — lembra Elisa.
Natural de Porto Alegre, Celsom deixa dois filhos, uma já adulta e um menino, ambos no Rio Grande do Sul.
Após a confirmação da morte, familiares começaram a se mobilizar entre diferentes estados para acompanhar os procedimentos e organizar a despedida.
O Corpo de Bombeiros mobilizou diversas equipes nas buscas por Celsom, encontrado na Praia de Tarituba na manhã desta quinta-feira.
Além dele, outras duas pessoas morreram após serem atingidas pelo desabamento de um muro durante a ventania.
As rajadas ultrapassaram 100 km/h em alguns pontos do estado, provocaram destruição, deixaram mais de 1,6 milhão de imóveis sem energia elétrica e interromperam a circulação de trens e do metrô na capital fluminense.
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