Sabe-se lá que autores o jovem repórter andava lendo naqueles tempos, mas uma de suas pretensas bossas era salpicar interrogações ao final das frases.
Achava moderno, disruptivo, embora a palavra ainda nem existisse.
Um dia, encarregado numa revista de editar um desses textos cheios de perguntas à guisa de estilo, Elio Gaspari usou a sinceridade sábia, típica dos filhos de italianos criados na Lapa carioca.
Deu uma de suas preciosas lições de jornalismo ao jovem repórter:
— Repórter faz perguntas às fontes e publica as respostas.
Não fica perguntando ao leitor.
É o leitor quem paga você para descobrir essas respostas.
Desde então, o jovem repórter nunca mais perguntou nada em seus textos.
“Menos estilo e mais informação” virou seu mantra.
Quando vê nos jornais, e isso ainda é tão normal, um título com ponto de interrogação, agradece baixinho ao grande mestre.
O tempo passou.
O não-mais-jovem, o não-mais-repórter, agora é encarregado de encher o espaço da crônica, uma terra de ninguém em que vale quase tudo — inclusive este nariz de cera para justificar a interrogação no título acima.
Quem?
Para os que assistiram ao filme “O convite”, “pula-pula” pode provocar uma associação com o relacionamento do casal do apartamento de cima, um eufemismo para o troca-troca de parceiros.
Não é o caso desta vez.
Também não existe no Leblon uma casa de saliências com esse nome (e o copyright da ideia está liberado).
Enfim, todo esse introito é apenas porque quero perguntar: o que faz um parque de cinco camas elásticas instalado na avenida à beira da praia?
O Rio de Janeiro é uma corrida de obstáculos de estatura olímpica, sempre capaz de inventar novos percalços.
Aos domingos, por uma cortesia inesperada de seus lamentáveis administradores, as avenidas que contornam a orla são fechadas aos carros.
É o mais bonito circuito do mundo para os adeptos da delícia sublime de, sem compromisso, sem agenda, bater perna.
Dá ao pedestre, este cidadão de segunda classe, o direito de pelo menos uma vez por semana usufruir de área livre em sua cidade incrível — só que não é bem assim.
Alguém (quem?) autorizou que no meio do caminho se instalasse não uma pedra poética, mas um extravagante parque de camas elásticas
No Leme, em Copacabana e em Ipanema há todo tipo de atravanco à felicidade de quem insiste em viver apenas em cima de suas humanas duas pernas — as já manjadas bicicletas, patinetes, carrocinhas de camelôs —, mas eis que você chega ao Leblon e o maior deles aparece.
Alguém (quem?) autorizou que no meio do caminho se instalasse não uma pedra poética, como a do Drummond, mas — aí sim, disruptivo e inacreditável — um extravagante parque de camas elásticas.
Uma criança aos pulos é uma das imagens mais bonitas produzidas pela catastrófica passagem do Homem pela Terra.
Um pula-pula, porém, plantado ali, do nada, por quase cem metros de extensão, numa espécie de Parque Shanghai do Leblon, é uma ilustração daquela música do Caetano, a evidência de que alguma coisa está fora da ordem pública.
O domingo é do pedestre.
Saiam da frente.
Ele quer andar finalmente sem preocupações, arejar as ideias com a brisa que sopra do mar — porque amanhã os obstáculos estarão todos de volta.
Quem pula no pula-pula do Leblon?
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