Quando a Lagum foi criada em 2016, o verso “faço planos para agosto de 2026”, da canção '2026', não era nada além de uma rima que refletia a ansiedade em viver logo de música.
Agora, a banda já consolidada celebra uma década de carreira com a turnê 'Lagum em Todo Lugar', que tem a estreia marcada para 17 de outubro, na cidade natal, Belo Horizonte.
O novo show promete homenagear todas as fases desde o primeiro álbum ‘Seja o Que Eu Quiser’ (2016), e deve passar por dez cidades brasileiras.
Além da capital mineira, Rio de Janeiro, Brasília, Ribeirão Preto, Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba já estão confirmadas.
Uma parceria internacional é outro projeto em curso.
A banda de pop e rock americana Maroon 5 anunciou a Lagum como atração de abertura de seus três shows antes da apresentação no Rock in Rio, no dia 12 de setembro.
O quarteto deve acompanhar a turnê ‘Love is Like’ por São José do Rio Preto, no dia 6 de setembro, São Paulo, no dia 8, e Salvador, no dia 10.
Pedro, Zani, Chicão e Jorge abriram o jogo em entrevista à CBN sobre a nova fase da banda após o aniversário de dez anos.
O quarteto refletiu sobre maturidade, bastidores do processo criativo nas ruas e no estúdio, novas referências musicais, autonomia com a criação do Ilhota Estúdios e a ambição de romper a própria bolha para se fazer presente em (quase) todo lugar.
‘Temos muitos desejos’
Se aos vinte e poucos anos a ansiedade e audácia de ser jovem ditavam o ritmo, a chegada dos 30 trouxe um olhar mais cauteloso para o futuro.
A banda não tem metas rígidas, mas compartilha muitos desejos.
‘Ganhar um Grammy’ - Pedro: “Quando chega essa idade dos 30, a gente olha para trás e fala ‘caramba, como eu tinha coragem, como eu fui audacioso’.
Agora, eu fico com medo de fazer planos tão longe, porque eu não quero me frustrar.
Mas diria que a gente tem desejos de ganhar um Grammy, de fazer show em estádio, de gravar um álbum muito f*da, imerso, sabe? Com tempo, com calma.”
‘Quem sabe uma live na Lua’ - Jorge: “Muito do que a gente está trabalhando é para chegar em um patamar que a gente ainda não conquistou, para poder ter a tranquilidade de aparecer quando tem que aparecer, de sumir quando precisar sumir para descansar e depois voltar de novo com uma grande turnê, um grande álbum.
Quem sabe fazer uma live na Lua.”
Lagum por aí
Depois de transformarem cartões postais do Brasil em cenário para versões acústicas, como o Bondinho Pão de Açúcar e o Rio Negro na Amazônia, o grupo ainda vai lançar novos sets, mas prefere guardar segredo sobre os próximos destinos.
As chamadas ‘live sessions’, disponíveis no YouTube, são projetos audiovisuais com performances ao vivo de músicas de sucesso da carreira da Lagum, além de faixas inéditas.
‘Lagum em Todo Lugar não é só o nome de uma turnê’ - Pedro: “A gente está planejando pegar as pessoas de surpresa nos locais, assim como foi a live session da Amazônia.
Nessa nova fase da banda, que se chama ‘Lagum em Todo Lugar’, queremos estar fisicamente em todo lugar, onde a gente quer que a nossa música passe a nossa bolha, aprender com esses lugares, se inspirar por esses lugares."
Vulnerabilidade e identificação
A exposição de sentimentos nas músicas para um público crescente não é um problema para o quarteto, que enxerga a sensibilidade como essencial para a identificação dos fãs com o grupo.
‘Me sinto blindado por ser uma obra de arte’ - Pedro: “Se fosse para ser vulnerável nas redes sociais, eu me sentiria mais acuado, porque ali as pessoas podem falar de um jeito mais direto sobre a minha vida.
Mas, por se tratar de uma música, posso transformar uma história em outra, mantendo um fio condutor.
Eu troco palavras, pessoas e pontos de vista; ninguém sabe o que é verdade, mas ainda assim toca a quem ouve e me toca por fazer.
Sinto que é verdadeiro, mas me sinto blindado pela licença poética”.
‘O mais legal é a interpretação das pessoas’ - Zani: “Tem um lance também na identificação.
Quando você traz uma coisa de dentro de você, uma verdade sua, independente se aquela verdade é de alguém ou não, aquilo vai causar uma identificação.
A gente quer fazer as coisas com verdade, as coisas que a gente gosta, falar das coisas que a gente acredita.
O mais legal disso tudo é como a pessoa vai interpretar aquilo, como que ela vai levar uma dor que eu tenho para ela e transformar isso.”
‘Me disseram que é coisa da geração…’
Na trajetória da banda, muitas letras foram marcadas pelas angústias e delícias de ser jovem.
Os músicos avaliaram o peso das pressões que recaem sobre as novas gerações.
‘Está complexo’ - Pedro: “Agora que a gente está deixando de ser jovem, eu olho para os jovens e falo ‘c*ralho, está complexo’”.
‘Ficar preso na rotina mina os nossos sonhos’ - Jorge: “Eu tenho uma teoria de que, a partir de certa idade, a idade não interessa muito; o que vale mais são as experiências que essa pessoa já teve.
E eu vejo que isso é o que mantém as pessoas jovens.
Eu acho que, muitas vezes, quando a gente, em sociedade, fica preso numa rotina de segunda a sexta, eu acho que isso vai minando nossos sonhos, nossas experiências, vai deixando a gente mais velho.
Estar vivendo coisas novas, seja por força pessoal, sorte ou oportunidade, é o que dá o gás para a vida”.
A liberdade estética da Lagum ao transitar entre pop, rock, reggae e outros ritmos também encontra explicação na forma que a própria geração consome arte.
O guitarrista Zani compartilhou como as referências musicais do dia a dia influenciam nas composições:
‘Reflexo da globalização’ - Zani: “Acho muito natural pela maneira como consumimos música hoje por meio das playlists.
Eu tenho uma que se chama ‘Diversão’, com rap, rock e tudo misturado.
Quando entramos para produzir, trazemos essas referências do que a gente escuta no dia a dia.
É um reflexo da globalização: entregar um reggae, um rock, um pop ou um samba se tornou algo totalmente espontâneo para nós”.
Nas letras, a cidade quase se torna personagem.
Ao transformar a rotina em crônicas cantadas, a banda extrai do cotidiano a faísca que alimenta suas produções.
Ao falar sobre o processo criativo, o quarteto revelou como o dia a dia se torna inspiração para o estúdio.
‘Gosto de ouvir histórias’ - Pedro: “Costumo misturar o que eu vejo com o que ouço, e sinto que eu sou uma pessoa menos de falar, e mais de ouvir.
Muito do que eu me inspiro vem de ouvir vivências das pessoas e, às vezes, juntar o que eu observei do cenário da cidade com a história de alguém.
Gosto muito também de ouvir músicas de rap que têm muitas palavras e de ver as diferentes formas como as pessoas rimam.”
‘Como estalos’ - Zani: “Eu acho que vem muito do dia, da maneira que eu acordo, se eu estou observante ou não.
E vem muito de fora.
Acho que até comunica um pouco do que a gente está falando com o ‘Lagum em Todo Lugar’, de ir para os lugares e trazer de volta.
É você observar alguma coisa e aquilo te bater de certa forma que você traduz para o seu olhar”.
‘Vislumbre da sensação’ - Chicão: “Se tem alguma coisa que eu vejo e piro muito, e eu curto aquilo, e me dá uma sensação legal, eu tenho o vislumbre de tentar criar a mesma sensação que tive em outras pessoas.”
‘Arte às vezes impacta de cara, às vezes cresce com o tempo’ - Jorge: “Tem vezes que artes ou situações impactam logo de cara, chamam a atenção de maneira muito forte no meio de um turbilhão de coisas.
E tem outras vezes que não pega tanto de primeira, mas passa a crescer ao longo dos dias, na repetição de ficar ouvindo um álbum sem parar ou de um livro ficando mais gostoso de ler.”
Zani, Pedro, Chicão e Jorge, da banda Lagum, para a turnê 'Lagum em Todo Lugar'
Divulgação/Lagum/Breno Galtier
O que toca no fone da banda
O histórico de colaborações da Lagum reúne nomes de prestígio do cenário atual da música brasileira, como Anavitória, IZA, Emicida e Jão.
Falando sobre suas referências e artistas com quem ainda sonham em dividir o estúdio, os integrantes da Lagum revelaram inspirações que vão do rap ao rock:
‘Embasbacado com as rimas do Parteum’ - Pedro: “Ultimamente eu estou mergulhando no Parteum, que é um rapper.
Comecei essa jornada e estou embasbacado com as letras, as rimas e as histórias que tem ali.
Acho que vou ficar um bom tempo ouvindo.”
‘Queria um feat com Ney Matogrosso’ - Zani: “Eu vou para a galera das antigas, como quase sempre.
Eu estou ouvindo muito Raul Seixas de novo, que eu acho estarrecedor.
E uma pessoa que eu gostaria de fazer um feat atualmente seria o Ney Matogrosso, que é uma referência, é uma performance incrível, é uma voz sinistra”.
‘Música eletrônica’ - Chicão: “Eu estou numa fase que eu estou curtindo novamente muito música eletrônica.
Não estou muito por dentro dos DJs atualmente, o que está rolando, mas eu acho que a música eletrônica é um campo muito interessante, de produção principalmente, porque é uma base forte com elementos que te pegam flutuando ali.
É um mundo muito legal de explorar e de buscar coisas para trazer ao nosso universo."
‘FBC, conterrâneo de Belo Horizonte’ - Jorge: “Eu tenho gostado muito do FBC, um conterrâneo lá de Belo Horizonte, do rap.
Valorizo muito nele a capacidade de cada obra ir para um estilo e mergulhar de cabeça.
A gente também faz isso de uma forma mais sutil, de misturar várias coisas.
Enxergo que é uma pessoa que tem uma biblioteca de referência, de palavras e de conceitos muito fortes, que eu acho que daria uma soma bem legal”.
‘Casca grossa’ e estúdio próprio: a nova independência da Lagum
Se no início a trajetória independente nasceu pela falta de estrutura, hoje a autonomia da banda ganha outro significado.
Após passagem pela Sony Music, com o lançamento do álbum ‘As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo’ (2025) a Lagum voltou a ser banda independe, mas com o próprio estúdio de gravação, o Ilhota Estúdios.
Sobre esse momento, Pedro Calais afirmou que é um privilégio ser independente tendo sua própria estrutura e falou sobre o processo até alcançar esse novo patamar.
Ser "casca grossa" foi essencial: "carregar o próprio instrumento, honrar a palavra, entender o que é um contrato e valorizar cada cachê".
“A gente montou o nosso estúdio, montou a nossa editora, estabeleceu uma forma de distribuir as nossas músicas que é confortável para a gente a nível de negócio, a nível artístico e de entrega.
A gente esteve dentro de uma gravadora por anos e viu como funciona a comunicação, a distribuição, as estratégias e a linguagem do mercado.
Então a gente volta a ser independente com a cabeça e uma casa mais estruturada.”
Quando questionados sobre um álbum novo, o vocalista foi enfático: “Músicas novas, sim.
Álbum ainda não”.
Mais do que celebrar dez anos de estrada, a trajetória da Lagum se consolida pela resistência da parceria.
Para Zani, manter quatro cabeças alinhadas na mesma frequência é uma conquista rara.
“Hoje em dia é muito fácil você fazer um som sozinho no seu quarto, e muito difícil você encontrar quatro pessoas e chegar em um acordo.
E eu acho que isso tem uma grandeza muito f*da entre nós quatro.
Independente das discordâncias – lógico que ninguém concorda 100% do tempo – a gente tem a nossa relação.
Cada um é de um jeito.
A gente mudou durante esses dez anos todos, mas eu acho que esse é o grande lance de ser uma banda”, concluiu.
A venda de ingressos para as datas anunciadas é feita pelo site oficial da Ticketmaster.
*Estagiária sob supervisão de Amanda Mazzei.
