Quem se beneficia da queda do turismo no Golfo Pérsico? - QTU Questões do Universo

Quem se beneficia da queda do turismo no Golfo Pérsico?

Fonte: Bandeira da fonte

A lenta recuperação do turismo de cidadãos de fora do Conselho de Cooperação do Golfo está provocando uma reconfiguração profunda na economia global de viagens, transformando a crise geopolítica do Oriente Médio em um motor de crescimento financeiro para mercados emergentes concorrentes, aponta a consultoria Capital Economics.

Enquanto hubs tradicionais como Dubai e Bahrein enfrentam o esvaziamento de suas altas temporadas de inverno, destinos alternativos de sol nas Américas, África e Ásia consolidam-se como os grandes vencedores econômicos desse novo cenário global.
O temor de novos conflitos armados e a persistência no cancelamento de voos afastaram os viajantes de longa distância que historicamente sustentavam o comércio de luxo e a hotelaria de alto padrão na região.

Indicadores econômicos locais revelam a gravidade desse cenário, destacando-se a queda drástica de cerca de 40% nos gastos com cartões de crédito e débito emitidos fora do Golfo no Bahrein, enquanto o consumo interno e regional já se recuperou amplamente.
Esse esvaziamento atinge diretamente o coração financeiro de economias altamente dependentes de visitantes globais, como Dubai, que exibe sinais claros de crise no seu setor turístico justamente no período que antecede a alta temporada de inverno, entre dezembro e fevereiro.
No ano passado, diz a consultoria, o número de visitantes no quarto trimestre foi cerca de 50% maior do que no terceiro trimestre.
Vista geral do luxuoso Hotel Burj al-Arab na área de Jumeirah, em Dubai,
REUTERS/Karim Sahib/Pool/Foto de Arquivo
Casos históricos de crises anteriores sugerem que a retomada total da confiança do viajante internacional e a cicatrização da imagem de um destino podem levar anos, o que consolida uma transferência estrutural de receitas para outras regiões do planeta.
Essa fuga de capital e passageiros gera um impacto fiscal imediato e positivo em economias menores que oferecem alternativas de clima ameno durante o inverno do hemisfério norte.
Pequenos países do Caribe registram um forte aumento na procura por parte de turistas da Europa Ocidental, injetando moeda forte diretamente em suas balanças comerciais e elevando a arrecadação de impostos sobre serviços.
Da mesma forma, as ilhas do Oceano Índico absorvem o fluxo de viajantes de alto poder aquisitivo vindos da Rússia, da China e da Índia, permitindo que resorts elevem suas tarifas diárias e impulsionem o emprego local.
Em uma escala macroeconômica maior, Marrocos e Tailândia despontam como os grandes amortecedores globais dessa crise, onde o país africano se beneficia da proximidade geográfica e segurança para os europeus, e a nação asiática se consolida como o principal hub alternativo de férias de longa distância, fortalecendo suas reservas internacionais e valorizando suas moedas locais através do turismo.

Essa dança das cadeiras no turismo internacional força uma reestruturação operacional severa e dispendiosa no setor aéreo, dividindo o mercado entre empresas em crise e operadoras que lucram com o novo cenário.
As gigantes da aviação do Golfo, cujo modelo de negócios depende da conexão entre o Ocidente e o Oriente através de seus aeroportos centrais, perdem o valioso passageiro que realizava paradas intermediárias de alguns dias em Dubai ou Doha.
Além da perda de demanda, essas companhias enfrentam custos operacionais elevados, sendo obrigadas a queimar mais combustível para traçar rotas significativamente mais longas que desviem de zonas de exclusão aérea e tensões geopolíticas.

Em contrapartida, as companhias aéreas de bandeira dos países beneficiários operam com taxas recordes de ocupação em voos direcionados ao Caribe e ao Sudeste Asiático.
A corrida para abrir novas frequências e rotas diretas que evitem o Oriente Médio confere a essas empresas um poder de precificação histórico, permitindo o repasse integral dos custos de combustível para o preço final das passagens e expandindo suas margens de lucro trimestrais em detrimento das concorrentes árabes.
O estudo assinado pelo economista-chefe para mercados emergentes, William Jackson, conclui que bloco do Golfo Pérsico e suas companhias aéreas amargam perdas financeiras severas e de longo prazo.
Requisitos de imigração mais restritivos para portadores de passaportes russos, chineses e indianos podem limitar o leque de países para onde o turismo desses países se desloca.
Em contrapartida, os grandes beneficiados são as pequenas economias insulares do Caribe (como Barbados) e do Oceano Índico (como Maldivas e Sri Lanka), além de Marrocos e Tailândia entre os maiores mercados emergentes.
Para estes países, a mudança nos padrões de viagem gera um impulso econômico substancial, sustentado pela facilidade de vistos.