O avanço da economia paralela vem corroendo o mercado formal no Estado do Rio.
Não bastassem a exploração do fornecimento de internet e a venda de produtos essenciais — de tijolos à farinha usada no pão nosso de cada dia —, organizações criminosas agora produzem até dinheiro falso.
Ontem, a Polícia Civil localizou uma fábrica de notas no Complexo da Maré, conhecido entreposto de cargas e veículos roubados.
Levantamento feito pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) dá a dimensão do impacto desses negócios clandestinos.
Segundo a entidade, a insegurança e a ilegalidade impõem um custo adicional de R$ 31,1 bilhões por ano à economia fluminense, o equivalente a 2,3% do PIB estadual.
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‘Custo rio’
O relatório “Custo Rio — O Desafio da Competitividade Fluminense” divide esse valor em duas categorias.
A primeira se refere ao impacto direto da violência sobre o funcionamento das empresas, que inclui despesas com segurança privada, seguros, logística e gestão de riscos, além de perdas de produtividade e de atratividade para novos investimentos.
Essa conta chega a R$ 9,7 bilhões por ano, o equivalente a cerca de 0,7% do PIB estadual.
O estudo coloca num segundo bloco um prejuízo de R$ 21,4 bilhões causado pelos mercados ilícitos à produção, à circulação e à comercialização de bens.
De acordo com a Firjan, dois em cada três empresários fluminenses consideram a segurança pública um fator essencial na hora de decidir onde investir.
O estudo também mostra que a maior parte dos custos relacionados à insegurança não decorre das perdas diretas provocadas por crimes, como roubos de cargas e mercadorias.
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Custo Rio
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Dados da segurança
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— Mesmo o empresário que nunca teve uma carga roubada é afetado pelo aumento do custo do frete, pelo encarecimento dos seguros e pela necessidade de contratar escolta armada para transportar mercadorias.
São custos indiretos que impactam investimentos no estado.
Esses fatores reduzem a competitividade e prejudicam a própria economia, que perde oportunidades de desenvolvimento e de consumo em diversas localidades hoje afetadas pelo domínio territorial — explica Isaque Ouverney, gerente de Infraestrutura da Firjan.
Segundo Ouverney, o custo adicional para manter empresas operando no estado é um fator levado em consideração por investidores na hora de instalar ou manter um negócio no Rio:
— É impossível dizer que a segurança pública não influencia as decisões de investimento e de permanência das empresas no estado.
Quando o seguro fica mais caro, o frete aumenta e há necessidade de um monitoramento muito maior do que em outras regiões, tudo isso pesa na sustentabilidade do negócio.
O secretário estadual de Fazenda, o economista Guilherme Mercês, segue a mesma linha ao ressaltar a importância da segurança pública para a economia do estado:
— A Reforma Tributária reforça a importância da segurança pública para o ambiente de negócios do Rio.
Com o fim dos incentivos fiscais previstos na mudança (em 2033), até então o principal fator de decisão das empresas para se instalar em um estado, outras questões passam a pesar mais: infraestrutura, formação de mão de obra e segurança pública.
Nesse novo cenário, a segurança pública se torna peça-chave para atrair empresas e gerar empregos.
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Gabriel de Paiva
Para o secretário de Segurança Pública, Victor Santos, a estratégia de investigação conhecida como “follow the money” — rastreio do fluxo do dinheiro para identificar a origem ilícita dos recursos — já não é suficiente, justamente porque facções e milícias passaram a atuar de forma estruturada no mercado formal.
— O criminoso mudou, e nem sempre o recurso usado para abrir uma empresa vem de uma fonte ilícita.
A Polícia Civil precisa mudar a forma de investigar: deixar de olhar apenas para o criminoso e passar a olhar para o negócio dele.
Santos afirmou que, apenas em Rio das Pedras, comunidade da Zona Sudoeste dominada pela milícia, os criminosos faturam cerca de R$ 4 milhões com a venda de gás por mês e outros R$ 3 milhões com a oferta de internet.
— Hoje, o domínio territorial é o que garante às organizações uma capacidade de arrecadação muito maior, e esse dinheiro já nasce dentro da economia formal.
Na região de Rio das Pedras, Muzema e Gardênia Azul (onde será implantado um projeto de retomada de território), uma plataforma de imóveis informou que foram movimentados cerca de R$ 10 milhões em compra, venda e aluguel de imóveis em um ano — revelou o secretário, durante o seminário Caminhos do Rio, dos jornais O GLOBO e Extra.
Negócios diversificados
As facções diversificam seus negócios dia após dia.
Na Maré, onde já foram localizados uma mineradora de criptomoedas e um condomínio com 40 prédios em construção pelo tráfico, policiais civis encontraram uma fábrica de notas.
No imóvel, além das cédulas falsas, foram apreendidos uma impressora, um equipamento para corte das folhas usadas na produção e drogas.
Mineradoras, que consomem muita energia elétrica, foram descobertas em outras favelas.
Nos bairros que mais sofrem com a criminalidade, um reflexo visível é o número de lojas fechadas no comércio de rua.
O diretor de distribuição da Light, Rodrigo Brandão, explicou ao GLOBO que os furtos de energia e de cabos impactam na economia e na prestação de serviços pela concessionária:
— Hoje, a gente tem cerca de 30% da nossa base de clientes em áreas sem acesso para cobrança comercial.
Somando as áreas de acesso parcial, isso dá quase metade das unidades consumidoras da concessão.
A Light tem 4,5 milhões de unidades cadastradas, mais de dois milhões estão em áreas onde não conseguimos exercer a gestão de forma plena.
Além da perda de receita, sofremos com a precariedade da rede elétrica nessas localidades onde o furto é abrangente.
Danos em confrontos
Além disso, há o custo para reparar danos causados durante operações policiais.
Uma ação no Complexo do Alemão, no ano passado, resultou na explosão de 45 transformadores.
Nesta época, incluindo outras áreas, foram 120 equipamentos danificados em decorrência de conflitos.
A concessionária Enel informou que não tem o valor estimado do prejuízo causado pela atuação das organizações criminosas, mas afirmou que as áreas de risco são responsáveis por 62% do total de perdas não técnicas registradas e 17% dos endereços cobertos pela empresa ficam em local com “severa restrição operacional”.
Em nota, a Conexis Brasil Digital, que reúne as empresas de telecomunicações e de conectividade, informou que o bloqueio de acesso das equipes a áreas dominadas por criminosos vem aumentando, o que impacta a qualidade do serviço.
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