Redução da pressão noturna da água completa 1 ano, e Sabesp aponta economia de 193 bilhões de litros - QTU Questões do Universo

Redução da pressão noturna da água completa 1 ano, e Sabesp aponta economia de 193 bilhões de litros

Fonte: Bandeira da fonte

Nesta quinta-feira (27), a gestão da pressão noturna de água na região metropolitana de São Paulo completa um ano, com uma economia de cerca de 193 bilhões de litros de água, segundo a Sabesp, a companhia de saneamento básico do estado.
Conforme a empresa, o volume obtido com a diminuição da pressão nos canos é o suficiente para abastecer 33 milhões de pessoas, mais de duas vezes a população da capital paulista, ou toda a população do Peru, por 30 dias.
A Sabesp diz ainda que a economia acumulada equivale a um ano inteiro de produção do sistema Rio Grande, quarto maior sistema de captação e tratamento de água do estado e que abastece diariamente mais de 1,5 milhão de pessoas no ABC Paulista, nas cidades de São Bernardo do Campo, Santo André e Diadema.
A gestão da pressão noturna é uma ação preventiva e temporária, e atende a uma deliberação da Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo), com o objetivo de preservar os reservatórios que abastecem a região, devido à fase de estiagem que começou no ano passado e continua sem previsão de terminar.
Desta forma, também não há prazo para que a medida chegue ao fim, ainda mais porque o fenômeno El Niño está se intensificando e deve provocar ondas de calor sem chuva no estado, piorando a situação dos mananciais de água.
Segundo Antonio Carlos Zuffo, professor do departamento de Recursos Hídricos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a diminuição da pressão é uma prática muito comum na gestão de perdas de água, principalmente, nas redes onde há muitos vazamentos.
Ele explica que, durante o dia, quando o consumo é alto, a água circula pelos canos e a pressão dinâmica é mais baixa.
À noite, com todo mundo dormindo, essa circulação diminui e a pressão estática sobe muito, potencializando os vazamentos na rede.
Assim, a diminuição da pressão à noite ajuda a diminuir os vazamentos, gerando a economia citada pela Sabesp.
No entanto, há o lado negativo dessa economia: a água pode não chegar a lugares altos e periféricos, prejudicando a população dessas áreas.
"As pontas de rede, mais periféricas, são as primeiras a ficar sem água e as últimas a recuperar.
Se não tiver reservatórios, acaba ficando sem abastecimento.
Quando sai para trabalhar, a água está voltando e, quando retorna à noite, não tem água", diz Zuffo.
A Folha mostrou em julho que a sensação é de racionamento para parte dos moradores que vivem em áreas de redução de pressão, como no ponto mais alto do Jardim D'Abril, no extremo oeste da capital paulista.
"Quando chegam do trabalho, no começo da noite, as pessoas não conseguem tomar banho porque a água fica fraca e o chuveiro queima", relatou na ocasião o líder comunitário Anailson Santos Lima, 48.

Na zona sul, os distritos de Parelheiros, Capela do Socorro, M'Boi Mirim e Cidade Ademar são os mais afetados.
Na zona leste, as queixas de intermitência são frequentes em São Mateus, Cidade Tiradentes, Itaquera e Guaianases.
Já na zona norte, Perus, Brasilândia e Vila Nova Cachoeirinha aparecem como áreas de criticidade elevada.
Zuffo destaca que outro problema na região metropolitana de São Paulo é a contaminação da rede, provocada justamente pelo processo de diminuição e aumento da pressão.
"Quando a pressão cai nos canos e fica negativa, a água que vazou durante o dia para o lençol freático retorna e contamina a rede.
Esses pontos negativos ocorrem nos lugares mais altos ou nas pontas de rede, que sofrem maior variação de pressão", completa.
José Carlos Mierzwa, professor do departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da USP, concorda que a redução de demanda noturna era a única solução a ser tomada um ano atrás, ainda mais por causa da complexidade da região, que possui 39 municípios.
Ele afirma que a perda de água atual fica entre 25% e 30%.
Ou seja, de mil litros que saem dos mananciais, cerca de 300 não chegam aos consumidores.
Por isso, ele diz que o ideal seria criar fontes alternativas de abastecimento, como o reúso a partir de esgoto, como já é feito nos EUA, África, países do Oriente Médio, Singapura e Austrália.
"Temos tecnologia avançada suficientemente robusta para produzir água até melhor do que a de mananciais naturais.
Isso traria mais conforto e manteria os níveis dos mananciais", diz Mierzwa, afirmando que isso exige tomada de decisão do governo do Estado, para criar política pública, além de um trabalho conjunto com o Ministério da Saúde para convencer a população de que essa prática é segura e não traz problemas à saúde humana.
Nesta quarta-feira (26), o SIM (Sistema Integrado Metropolitano), composto por sete sistemas (Cantareira, Alto Tietê, Cotia, Guarapiranga, Rio Claro, Rio Grande e São Lourenço), está com 43,9% de seu volume total.
E o Cantareira, que representa metade do fornecimento de água da região metropolitana de São Paulo, está com 33,6%.
E caindo.

A boa notícia é que, entre junho e julho, a chuva foi acima da média nas regiões que abastecem o SIM, o que deu um alívio no sistema e possibilitou a diminuição do tempo da redução da pressão noturna.
Outro fator que tem ajudado o Cantareira é o aumento da transposição das águas do rio Jaguari, na bacia do rio Paraíba do Sul, que abastece parte do estado do Rio de Janeiro.
Essa é apenas uma interligação que ajuda a manter o abastecimento de água na região mais populosa do estado.
As interligações realizadas desde a grande crise hídrica de 2014 e 2015 ajudaram a melhorar a segurança hídrica de São Paulo, possibilitando a transferência de água de um sistema para o outro, dependendo da necessidade.
Uma das entregas que reforçaram essa estrutura é a transferência de água do rio Itapanhaú, no litoral, para o sistema Alto Tietê, concluída em 2025, que adicionou até 2.000 litros por segundo à capacidade de abastecimento.
Segundo a Sabesp, uma nova alternativa será a interligação entre a represa Billings e o sistema Alto Tietê, que disponibilizará mais 4.000 litros por segundo.
Essas medidas de transposição ganham ainda mais importância na Grande São Paulo, uma região que possui baixa disponibilidade natural de água e precisa buscar recursos em mananciais localizados a grandes distâncias.

Segundo a Sabesp, a região possui apenas 149 mil litros por habitante ao ano, frente aos mais de 1,7 milhão de litros considerados ideais pela ONU (Organização das Nações Unidas).