Reino Unido vai treinar soldados em

Reino Unido vai treinar soldados em 'Fortnite turbinado', com cópias virtuais de cidades reais

Fonte: Bandeira da fonte

O exército britânico vai treinar seus soldados dentro de réplicas digitais de cidades reais, construídas sobre a mesma tecnologia que sustenta jogos eletrônicos de mundo aberto.
A decisão está no contrato de 2 bilhões de libras (R$ 13 bilhões) assinado em 10 de julho pelo Ministério da Defesa do Reino Unido com o consórcio Omnia Training, liderado pela Raytheon UK e formado por outras quatro empresas britânicas: Capita, Cervus, Rheinmetall UK e Skyral.
O acordo dura 15 anos e prevê treinar até 60 mil militares por ano, em exercícios que vão de equipes de 100 pessoas a formações de 50 mil.
Uma demonstração do sistema, acompanhada pelo jornal The Guardian, mostra um comboio da Otan avançando por Riga, capital da Letônia.
As ruas são as verdadeiras, com as lojas de kebab e a farmácia que existem nelas.
Um tanque é atingido por uma explosão em um cruzamento do centro.
Os pedestres que fogem e se aglomeram a distância foram modelados a partir da população real da cidade: uns idosos, outros jovens, parte simpática à aliança militar, parte nem tanto.
De dragões a tanques
A empresa responsável por esse ambiente é a Skyral, criada em junho de 2023 a partir da divisão de defesa e segurança nacional da Improbable, companhia britânica de software conhecida por motores de jogos e projetos de metaverso.
A operação transferiu cerca de 70 engenheiros e modeladores, além de contratos já existentes com o Ministério da Defesa, para um grupo de investidores liderado pela gestora luxemburguesa NOIA Capital.
Em 2025, a companhia captou US$ 20 milhões (R$ 101 milhões) em uma rodada Série A.
Naomi Hulme, copresidente-executiva da Skyral, resume o produto como algo próximo de "um Fortnite turbinado".
Ela trabalhou 20 anos na BAE Systems antes de fundar a empresa com Jason Kennedy, ex-executivo da fabricante de tecnologia militar Raydon.
O ponto de partida foram os mundos virtuais que a Improbable já havia desenvolvido para jogos.
"Se você troca magos por soldados e dragões por tanques, aquilo se torna bastante aplicável à defesa", disse ao Guardian.
O termo que a Skyral usa para descrever o que faz é "gêmeo digital".
Vale explicar: a expressão nasceu na indústria para designar modelos virtuais de máquinas, usados em manutenção preditiva.
Uma montadora simula, por exemplo, como as pastilhas de freio de um carro vão se desgastar depois de cinco anos de uso, sem precisar desgastar pastilha nenhuma.
O que mudou foi a ambição da cópia: agora ela tenta reproduzir cidades inteiras, com rede elétrica, malha de transporte e perfil etário e educacional dos moradores.
"Virou um termo da moda", afirma Wiktor Dotter, presidente-executivo da Power Size Technologies, empresa de tecnologia para defesa e automóveis sediada em Royal Leamington Spa, na Inglaterra.
Sua companhia trabalha com os militares britânicos, americanos e de outros países em outra frente: modelos virtuais de sistemas de energia, das baterias de um tanque aos painéis solares de um acampamento no deserto.
Segundo Dotter, o setor de defesa é especialmente receptivo porque as compras são caras, as decisões passam por filtros políticos e testar um tanque novo é bem mais complicado que testar um carro novo.
"Você quer experimentar painéis solares no deserto? Dá para fazer isso na simulação.
Quer ter a ideia maluca de um tanque de guerra híbrido? Também dá para fazer aqui.
Temos dados suficientes."
Empilhando camadas de informação
A proposta comercial da Skyral não é ensinar um piloto a operar um F-16, e sim treinar comandantes nos efeitos em cadeia das próprias escolhas.
Um míssil que atinge uma rua movimentada faz a população fugir.
O mesmo míssil, se derruba uma usina de energia em um dia frio de inverno, empurra essas pessoas para abrigos completamente diferentes, com consequências sobre logística, infraestrutura crítica e comportamento civil.
Militares treinam em ambientes virtuais há décadas.
Em 2002, o exército americano lançou o America's Army, um jogo de tiro multijogador que buscava reproduzir situações de combate e foi criticado por funcionar como propaganda das forças armadas.
A diferença agora é de grau: em vez de um cenário isolado, a proposta é empilhar camadas de informação sobre um mesmo território.
Pesquisadores da Otan também trabalham com gêmeos digitais, em geral em escopos mais restritos, como modelos de sistemas submarinos.
Há pouca pesquisa sobre o quanto uma tecnologia como essa melhora de fato a formação militar.
Estudos anteriores indicam que militares treinados em simuladores de voo têm desempenho bem superior em situações reais, mas existem limites conhecidos sobre a fidelidade desses cenários e sobre quanto do aprendizado se transfere para o combate.
O argumento econômico, esse, é mais direto: rodar uma simulação sai mais barato e mais rápido que organizar um exercício com tropas em campo.
O contrato britânico chega em meio a um debate público no país sobre o volume de recursos destinados à defesa e se ele basta diante das ameaças em transformação.
O Ministério da Defesa afirma que o sistema incorpora lições da guerra na Ucrânia e o vincula a um investimento de 298 bilhões de libras ao longo de quatro anos, com a meta declarada de tornar o exército britânico dez vezes mais letal até 2035.
O pano de fundo é a expansão sustentada dos orçamentos militares.
O gasto global chegou a US$ 2,887 trilhões em 2025, alta real de 2,9% e 11º ano consecutivo de crescimento, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI).
A Europa puxou o movimento, com aumento de 14% e US$ 864 bilhões.
O Brasil ampliou seus gastos em 13% no mesmo período, para US$ 23,9 bilhões, o equivalente a 1,1% do PIB e à 21ª posição mundial, com o avanço concentrado em desenvolvimento tecnológico naval e custos de pessoal.
Para a Skyral, o valor do produto está justamente em conectar o que hoje é analisado em separado.
"Todas essas coisas que até agora eram feitas em modelagens muito isoladas passam a ser reunidas", disse Hulme.
"Se você afeta uma delas, vê o impacto em cascata."