Manifestantes protestam contra o ‘Project Jupiter’, um projeto de data center em Santa Fé, no Novo México: presença dessas instalações é criticada tanto por democratas como por republicanos
Susan Montoya Bryan/AP
Os data centers se tornaram um dos temas centrais das eleições de novembro nos Estados Unidos.
A rejeição da população americana à presença dessas instalações cresce por todo o país e é bipartidária, com democratas e republicanos citando temores de impactos sobre recursos naturais e qualidade de vida.
O tema também interessa ao Brasil, já que o estímulo a centros de dados é um dos raros consensos entre os candidatos à Presidência.
A apenas 45 quilômetros da capital americana, Washington, Sterling é um distrito tranquilo com pouco mais de 30 mil habitantes.
Por lá, os moradores estavam acostumados a serem incomodados por aviões que passam pontualmente pelo aeroporto vizinho de Dulles e também pelo vaivém de carros nas vias próximas às rodovias.
Há alguns anos, porém, eles começaram a conviver com um ruído novo: o de data centers.
O barulho se assemelha a o que seria um grande ventilador constantemente ligado.
“Todo mundo quer saber dos data centers”, diz Cris, um senhor de 60 anos que mora em Sterling desde 2013 e que hoje tem uma casa atrás de um data center.
“Eu morava aqui quando todas essas áreas eram árvores”, acrescentou.
Sterling integra o condado de Loudoun e, junto a distritos como Ashburn, forma o “Data Center Alley”, algo como “corredor de centros de dados”.
De acordo com o Data Center Map, o corredor tem a maior concentração de centros de processamento de dados do mundo, com 393 instalações.
Segundo Michael Turner, vice-presidente do Conselho de Supervisores de Loudoun, não houve um dia, em 16 anos, em que um data center não estivesse em construção no condado, mas nos últimos quatro é que as obras se intensificaram.
“Quando estão construindo, é muito barulho”, diz Johnny, que também mora atrás de um data center em Sterling.
Os EUA são o país com a maior concentração de centros de dados no mundo, com 4.767 instalações, segundo o Data Center Map.
A China está em quinto, com apenas 376.
Já o Brasil tem 218, a maioria (59) na cidade de São Paulo.
Os candidatos brasileiros ao Planalto que aparecem em primeiro, segundo e terceiro lugares nas principais pesquisas de intenção de voto mencionam o incentivo a data centers no país em seus programas de governo, mas Lula (PT) e Ronaldo Caiado (PSD) são os que apresentam propostas menos genéricas, com previsão de contrapartidas sociais e ambientais.
Nos EUA, data centers rapidamente se tornaram tema polêmico para as eleições de meio de mandato.
Pesquisa de agosto do Annenberg Public Policy Center, da Universidade da Pensilvânia, constatou que o número de adultos se opondo a data centers em suas regiões aumentou 12 pontos percentuais desde março, para 61%.
Uma pesquisa do Gallup mostra que 75% dos entrevistados democratas se opunham à construção de data centers perto de suas casas, mas 63% dos republicanos também eram contra.
Impactos sobre recursos naturais e qualidade de vida, problemas ambientais, como ruído e contaminação do ar ou da água, e o aumento na conta de luz foram os temores citados.
Com isso, a pressão por moratórias na construção de centros de dados também é crescente.
“Há cinco meses, AOC [Alexandria Ocasio-Cortez, deputada democrata] e eu pedimos uma moratória para novos data centers de IA.
Fomos chamados de ‘radicais’, ‘loucos’ e ‘extremistas’.
Hoje, 75% dos americanos concordam, e centenas de candidatos estão reagindo”, disse o senador Bernie Sanders em uma postagem no X no último domingo.
Dificilmente o projeto avançará no Congresso atual, mas esforços em nível estadual têm feito progresso, escrevem David Klaus e Mark MacCarthy, do Brookings Institution.
Segundo eles, mais de uma dezena de Estados apresentaram propostas proibindo temporariamente data centers.
“A oposição local tem sido mais eficaz.” O gabinete de Sanders afirma que mais de uma centena de comunidades já aprovaram moratórias.
Em julho, o Estado de Nova York, chefiado pela democrata Kathy Hochul, se tornou o primeiro a suspender, por até um ano, a emissão de licenças ambientais ao setor, enquanto trabalha para implementar a regulação pertinente.
Em outra frente, legisladores do Maine revogaram todos os subsídios fiscais a data centers, mas a governadora democrata, Janet Mills, vetou o projeto.
Pouco depois, Mills desistiu de concorrer às primárias para o Senado, alegando falta de recursos.
A disputa é uma das quais os democratas têm chance de virar sobre os republicanos.
Segundo o Centro de Orçamento e Prioridades Políticas (CBPP), 40 Estados americanos oferecem algum tipo de subsídio a data centers.
A perda de receita anual apenas no Texas e na Virgínia é estimada em mais de US$ 1 bilhão para cada.
Isso fora os gastos para mitigar os impactos negativos dos data centers no acesso a energia e água, na saúde e no meio ambiente das comunidades próximas, que são, desproporcionalmente, de pessoas não brancas, destaca o CBPP.
Ao analisar o perfil de 4 milhões de moradores que vivem a menos de 1,6 quilômetro de 550 data centers nos EUA, a Environmental Data and Governance Initiative (EDGI), rede de pesquisadores de políticas ambientais, descobriu que essas pessoas tendem a ser não brancas, em comparação com a média nacional, embora não apresentem renda desproporcionalmente baixa.
Moradores de Sterling próximos a data centers, Johnny é descendente de latinos e Cris é negro.
Segundo Turner, do conselho de Loudoun, o condado estima receita de US$ 1,3 bilhão com impostos sobre propriedades imobiliárias e bens móveis de data centers no ano fiscal de 2027, quase metade (45%) da receita tributária total projetada.
Graças a isso, o condado tem o menor imposto sobre imóveis do norte da Virgínia.
As pessoas não estão convencidas de que o objetivo maior compensa”
Ainda assim, Ali, um paquistanês que mora perto de Sterling e trabalha na região, diz que os moradores estão “irritados” - têm organizado protestos e temem pela perda de valor das residências.
Tanto Cris quanto Johnny afirmam também não sentir que os ganhos econômicos da presença de data centers se refletem nos serviços prestados pelo distrito.
E eles concordam quando são questionados sobre o que diriam aos brasileiros caso uma dessas estruturas fosse se instalar em sua cidade: “Eu diria que não é uma boa ideia”, afirma Cris.
“Eu não acho que eles deveriam construir nas cidades, deveriam ficar longe”, diz Johnny.
Alguns Estados americanos começaram este ano a revisar isenções a data centers.
Mesmo a Virginia, com seu Data Center Alley, passou a cobrar, desde julho, imposto sobre o consumo de energia dos centros de dados.
Mas a governadora democrata, Abigail Spanberger, direciona parte da responsabilidade pelo salto na conta de luz ao presidente Donald Trump.
“Estamos vendo o verdadeiro caos vindo de Washington”, disse em encontro do Politico em julho.
O debate sobre data centers ganhou destaque em outras disputas centrais da política americana em 2026.
Há cerca de um ano, Josh Shapiro, governador da Pensilvânia e um dos potenciais candidatos democratas à Casa Branca em 2028, comemorava o plano da Amazon de investir US$ 20 bilhões em polos de computação em nuvem e inteligência artificial (IA) no Estado.
Ele chegou a criar um licenciamento rápido para isso.
Na semana passada, porém, assinou uma ordem executiva exigindo a aprovação de comunidades locais antes de o Estado conceder licenças para novos data centers.
No Texas, o governador republicano, Greg Abbott, que também concorre à reeleição, suspendeu este mês a aprovação de novos data centers enquanto é realizada uma auditoria que havia determinado.
“Eles não fizeram o dever de casa de conquistar o apoio das comunidades”, disse ao programa “This Week”, da ABC.
“Basicamente, cavaram a própria cova.”
Na corrida ao Senado no Michigan, uma das disputas decisivas se os democratas quiserem conquistar a Casa, o republicano Mike Rogers declarou, na semana passada, apoio a uma moratória de um ano a novos data centers.
O anúncio é uma tentativa de fazer frente ao progressista Abdul El-Sayed.
Na semana passada, o comitê republicano dedicado a eleger candidatos ao Senado emitiu um memorando em que alerta para os impactos negativos dos data centers na candidatura do incumbente Jon Husted em Ohio, que aparece empatado com o democrata Sherrod Brown.
“Essa questão tornou-se um tema inesperado e de grande impacto em todo o ciclo eleitoral”, afirma o comitê.
Para Lisa Kashinsky, repórter de política do jornal Politico, não há uma divisão clara sobre de qual lado cada partido está.
Embora, no princípio, a crítica a data centers tenha partido mais dos democratas, até republicanos pró-mercado entraram na onda, diz.
Ela afirma, porém, não haver uma diretriz clara de Trump - que tem sido apoiado pelos principais bilionários das big techs - aos republicanos.
No último fim de semana, o presidente afirmou que a questão dos data centers é “bastante simples”.
“Se você escolhe a localização certa, e nem todo lugar é ideal para isso, significa para a comunidade empregos, muito dinheiro e impostos mais baixos.
Agora, eu exijo que os data centers gerem sua própria eletricidade”, disse Trump.
“Se eu fosse uma comunidade, iria querer um data center”, acrescentou.
Questionado se esperava que candidatos republicanos adotassem essas postura, Trump disse que “algumas pessoas pensam diferente” e que, “se um republicano for contra data centers, tudo bem”.
Laura TeKrony, supervisora de Loudoun, diz que os moradores não aguentam mais a expansão desenfreada dos data centers, que resulta na construção de linhas de transmissão e subestações visualmente desagradáveis por todo o condado.
TeKrony e a supervisora Juli Briskman apresentarão no mês que vem proposta para restringir ainda mais os centros de dados.
Mais energia também pode significar mais água, por exemplo, para resfriar servidores, sobretudo em data centers antigos.
Os mais modernos precisam fazer uma escolha entre baixo consumo de energia ou alto consumo de água.
“Eles têm escolhido usar mais água para ser mais eficientes e sobrecarregar menos as redes, mas também passaram a ser mais questionados sobre isso”, diz Wittenberg.
Venna, que é de origem indonésia e mora perto de Sterling, diz se preocupar com o acesso à água, que, no seu entendimento, pode ficar cada vez mais difícil com a proliferação de data centers.
A resistência aos centros de dados também reflete preocupações mais amplas da população com IA.
Pesquisa da Universidade Quinnipiac aponta que 80% dos americanos estão preocupados com a IA, e sete em cada dez acham que vão perder seus empregos.
Wittenberg diz que, no fundo, as pessoas “simplesmente não estão convencidas de que o objetivo maior [dos data centers] compensa”.
Para Basilio, que trabalha em um centro de dados de Sterling, as pessoas “estão com medo da mudança, mas elas precisam entender”.
“Eu diria aos brasileiros que não tenham medo, porque é o futuro.
Todo mundo quer nuvem no celular, comprar pela internet, conta bancária online.
Todas essas informações ficam armazenadas em servidores nos centros de dados”, afirma.
Basilio é funcionário da Equinix, empresa que administra um data center em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo.
Ariel Wittenberg, repórter de saúde do Político que tem acompanhado comunidades perto de data centers, observa que, mesmo que as empresas produzam sua energia, isso significa que famílias terão de morar perto de estações.
“Não necessariamente estão endereçando toda a questão”, afirma.
