No pano de fundo da operação desta quinta-feira, que apura suspeitas de compra de votos em Nilópolis nas eleições municipais de 2024, ocorre uma disputa pelo espólio eleitoral das famílias Abraão e Sessim e pelo controle da escola de samba Beija-Flor.
A agremiação é sediada no município da Baixada Fluminense e vive sob influência dos clãs há mais de cinco décadas.
Sobrinho de Aniz Abraão David, o Anísio, patrono da Beija, o prefeito Abraão David Neto, o Abraãozinho, vem brigando por espaço com o primo, o ex-prefeito da cidade Sérgio Sessim, após o vácuo deixado por lideranças políticas mais velhas do clã.
Eleições 2026: Em Nilópolis, clã do bicheiro patrono da Beija-Flor entra rachado na eleição
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Nesta quinta, a PF faz buscas domiciliar e pessoal contra outro primo de Abraãozinho, o deputado federal Ricardo Abrão (PSDB), cuja relação com Anísio é a mais desgastada.
A ação é um desdobramento de uma investigação iniciada em outubro de 2024, que resultou na prisão em flagrante de 24 pessoas, incluindo três policiais militares, na véspera do primeiro turno do pleito local.
Resultou também, em fevereiro de 2025, no cumprimento de mandados judiciais na Operação Astreia, na qual agentes miraram o atual prefeito de Nilópolis.
Como mostrou O GLOBO no domingo, a família entra rachada nas eleições 2026, com divergências entre Anísio e herdeiros de seus irmãos Miguel e Farid.
A atuação no poder público está por trás da ruptura entre os parentes, causada pela insatisfação de Anísio com a gestão dos sobrinhos Abraão David Neto, o Abraãozinho (PL), prefeito da cidade e filho de Miguel, e Ricardo, filho de Farid.
Essa tensão entre os Abraão David, como explicam pessoas do convívio, existe desde a última eleição municipal, em 2024, quando Abraãozinho foi reeleito.
As insatisfações partiriam principalmente de Anísio, que não concordaria com a política local e cobraria mais zelo em relação à cidade, tanto do prefeito quanto de Ricardo.
— Anísio não pode ver Ricardo nem pintado de ouro! Nem a casa um do outro eles frequentam mais.
Acho que é a primeira vez que acontece uma briga interna assim entre os Abraão David, que está ainda pior agora — relata pessoa próxima do grupo.
O “agora” se refere ao apoio explícito de Anísio e seus herdeiros à candidatura à reeleição de Dr.
Luizinho (PP) a deputado federal, assim como de Caio David, outro sobrinho de Anísio e presidente do Instituto Beija-Flor.
A “chapa” defendida por eles inclui João Drumond a deputado estadual — neto de Luizinho Drumond, presidente de honra da Imperatriz Leopoldinense, ele está com a candidatura em análise pelo Ministério Público Eleitoral devido ao parentesco com banqueiros do bicho —, opondo-se a Rafael Nobre (União), que também disputará uma vaga no Legislativo estadual, ligado a Abraãozinho e Ricardo.
Pessoas próximas da família afirmam que a ruptura entre os Abraão David tem intensificado o desânimo de Abraãozinho na política.
Ele estaria esperando o fim do mandato, em 2028, para se afastar da vida pública.
— O Abraãozinho é sobrinho direto do Anísio.
Talvez, tenha faltado a ele se opor mais ao Ricardo para se aproximar do tio, porque a gratidão da família é em relação ao Anísio, ele é o responsável por tudo.
Mas ele nunca fez isso, tanto que as pessoas acham até que o Abraãozinho é fantoche do Ricardo.
Ele assina as coisas com a mão do Ricardo por cima.
E essa atitude acabou isolando ele — esclarece um aliado da família.
As críticas de adversários a Ricardo começam pela personalidade.
Quem apoia Anísio afirma que o sobrinho não respeitaria a “dimensão” do nome do tio, falando com ele de “igual para igual” — comportamento malvisto na família de tradição hierárquica entre os membros.
Ele não acataria pedidos de Anísio em relação a Nilópolis, ao instituto e até à Beija-Flor.
De acordo com interlocutores, Anísio teria procurado Ricardo antes da campanha para propor um acordo.
A família iria apoiá-lo para reeleição a deputado federal, já que o Dr.
Luizinho não dependeria de Nilópolis para conquistar um novo mandato.
Em troca, ele deveria apoiar João para deputado estadual.
Além disso, ainda segundo interlocutores, ele deveria seguir a sugestão da família e disputar a prefeitura em 2028.
Mas Ricardo não abriu mão do apoio a Rafael Nobre, que foi presidente da Câmara Municipal.
Nobre ainda poderia concorrer a prefeito no lugar de Ricardo.
Segundo políticos aliados à família, Anísio teria confessado que Ricardo pensa muito mais em si mesmo e na bolha familiar dele do que no todo do clã nilopolitano.
Contenda familiar
A contenda familiar teve início após a morte de Farid Abraão, irmão de Anísio e pai de Ricardo Abrão, em 2020, em decorrência da Covid-19.
Na época, ele comandava o município e dividia parte do poder político do grupo com o ex-deputado federal Simão Sessim, primo do bicheiro.
Simão também morreu no ano seguinte, aos 85 anos, no contexto da pandemia.
Após as mortes, os primos Abraãozinho e Sérgio Sessim romperam por ressentimentos mútuos, explicam pessoas próximas à família.
No centro das mágoas, está a renomeação do Parque Natural Municipal de Gericinó, na Baixada, com o nome de Farid, em 2022.
A decisão desagradou o clã dos Sessim, porque Simão foi o responsável pela articulação em Brasília para a criação da área.
Pelo lado dos Abraão, pesa o descontentamento de alianças feitas pelos Sessim na Câmara Municipal, fortalecendo a oposição a Abraãozinho.
A disputa entre os dois grupos estava prevista para acontecer também nas urnas em 2024, quando Sessim ensaiou uma candidatura própria para enfrentar o primo.
Na época, ele se filiou ao PT, que integra uma federação com o PCdoB e o PV, e teria conseguido atrair MDB, PDT e PRD.
Segundo interlocutores, ele também tentou negociar com a federação PSOL-Rede, que optou posteriormente pelo lançamento da candidatura de Marcos Lopes (PSOL).
Com a aproximação da convenção eleitoral do diretório municipal do PT daquele ano, porém, Sérgio Sessim abriu mão sua candidatura em nome do apoio ao nome do empresário Rogério Ribeiro (MDB), filho do então presidente da Câmara Municipal Zé Ribeiro (PL).
Em troca, Sérgio apoiou a indicação do próprio filho, o médico Saulo Sessim (Solidariedade), como vice da chapa.
O plano seria unificar a oposição a Abraãozinho em uma frente única.
À época, pesquisas de intenções de voto apontaram que Rogério tinha mais viabilidade eleitoral, mas a chapa terminou em segundo lugar.
Após a derrota e diante da repercussão da operação de outubro do ano passado, representantes da chapa perdedora também ingressaram com pedidos de investigação do grupo político de Abraãozinho na Justiça Eleitoral.
Operação contra compra de votos
A PF investiga uma suposta organização criminosa que teria atuado nas eleições municipais de Nilópolis, em 2024, com suspeitas de compra de votos, fraude à cota de gênero, apropriação de recursos do financiamento eleitoral e lavagem de dinheiro.
Em outubro de 2024, a ação policial ocorreu em um imóvel utilizado pelo então candidato Abraãozinho (PL), para supostamente efetivar a compra dos votos.
Foram apreendidos pouco mais de R$ 63 mil em espécie, um carro adesivado com propaganda do político e uma pistola com dois carregadores.
Além disso, os policiais encontraram uma lista com nome de eleitores que supostamente receberiam para “vender” seus votos.
A corporação citou "o uso de candidaturas laranjas e uma rede de apoio que se estendia a servidores públicos e políticos locais".
O prefeito de Nilópolis (RJ), Abraãozinho (PL)
Reprodução/Instagram
Na operação de fevereiro do ano passado, na casa do prefeito, a PF apreendeu R$ 172 mil em espécie, além de celulares, mídias e documentos.
Em um segundo endereço, no Recreio dos Bandeirantes e atribuído ao procurador-geral da Câmara Municipal, Bruno Cabral Pereira, foi encontrado um carro do modelo Shelby Cobra VB 302, avaliado em R$ 200 mil em sites de colecionadores.
Carro de luxo avaliado em R$ 200 mil apreendido em operação de busca e apreensão que teve como alvo o prefeito de Nilópolis, Abraão David Neto, o Abraãozinho
Divulgação/PF
Abraãozinho foi reeleito na última disputa municipal com 56,74% dos votos.
Em nota da época da Operação Astreia, o prefeito negou as acusações e afirma tem mais de 20 anos de vida pública "pautada pela verdade e pelo comprometimento com a cidade e com os cidadãos".
Ricardo Abrão é alvo
Filho de Farid Abrão David, que foi prefeito de Nilópolis três vezes e presidente da escola de samba Beija-Flor, Ricardo Abrão é alvo de buscas nesta quinta-feira.
Ele assumiu mandato de deputado federal em abril do ano passado após a cassação de Chiquinho Brazão — este último, condenado em fevereiro como um dos mandates do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes em 2018.
Ricardo assumiu a cadeira por ser, à época, o primeiro suplente do União Brasil, ao qual era filiado.
Ele já havia atuado na Câmara quando a deputada Daniela Carneiro, que estava no União, se licenciou para comandar o Ministério do Turismo, no início da atual gestão federal.
Advogado, ele foi deputado estadual no Rio de Janeiro duas vezes e também presidiu a escola de samba, de 2017 a 2021.
Ricardo Abrão, que tenta a reeleição para a Câmara dos Deputados pelo PSDB, já recebeu R$ 480 mil da Direção Nacional do partido para financiar sua campanha.
Até o momento, o repasse do diretório nacional corresponde a 100% dos recursos recebidos pela candidatura.
