Remédios e bebidas ilegais viram ameaça silenciosa à saúde pública - QTU Questões do Universo

Remédios e bebidas ilegais viram ameaça silenciosa à saúde pública

Fonte: Bandeira da fonte

Felipe Liger: “Na área da saúde, o mercado ilegal traduz-se diretamente em risco de morte”
Divulgação
Ao menos uma vez por mês, uma caixa de bolo cruza as ruas de Diadema, na Grande São Paulo, na garupa de um motoboy.
Dentro da embalagem, em vez de doce, está uma ampola que uma manicure compra como tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.
Não há receita, farmácia ou médico nessa cadeia: o pedido de R$ 250, que rende três aplicações, é acertado pelo WhatsApp e o produto, segundo ela, vem do Paraguai.
Em cerca de um ano, a manicure, que prefere não ser identificada, trocou três vezes de fornecedora, perdeu 20 quilos e enfrentou episódios de vômito e diarreia.
O percurso informal de uma substância injetável, da origem incerta à recomendação boca a boca, expõe uma das faces mais recentes do risco que acompanha a expansão do mercado ilegal no país: quando os controles desaparecem, o prejuízo deixa de ser apenas econômico e passa a ser medido também pelos potenciais danos à saúde.
As conversas que começam nos salões de beleza, muitas vezes, terminam em leitos de hospitais.
Clayton Macedo, coordenador do serviço de endocrinologia do exercício da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, afirma que atender pacientes com complicações decorrentes do uso inadequado dessas substâncias se tornou rotina.
“Junto com uma solução que a ciência trouxe para o tratamento da obesidade, tivemos uma epidemia de oportunismo”, diz.
Ele relata casos que vão de náuseas, vômitos e dores abdominais a internações, inclusive em UTI.
Junto com solução para o tratamento da obesidade, tivemos epidemia de oportunismo”
A procura pelas novas drogas contra a obesidade alimentou um mercado paralelo de grandes proporções.
No primeiro semestre deste ano, as apreensões de canetas emagrecedoras pela Receita Federal superaram R$ 80 milhões, mais de 20 vezes o registrado no mesmo período de 2025.
Segundo os médicos, o risco começa pela impossibilidade de saber exatamente o que há dentro desses produtos.
Versões de origem desconhecida não oferecem garantias sobre concentração, composição, esterilidade ou condições de armazenamento.
E nem mesmo as consequências são plenamente conhecidas.
Macedo afirma que as complicações são subnotificadas e que a falta de rastreabilidade dificulta relacionar uma reação ao produto que a provocou.
“Pacientes podem chegar ao atendimento sem informações sobre fabricante, lote ou concentração da substância utilizada, enquanto quem compra contrabando pode evitar fazer denúncias”, afirma.
A ameaça à saúde, porém, vai muito além das canetas.
A lista inclui medicamentos falsificados contra o câncer, suplementos com substâncias não declaradas, cigarros eletrônicos comercializados sem controle sanitário e agrotóxicos ilegais.
Em comum, representam produtos que chegam ao consumidor sem as garantias de procedência, composição e concentração exigidas do mercado regular.
Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, registra aumento nas apreensões de medicamentos e canetas de emagrecimento
Alexandre Cassiano/Agência O Globo
A face mais extrema desse risco apareceu no surto de bebidas adulteradas com metanol, que deixou 22 mortos no país entre setembro e dezembro de 2025.
O episódio tornou visível uma dimensão do comércio clandestino que nem sempre aparece nas estatísticas de apreensões ou nas estimativas de perdas tributárias.
“Tratar a falsificação apenas como infração de propriedade intelectual é uma visão incompleta.
Na área da saúde, o mercado ilegal traduz-se diretamente em risco de morte”, afirma Felipe Liger, médico emergencista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Os danos também podem ocorrer de maneira menos evidente.
Liger lembra que, no caso de medicamentos falsificados, o risco não está apenas em uma eventual intoxicação.
Um produto sem o princípio ativo ou com quantidade insuficiente pode deixar de tratar a doença para a qual foi comprado.
“O paciente acredita estar protegido, mas sofre as consequências da progressão da doença”, diz.
Em casos de hipertensão, diabetes ou infecções, por exemplo, a falsa sensação de tratamento pode resultar em complicações graves.
O impacto pode continuar invisível mesmo quando chega ao sistema de saúde.
Um paciente atendido por uma infecção que não cedeu, uma crise provocada por uma substância desconhecida ou uma doença que avançou, apesar do suposto tratamento, nem sempre será contabilizado como vítima do mercado ilegal.
“O que mais preocupa, do ponto de vista epidemiológico e médico, é o impacto silencioso na saúde, com potencial fatal”, diz Liger.