‘Reportar emissões, cada vez mais, passa a ser uma obrigação’, dizTim Mohin, CEO da GHG Protocol - QTU Questões do Universo

‘Reportar emissões, cada vez mais, passa a ser uma obrigação’, dizTim Mohin, CEO da GHG Protocol

Fonte: Bandeira da fonte

O compromisso de uma empresa para reduzir emissões de gases do efeito estufa requer olhar para a própria cadeia produtiva e encontrar maneiras comprovadas de reduzir sua pegada.
Isso pode ser contabilizado de diferentes maneiras, mas o planeta precisa de metodologias em comum para avançar, argumenta Tim Mohin, CEO da GHG Protocol.
Transição energética: Hidrogênio verde atrai investimentos estrangeiros, sai do 'hype' e entra na fase de negócios no Brasil
Avanço: Projetos levam energia limpa aonde a rede elétrica não chega
No comando desta que é a maior organização global criadora de padrões para ações no setor, Mohin vem ao Brasil defender essa ideia no Congresso Sustentável, evento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que será realizado em 26 de agosto.
Seja diminuindo consumo próprio de combustíveis fósseis, seja comprando créditos em mercados de carbono, a escolha de cada empresa precisa estar acima de qualquer suspeita.
— Precisamos ter certeza de que a tonelada de carbono que se alega remover da atmosfera é efetivamente removida e permanece removida — diz o executivo.
Redução de emissões: Indústria terá de combinar diferentes rotas para descarbonizar sem perder competitividade
O caminho, diz, passa por tornar relatórios de emissão obrigatórios.
Em entrevista ao GLOBO, Mohin fala sobre tendências corporativas na área de clima e sustentabilidade, que, apesar dos solavancos nos EUA, estão avançando.
O sr.
argumenta que relatórios de emissão ajudam empresas a se tornarem mais competitivas e a gerenciarem riscos na transição energética.
Os executivos têm compreendido isso? As notícias são boas?
As notícias são boas, e isso está acontecendo em escala global.
Se eu pudesse resumir minha estratégia como o novo CEO do GHG Protocol em duas palavras, elas seriam maturidade institucional. Sempre existiu uma tendência de divulgação voluntária, mas é preciso caminhar para a divulgação obrigatória em todo o mundo.

Nesse contexto, o GHG Protocol já é utilizado por 97% das empresas do S&P 500 (índice que reúne as ações das 500 maiores empresas de capital aberto dos EUA), pelo Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade (ISSB), pelas normas europeias e pelas da Califórnia.
Cerca de 70 jurisdições exigem o uso do GHGP.
Por causa dos riscos que a mudança climática traz (aos negócios), estamos vendo uma mudança em direção à divulgação obrigatória, pois os riscos são relevantes para investidores.
Quanto o greenwashing ainda afeta relatórios corporativos? As empresas tentam maquiar dados com frequência?
Essa acusação é antiga, e acredito que a situação está melhorando.
Hoje há mecanismos de legitimidade como o Conselho Internacional sobre os Mercados Voluntários de Carbono, que ajudam a garantir que qualquer tipo de crédito adquirido seja confiável. Essas iniciativas amadureceram com os anos e se tornaram muito mais rigorosas.
Se houver alguma dúvida sobre a validade dos créditos, todo o sistema sofre.
No momento, estamos caminhando para um cenário mundial de obrigatoriedade, onde tudo terá que ser auditado, assegurado, transparente, comparável e útil para a tomada de decisões.
Leia também: Transição energética na indústria demanda 'cardápio' variado de fontes de energia, dizem executivos
O mercado de carbono pode fragilizar as contas do corte de emissão das empresas? Créditos de carbono de fato têm ajudado a cortar CO2, ou só deslocam emissões?
Essas questões não precisam ser vistas como uma dicotomia: nenhum crédito de mercado versus todos os créditos de mercado.
Sempre há um meio-termo.
Eu defendo que uma empresa precisa fazer pelo menos alguma mitigação de emissões dentro de sua própria cadeia de valor para, depois, começar a olhar para fora.
Isso é bom porque faz a empresa sentir o impacto e o custo da mitigação em sua operação, para depois prospectar mitigação fora dela.
Como o sr.
vê críticas a abordagens com o CCS (Captura e Armazenamento de Carbono) no setor de óleo e gás, e o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação de Florestas).
Enquanto o primeiro traz riscos de vazamento de CO2 no subsolo, o segundo tem tido dificuldade de validar créditos de carbono.
Nas iniciativas de mercado de carbono voluntário, a validade e a confiança são vitais.
Se os métodos forem superestimados em sua eficácia, isso diminui a eficiência do mercado para todos.
Precisamos ter certeza de que a tonelada de carbono que se alega remover da atmosfera é efetivamente removida e permanece removida. A ciência está evoluindo em CCS e nas práticas de uso da terra, mas em alguns aspectos é ainda incipiente.
Temos de pensar em meios de fomentar uma inovação e incubá-la por tempo suficiente para que obtenhamos o resultado desejado, em vez de criticá-la antes de ela decolar.
No Brasil a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) desobrigou empresas de capital aberto de divulgar relatórios de sustentabilidade.
Esse tipo de retrocesso tem ocorrido em outros lugares?
Sim, mas acho que a tendência geral é de melhora.
O que ocorreu no Brasil é que ele optou por pelo sistema de comply or explain (empresas podem se recusar a adotar o padrão requerido de divulgação, mas precisam explicar aos reguladores detalhadamente por quê).
O Canadá está adiando sua obrigatoriedade.
Cada economia está lidando com o equilíbrio entre custos e benefícios à sua maneira.
Isso é natural e faz parte da irregularidade da curva.
Mas os números como um todo são positivos.
De energia solar em comunidades a aquecedores 'verdes': As soluções para uma transição energética justa
Trump afetou o cenário de sustentabilidade corporativa? Sua narrativa antiambiente está reduzindo a disposição das empresas de aderir a padrões melhores?
Evidentemente, isso teve um impacto nas empresas sediadas nos EUA.
Mas há outro movimento.
Numerosos estudos mostraram que, embora elas falem menos de seus compromissos sustentáveis, elas estão fazendo tanto quanto faziam antes, ou mais.
Muitas questões sobre sustentabilidade fazem parte dos valores corporativos, as empresas não podem mudar valores como quem troca de meias.
Quais assuntos o sr.
trará para sua palestra no Brasil?
A consolidação do GHG Protocol será o principal tema, e o segundo serão as revisões de padrão que estamos promovendo.
Mas o terceiro ponto é provavelmente o maior e mais importante: acreditamos que precisa haver um sistema global mais coerente.
Existe uma sopa de letrinhas de padrões por aí — o ISSB, os europeus etc.
— e aquilo que tenho feito desde que me tornei CEO é entrar em contato com cada um desses outros órgãos normatizadores e defender que temos de nos unir e começar a trabalhar juntos.

Recentemente anunciamos parceria com a Organização Internacional de Normalização (ISO).
Todos os nossos padrões corporativos para medição de gases de efeito estufa serão integrados aos deles em um padrão global.
Isso vai dar trabalho, mas a solução final será uma linguagem comum global, que vai tornar empresas mais propensas a agir.