Em plena mudança de status, de ator regional para um dos protagonistas na cadeia global, o Brasil se vale de um ecossistema particularmente atrativo para a mineração de lítio.
O que o mercado espera, neste momento em que a maioria das projeções indica um crescimento consistente do setor até 2040, é estabilidade econômica internacional.
“Nos interessa a renovação dos ativos minerais sem loucuras de demanda e sem loucuras de oferta”, avalia Vinícius Mendonça Alvarenga, CEO da Companhia Brasileira de Lítio (CBL).
O segmento acaba de atravessar um período de oscilações, iniciado entre 2021 e 2022, com um boom de demanda por veículos elétricos.
Em 2023, os preços começaram a despencar e seguiram em queda até 2025, consequência da superoferta da Argentina e de investimentos pesados da China, líder em produção e refino do lítio, em operações na África.
Resultado: em 2024, o setor registrou recuo de 39,5% das exportações em relação a 2023, totalizando um valor de US$ 302,6 milhões, de acordo com levantamento do Serviço Geológico Brasileiro (SGB).
Atualmente, vai-se consolidando uma retomada, sustentada pela diversidade de aplicações, como a armazenagem de energia para data centers e eletrônicos de alto desempenho.
“Esperamos que o patamar de preços se mantenha elevado.
Mas também não é bom subir muito, pois isso acaba incentivando a inundação de projetos de alto custo no mercado, causando desvalorização”, diz Alvarenga.
O Brasil é um player competitivo, na opinião da geóloga Ioná de Abreu Cunha, responsável pelo Projeto Lítio Brasil, iniciativa do SGB.
“Somos o oitavo produtor mundial e o sexto em reservas.
Nossos depósitos são abundantes e de alta qualidade; nossa matriz energética é 100% verde, temos estabilidade jurídica e tradição na atividade mineradora”, avalia.
O país atua tanto na venda de concentrado de espodumênio quanto de compostos de lítio, como o carbonato e o hidróxido de lítio, produtos do beneficiamento do minério de lítio.
Uma das principais produtoras é a Sigma Lithium, que atua no Vale do Jequitinhonha, onde mantém planta com capacidade para 270 mil toneladas de óxido de lítio por ano.
Para os próximos 12 meses, a companhia estima chegar a 240 mil toneladas, produção direcionada integralmente para Europa, Oriente Médio e Ásia.
Desde a implantação das operações na cidade de Araçauí (MG), em 2023, a Sigma enfrenta conflitos com a comunidade.
No fim de julho, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad) suspendeu parte das atividades em função de danos a cursos d’água em áreas de preservação, desmatamento irregular, uso de água subterrânea e início da exploração antes do previsto pelas licenças.
A mineradora se pronunciou rejeitando “veementemente as alegações” e afirmou “ter cumprido toda a legislação aplicável”, mas concordou em negociar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) incluindo o pagamento de até US$ 540 mil em multas.
O Brasil é um player competitivo, na opinião da geóloga Ioná de Abreu Cunha, responsável pelo Projeto Lítio Brasil, iniciativa do SGB
Divulgação
O Brasil é um player competitivo, na opinião da geóloga Ioná de Abreu Cunha, responsável pelo Projeto Lítio Brasil, iniciativa do SGB
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Na mesma região, nas cidades de Araçauí e Itinga, opera a pioneira CBL, também dona de uma refinaria em Divisa Alegre.
Com capacidade de produção do concentrado de espodumênio de 50 mil toneladas por ano, promove uma expansão em duas fases.
“Nos próximos dois anos, atingiremos 160 mil toneladas.
Depois de mais dois anos, chegaremos a 250 mil toneladas”, diz Alvarenga.
A refinaria produz 2 mil toneladas por ano de carbonato de lítio equivalente (LCE).
Nova no mercado, a Atlas Lithium começa a produzir concentrado de óxido de lítio no quarto trimestre de 2027, com o Projeto Neves, atingindo capacidade de 146 mil toneladas por ano de concentrado de lítio.
O custo operacional estimado é de US$ 489 por tonelada — uma fração do preço do lítio, que girava entre US$ 2 mil e US$ 2,2 mil por tonelada no período do estudo.
“Já recebemos manifestações de interesse de compra três vezes superiores à capacidade planejada da planta”, diz Marc Fogassa, CEO da empresa.
A Atlas detém 557 km2 em direitos minerais de lítio no Brasil.
Com tamanho potencial a ser explorado — dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) apontam que os pedidos de pesquisa cresceram de 96 ao ano em 2011 para mais de 4.200 ao ano em 2024 —, a mineração de lítio se expande da concentração em Minas Gerais para outros estados, como Ceará, onde a Serdam anunciou investimentos de US$ 1 bilhão.
Os investimentos em exploração em 2024 totalizaram US$ 25,3 milhões, dos quais 79,4% em Minas Gerais.
Há, no entanto, um debate em curso no setor, questionando a exportação de produtos refinados de alta pureza em comparação com a do concentrado de espodumênio.
“É preocupante considerar o concentrado de espodumênio como produto de baixo valor agregado.
A CBL tem a tecnologia para a transformação em compostos químicos, mas não estamos mais fazendo esse processamento porque não compensa, não há demanda nacional.
E 95% do mercado internacional é da China.
Não nos falta matéria-prima, know-how, não nos falta uma indústria forte, nem capital.
Mas falta demanda local garantida.
Neste momento, achamos mais conveniente exportar o concentrado”, explica Alvarenga.
Lithium - Time for a comeback
Brazil is moving from being a regional player to becoming one of the leading participants in the global supply chain, benefiting from an ecosystem particularly attractive to lithium mining.
“What the market wants now is international economic stability.
We’re interested in renewing mining assets without any demand or supply frenzy,” says Vinícius Mendonça Alvarenga, CEO of Companhia Brasileira de Lítio (CBL).
The sector went through a period of volatility that began in 2021-2022, driven by a boom in demand for electric vehicles.
Prices started plunging in 2023 and kept falling through 2025.
As a result, the industry’s exports fell 39.5% in 2024 from the year before, to $302.6 million, according to the Geological Survey of Brazil (SGB).
A recovery is now taking shape, supported by a wider range of applications, including energy storage for data centers and high-performance electronics.
According to the SGB, Brazil is a competitive player.
“We’re the world’s eighth-largest producer and rank sixth in reserves,” says Ioná de Abreu Cunha, head of the Brazil Lithium Project.
One of the leading producers is Sigma Lithium, which operates in the Jequitinhonha Valley with a plant capable of producing 270,000 tonnes of lithium oxide per year.
Over the next 12 months, the company expects to reach 240,000 tonnes, with all production bound for Europe, the Middle East and Asia.
Also operating in the region is CBL, a pioneer in the area, which owns a refinery in Divisa Alegre as well.
With capacity to produce 50,000 tonnes of spodumene concentrate a year, the company is carrying out a two-phase expansion.
Atlas Lithium, a new arrival, is set to begin producing lithium oxide concentrate in 2027 through the Neves Project, eventually reaching a production capacity of 146,000 tonnes of lithium concentrate per year.
