Novas restrições americanas a robôs avançados estão expondo a forte dependência de fabricantes e pesquisadores dos Estados Unidos em relação a hardware de fabricação chinesa, criando um novo conflito entre os objetivos de segurança de Washington e as necessidades de uma indústria em rápido crescimento.
A Comissão Federal de Comunicações (FCC) agiu em julho para incluir robôs móveis avançados em sua "Lista de Equipamentos Abrangidos" (“Covered List”), marcando o esforço mais recente do governo Trump para reduzir a dependência dos Estados Unidos de tecnologia estrangeira.
No entanto, com a China dominando partes fundamentais da cadeia de suprimentos de robótica e os reguladores ainda sem esclarecer como funcionarão as isenções, as empresas ainda tentam determinar o que as novas regras significarão na prática.
"Acho que todos estão tentando entender o que isso significa para eles e qual será o impacto", disse Jeff Burnstein, presidente da Associação para o Avanço da Automação, um grupo setorial que representa quase 1.500 empresas de robótica, IA e tecnologias de automação relacionadas.
Lidar com o cenário regulatório "é algo que se resolve dia a dia atualmente", afirmou ele.
As restrições mais recentes surgem num momento em que investidores globais e empresas de tecnologia estão injetando quantias enormes em robôs humanoides e outros ecossistemas de "IA física", vistos por muitos executivos como a próxima fronteira da automação.
O fato também destaca como a FCC — tradicionalmente responsável por supervisionar a propriedade de meios de comunicação e emitir licenças de radiodifusão — emergiu desde dezembro como um instrumento-chave do governo Trump para restringir a importação de uma ampla gama de produtos, incluindo drones, roteadores de internet e inversores de energia.
Peter Cowhey, professor emérito da Universidade da Califórnia em San Diego especializado em comércio global, disse ao ““Nikkei Asia” que as restrições de importação da FCC visam incentivar as empresas a diversificar suas cadeias de suprimentos e trazer de volta aos Estados Unidos parte de sua produção.
"O desafio é que não existe um mecanismo específico para realizar essa transição de substituição de produtos chineses por produtos americanos", disse Cowhey, ex-funcionário da FCC.
"Eu classificaria isso como uma política incoerente de forçar a substituição de importações", afirmou.
Novos robôs avançados montados nos Estados Unidos terão de conter mais de 65% de componentes nacionais (em termos de valor) em 2028 e mais de 75% em 2029, de acordo com a página de perguntas frequentes (FAQ) no site da FCC sobre as atualizações recentes da "Lista de Equipamentos Abrangidos".
No entanto, analistas questionam amplamente a viabilidade de reduzir a dependência da China, que fornece componentes essenciais para robôs móveis — desde sensores até juntas articuladas e motores.
Um exemplo são os atuadores, usados para controlar os movimentos de robôs humanoides e que normalmente representam de 40% a 60% da lista de materiais de hardware, segundo um relatório da Gavekal Technologies de 10 de agosto.
Manter o conteúdo estrangeiro abaixo de 35% do custo total é um desafio, visto que, segundo a Gavekal, a China também fornece a maioria das baterias, sistemas Lidar e controladores de motor utilizados na montagem dos robôs.
"Peças chinesas não são proibidas individualmente, mas a dependência cumulativa das cadeias de suprimentos chinesas tornará difícil atingir essas metas", escreveram Arthur Kroeber e os demais autores da Gavekal.
Outra questão fundamental é quais empresas receberão autorização para obter isenção da proibição de importação de robôs — medida que não afeta modelos já existentes e comercializados nos Estados Unidos.
"Como funciona esse processo de decisão não tem sido particularmente transparente", afirmou Kevin O'Hanlon, vice-presidente de relações governamentais para a América do Norte da Global Electronics Association (sediada nos Estados Unidos), entidade que representa mais de 3.200 empresas de um setor global de eletrônicos avaliado em US$ 6 trilhões.
Alguns fabricantes de roteadores para o consumidor final obtiveram uma isenção temporária da proibição de importação, sob a condição de um compromisso futuro de fabricação nos Estados Unidos, disse uma fonte a par do assunto ao “Nikkei Asia.
Certas empresas que produzem roteadores receberam sinal verde do governo dos Estados Unidos para continuar importando-os de fornecedores não chineses, apesar de a China continuar sendo uma importante fonte de suprimento.
"O que não vimos com frequência foi a extensão dessas ofertas a produtos fabricados na China", disse a fonte.
"Uma questão central ainda sem resposta é se as empresas chinesas de robótica têm algum caminho real para uma aprovação condicional ou se o processo funcionará como uma exceção reservada a países aliados", disse Georg Stieler, diretor administrativo para a Ásia da consultoria alemã de robótica Stieler Technology & Market Advisory.
Um porta-voz da FCC encaminhou o “Nikkei Asia” para a página de perguntas frequentes (FAQ), sem fazer comentários adicionais.
Algumas empresas americanas apoiaram a decisão da FCC.
Evan Beard, CEO da fabricante de robôs industriais Standard Bots, descreveu a medida como "uma das ações de segurança tecnológica mais contundentes da história moderna dos Estados Unidos" na rede social X.
Ele também instou a FCC a impor regras semelhantes para braços robóticos industriais fixos.
