Rio-2016: uma década depois, Brasil revê legado esportivo dos Jogos Olímpicos - QTU Questões do Universo

Rio-2016: uma década depois, Brasil revê legado esportivo dos Jogos Olímpicos

Fonte: Bandeira da fonte

O Rio de Janeiro se transformou para receber os Jogos Olímpicos em 2016.
A primeira (e até agora única) edição disputada na América do Sul foi marcada pela alegria da torcida, pelo salto de investimento no esporte de alto rendimento e pela campanha de destaque do Time Brasil.
Dez anos depois, os reflexos estão por toda parte, já que o país teve ganho real na esfera esportiva, ilustrado por resultados e pódios, bem como evolução em estrutura e gestão.
Em contrapartida, o custo dos Jogos foi alto: o dossiê de candidatura da cidade previa gasto total de R$ 28 bilhões.
No entanto, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que este valor ficou em cerca de R$ 43,8 bilhões, entre recursos público e privados.
A Prefeitura alegou que fez um ajuste no número de projetos do legado olímpico, aumentando-os de 17 para 27, o que inclui a Linha 4 do metrô, os piscinões da Praça da Bandeira e a ampliação do Elevado do Joá.
Por outro lado, em 2024, por ocasião dos Jogos de Paris, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgou um estudo que apontou que a cidade faturou R$ 100 bilhões com o evento.
Parque Olímpico
Divulgação/Prefeitura do Rio
Para o diretor de esporte do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Jorge Bichara, o balanço é positivo:
— Quanto mais exposto foi o esporte, mais seus segmentos tiveram de se aprimorar: atletas, treinadores, dirigentes...
As entidades perceberam que precisavam buscar qualificações em seus quadros e entender como lutar por recursos privados.
Segmentos como medicina, fisioterapia e psicologia esportiva também cresceram — analisa.
— O país ainda carrega a monocultura do futebol, mas é inegável que outros esportes passaram a fazer parte da discussão.
Campanha histórica do Brasil e lendas do esporte
Os Jogos do Rio foram marcados por conquistas emblemáticas para o esporte do país, como as medalhas de ouro de Rafaela Silva, no judô, de Thiago Braz, no salto com vara, e das seleções masculinas de vôlei e futebol, além da coleção de medalhas do canoísta Isaquias Queiroz, que subiu em três pódios.
Também contou com grandes protagonistas, como o nadador americano Michael Phelps, consolidado como o maior atleta olímpico de todos os tempos — foram 28 medalhas, seis delas no Rio —, e o velocista jamaicano Usain Bolt, tricampeão nos 100m e 200m rasos a partir de Pequim-2008.
Além dos primeiros saltos da ginasta Rebeca Andrade, então com apenas 17 anos.
Rafaela Silva ao lado da faixa preta que usou quando ganhou medalha de ouro no Rio
Luiz Ernesto Magalhães
Da arena lotada do vôlei de praia, em Copacabana, ao novíssimo Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, a torcida brasileira testemunhou 65 recordes olímpicos e 19 recordes mundiais.
E atletas do país construíram uma campanha até então recorde de 19 medalhas (sete de ouro, seis de prata e outras seis de bronze).
As imagens mais marcantes da Rio-2016
Bichara destaca a variedade de modalidades premiadas no Rio (12), que permitiram ao Brasil entrar numa seleta lista de 13 países com mais de uma dezena de esportes medalháveis em uma única edição de Jogos.
Mas considera que ainda estamos longe de alcançar todo o nosso potencial esportivo:
— Pelo tamanho da população do Brasil, temos uma quantidade pequena de atletas para trabalhar num ciclo olímpico.
Na minha visão, houve até uma redução no geral, com menos jovens interessados na prática esportiva e de olho em outras atividades, como, por exemplo, as mídias sociais.
Se é pessimista quanto ao panorama geral, o dirigente do COB se mostra satisfeito com o impacto positivo dos grandes atletas.
Bichara argumenta que o esporte brasileiro vive de referências e que o surgimento de ícones multimedalhistas aproximou os torcedores, como se vê pelo boom nas escolinhas de ginástica artística.
— Esse é um legado importante.
Isaquias Queiroz, Rebeca Andrade e Rafaela Silva, com resultados expressivos de 2016 até agora e muito carisma, estimularam novos atletas.
Esses esportes demonstram potencial que nem o Brasil sabe que tem — avalia Bichara.
Isaquias, a grande estrela do Brasil na competição, havia participado do programa Vivência Olímpica em Londres-2012.
No Rio, conquistou suas três primeiras medalhas: duas pratas (no C1 1000m e no C2 1000m) e um bronze (no C1 200m).
Hoje, tem cinco, incluindo o ouro em Tóquio-2020.
— Eu era um moleque que tinha saído de casa cedo em busca de um sonho.
E que o realizou numa Olimpíada em casa.
Minha lembrança preferida é o último pódio, com a arquibancada na Lagoa lotada e muita gente querendo tirar foto comigo — recorda Isaquias.
— A canoagem brasileira mudou desde então.
E o mais importante é ver o crescimento da modalidade, ver esses moleques, muitos da Bahia, chegando à seleção.
Isaquias Queiroz é um dos maiores medalhistas olímpicos do Brasil
William Lucas/COB
O canoísta não se aposentou.
Depois do ouro no Japão, foi prata em Paris-2024 (ambas no C1 1000m).
Agora, está de olho nos Jogos de Los Angeles, em 2028:
— Tenho 32 anos e penso: “Meu Deus, onde estou? Tô coroa já”.
Lógico que dá para ir para mais uma Olimpíada.
Quanto mais medalha, melhor.
Mas olho para trás e fico muito feliz com o que conquistei.
Quando parar, não vou sentir falta de nada.
Outro “fruto” da Rio-2016 é Yane Marques, ex-atleta do pentatlo moderno e porta-bandeira do Time Brasil na Cerimônia de Abertura, realizada no Maracanã.
Hoje, ela atua como vice-presidente do COB — é a primeira mulher a ocupar o cargo.
— Comemoro demais esta caminhada.
Na abertura, eu representava os atletas, o país todo.
Hoje, estou em outra posição.
Mas, de novo, não é sobre mim.
Represento muita gente e sonho junto com muitos atletas — declara Yane.
— No Brasil, o legado é visto como algo físico, que foi construído.
Lógico que é isso fundamental.
Mas, para mim, o grande legado está na cabeça das pessoas, no coração, na inspiração para atletas novos, no impacto nos profissionais.
De dez anos para cá, uma das maiores conquistas do esporte brasileiro é a presença crescente das mulheres nos pódios (em cargos de gestão, como Yane, ou treinadora, o avanço é tímido).
Em Paris-2024, os melhores resultados vieram justamente delas, com os ouros de Rebeca Andrade na ginástica, de Beatriz Souza no judô, e de Duda e Ana Patrícia no vôlei de praia.
As mulheres representaram 12 das 20 medalhas do país nos Jogos, o equivalente a 60%.
— Hoje, discute-se temas como saúde da mulher, maternidade, performance feminina, ambiente seguro, equidade de gênero e transição de carreira.
Mas ainda bem longe do mundo ideal.
A grande luta é transformar esta nossa presença em permanência.
O futuro precisa ser de mais oportunidade.
As portas estão sendo abertas, e me orgulho de ter colocado a mão na maçaneta.