O debate eleitoral brasileiro tem dado destaque a temas de soberania nacional clássica, como as politizadas tarifas comerciais aplicadas pelos EUA ou a improvável ameaça de uma invasão militar americana.
Mas riscos tão ou mais graves estão emergindo em questões de soberania digital, sobre as quais pouco se fala.
Está em formação uma tempestade digital perfeita, alimentada por três frentes: a hospedagem externa dos dados, o uso agressivo da inteligência artificial (IA) e os avanços da computação quântica.
A primeira ameaça reside na infraestrutura mais essencial da economia da informação.
Governos, empresas e cidadãos de países emergentes se acostumaram a armazenar dados sensíveis no exterior.
Guardar informações confidenciais, públicas ou privadas, em servidores e nuvens localizados no exterior ou controlados por poucas grandes empresas estrangeiras - quase todas sob a jurisdição americana - pode embutir riscos.
A história recente ilustra o perigo dessa dependência.
O governo americano solicita regularmente, por meio da lei chamada Cloud Act, dados sobre cidadãos e empresas estrangeiros armazenados por companhias americanas, mesmo que os servidores estejam fora dos EUA.
Esses dados só podem ser usados em processos criminais, mas se suspeita de que investigações financeiras ou de cibersegurança possam permitir a Washington obter essas informações confidenciais.
Além disso, em momentos de crises diplomáticas, conflitos comerciais ou sanções econômicas, o acesso a esses dados arquivados fora do país pode se tornar uma forma de pressão ou até mesmo ser interrompido.
O armazenamento de dados no exterior cria assim uma dependência que reduz fortemente a margem de manobra política de países soberanos.
O Brasil detém o maior parque de data centers da América Latina, com 218 unidades (37,1% do total regional), segundo o Data Center Map, bem à frente do México (66) e do Chile (63).
Mas isso é insuficiente para o volume de dados do país.
A Espanha, país com economia e população menores que as do Brasil, tem 215 data centers.
Especialistas estimam que entre 60% e 70% dos dados gerados por brasileiros são arquivados e processados no exterior.
O segundo vetor é o avanço na IA.
O desenvolvimento de modelos de IA que conseguem identificar e explorar vulnerabilidades de sistemas de TI transformou a segurança digital numa disputa assimétrica.
Empresas privadas e órgãos estatais estrangeiros podem agora dispor com antecedência de ferramentas avançadas capazes de encontrar brechas de segurança em redes financeiras e de telecomunicações, sistemas de energia elétrica e bancos de dados de outros países, especialmente aqueles em desenvolvimento.
Trata-se do uso antecipado e abrangente das mais sofisticadas ferramentas de IA por entidades estrangeiras, que conseguem acesso em primeira mão a esses modelos.
Sem verba e capacidade de desenvolver defesas de IA no mesmo ritmo e com o mesmo grau de sofisticação, países como o Brasil podem se tornar alvos fáceis.
É bom lembrar que os EUA, sob o democrata Barack Obama, espionaram várias autoridades brasileiras, inclusive a então presidente Dilma Rousseff, e a maior empresa do país, a Petrobras.
Grampearam ainda outras autoridades pelo mundo, como a premiê alemã Angela Merkel.
À época, Washington mantinha relações muito boas com Brasil e Alemanha.
O que pode fazer um governo muito mais agressivo, como o de Donald Trump?
É nesse cenário já preocupante que a computação quântica desponta como uma ameaça às comunicações globais.
A criptografia que hoje protege todas as trocas de dados, desde segredos de Estado até transações bancárias e mensagens de texto, baseia-se na incapacidade dos computadores convencionais de quebrar rapidamente chaves de segurança.
A computação quântica alterará radicalmente essa premissa e será capaz de quebrar senhas tradicionais em minutos.
Isso proporcionará, a quem detiver essa supremacia tecnológica, a capacidade de violar comunicação e acessar sistemas de países rivais.
Países como o Brasil enfrentam um dilema: o dinheiro necessário para erguer defesas digitais é disputado por demandas sociais urgentes em áreas como saúde, segurança pública, educação e infraestrutura.
Mas a segurança digital não deve ser vista como um luxo ou uma prioridade de países ricos.
Seria um erro estratégico, que pode comprometer o próprio desenvolvimento socioeconômico no longo prazo.
Isso não significa adotar políticas isolacionistas ou nacionalistas anacrônicas, mas sim buscar as melhores alternativas para lidar com esse risco geopolítico.
Governos e o setor privado de potências médias, como o Brasil, precisam, por exemplo, coordenar esforços para incentivar a criação de infraestruturas locais de nuvem, fomentar a cooperação internacional em segurança digital e acelerar a adoção de padrões de criptografia mais avançados.
O governo brasileiro pode ainda melhorar o ambiente regulatório e tributário para favorecer a atuação do capital privado.
O importante é que o debate sobre como enfrentar essa tempestade digital seja alçado ao topo da agenda de segurança nacional.
Riscos à soberania digital precisam entrar no radar
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