A Hedgepoint manteve sua estimativa para produção de café do Brasil em 2026/27 para 75,8 milhões de sacas, apesar das chuvas elevadas nos últimos meses justamente na época da colheita, que devem afetar mais a qualidade do que a quantidade da safra brasileira.
A estimativa representa um crescimento em relação à safra passada, quando o Brasil colheu 64,7 milhões de sacas de café, e deve reforçar o cenário de excedente de oferta global da commodity.
"Teve uma maturação desuniforme por causa das chuvas de maio.
Teve problemas para o café de peneira e catação.
Isso pode se refletir em diferenciais mais altos pela redução da qualidade geral da safra", afirmou Laleska Moda, analista da Hedgepoint, em entrevista coletiva.
Deve haver um aumento da produção focada no café arábica, de 37,7 milhões de sacas para 50,2 milhões de sacas, enquanto a produção de conilon deve cair de 27 milhões de sacas para 25,6 milhões de cacas.
Essa redução deve refletir a elevada base de comparação, mas a produção de conilon no Brasil não foi tão afetada pelas chuvas quanto as áreas de arábica, ressaltou a consultoria.
Segundo Moda, embora as exportações estejam com ritmo mais fraco nesta temporada, a expectativa é de aumento das exportações "pelo volume maior do Brasil".
Segundo a analista, o El Niño pode ter algum impacto na florada do Brasil dos próximos meses, o que afetaria a produção da próxima safra (2027/28).
O aumento da produção do Brasil no ciclo atual deve colaborar para o crescimento do excedente de oferta global.
A Hedgepoint estima que haverá um superávit global de café de 8,9 milhões de sacas em 2026/27.
Para o Vietnã, a consultoria estima uma produção estável, de 30,5 milhões de sacas, com impacto misto de clima e aumento de área, e para a América Latina, a consultoria também não vê problemas para a produção de Colômbia e Honduras.
Segundo a consultoria, o terremoto registrado na Colômbia há duas semanas afetou mais a infraestrutura do parque cafeeiro, como armazéns, do que as árvores, e pode atrasar a retomada das exportações, considerando relatos dos agentes locais.
Porém, se o El Niño ficar mais forte, pode ter impacto sobre a próxima safra dessas regiões, observou Moda.
Segundo Carlos Costa, head da mesa de café da Hedgepoint, o Brasil é o único país que vem ampliando sua produção nos últimos anos, enquanto os outros países têm mantido a oferta estável.
"Quem tem capacidade de suprir o aumento de consumo no mundo é o Brasil", afirmou.
No lado da demanda, o crescimento tem sido estável nas últimas décadas entre 1% a 2% ao ano.
Segundo Moda, tem crescido o consumo de conilon em países da Europa e nos Estados Unidos, além da Ásia.
"A China saiu de 2020 com 2 milhões de sacas para 5 milhões de sacas agora", afirmou a analista.
Também há crescimento de consumo no sudeste asiático, ressaltou.
"Vamos produzir a maior safra de arábica que já vimos e estamos com um dos momentos mais estressados de preço.
Os estoques nos países de destino, no Japão, na Europa, estão nos menores níveis da história", observou Costa.
Segundo ele, os agentes estão buscando manter uma reação "just in time" para evitar arcar com um custo de capital mais elevado para carregar esses estoques, "o que deixa o mercado mais estressado".
Para ele, o excedente de café deve continua sendo consumido.
Para Moda, o suporte dos preços do arábica que se observa atualmente reflete também o atraso na colheita do Brasil e o ritmo mais lento das vendas dos produtores.
Porém, Costa observou que, no mercado físico brasileiro, não há estresse quanto à oferta.
"Os diferenciais de exportação do Brasil estão caindo", afirmou.
"Não vejo problema [na oferta] para justificar o preço subir em Nova York", acrescentou.
