Sam Smith dá uma chance ao amor com disco novo e romance com estilista:

Sam Smith dá uma chance ao amor com disco novo e romance com estilista: 'Bom demais para ser verdade?'

Fonte: Bandeira da fonte

Quando Sam Smith sente medo de subir ao palco antes de um show — o que acontece sempre —, a estratégia é imaginar a imensidão do universo.
"Penso no tamanho do mundo, na altura da Lua", disse o cantor.
"Penso em como eu sou pequeno e em como esse lugar onde vou cantar, mesmo que seja uma arena, também é pequeno.
Tento olhar tudo de cima e lembrar a mim mesmo que está tudo bem e que estou em segurança."
Smith sonha em ser estrela pop desde a infância — e realizou esse sonho aos 22 anos.
Com o sucesso mundial de "Stay With Me", em 2014, tornou-se um fenômeno global, dono de um tenor luminoso, capaz de percorrer oitavas e provocar arrepios e lágrimas na mesma intensidade.
Ainda assim, admite: "Eu realmente sofro com isso".
Numa tarde ensolarada recente, contou: "Cantar é algo extremamente pessoal para mim.
Você não vai me ouvir cantando se eu não precisar."
Aos 34 anos, Smith passou os últimos três anos mergulhado nessa necessidade de se expressar, enquanto sua vida dava uma reviravolta.
Mudou-se da Inglaterra para Nova York por causa de um rapaz: o estilista Christian Cowan, que agora, revelou com um sorriso radiante, é oficialmente seu noivo.
O novo álbum de Smith, "Hazel Eyes", que chega em 21 de agosto, acompanha de perto essa história de amor.
A primeira faixa, "Everlasting Love", começou a ser escrita na noite anterior ao primeiro encontro com Cowan e só foi concluída quando o relacionamento já estava consolidado.
Para um artista conhecido por baladas sobre corações partidos, era uma mudança de rumo monumental: pela primeira vez, escrevia, como definiu durante um show lotado em San Francisco neste ano, "sobre um amor correspondido" — celebrando, de forma assumida e deliberada, um relacionamento queer.
Sam Smith: 'Em Nova York, eu não sou o único esquisitão da rua'
David Billet / The New York Times
Também é o primeiro disco que Smith faz totalmente nos próprios termos, longe das engrenagens tradicionais da indústria musical — das equipes de compositores reunidas em estúdios impecáveis às intermináveis rodadas de observações do departamento de A&R, que até então sustentavam sua carreira.
Incentivado pela experiência semelhante vivida com "Unholy", o hit número 1 vencedor do Grammy em 2023 ao lado de Kim Petras, Smith decidiu se isolar com novos colaboradores, entre eles a cantora indie Feist, para produzir uma dúzia de faixas etéreas, com coro gospel completo e uma sonoridade mais artesanal.
A cidade adotiva também lhe proporcionou algo inesperado: um impulso como artista queer, como parceiro e como alguém que queria, acima de tudo, se comunicar e ser compreendido.
"Em Nova York, eu não sou o único esquisitão da rua", disse enquanto tomávamos água com gás — e depois martínis — no Julius', histórico bar gay de Greenwich Village e um de seus lugares favoritos.
"Todos os dias estou cercado de gente exagerada.
E digo 'exagerada' como elogio."
Isso não significa que "Hazel Eyes" — seu quinto álbum, batizado, sim, em referência aos olhos castanhos de Cowan — seja um retrato de felicidade absoluta.
Há momentos sombrios, letras que insinuam enganos e dor, além de uma produção que soa como uma tempestade prestes a desabar.
Ouvimos o disco no Electric Lady, lendário estúdio do West Village onde parte dele foi gravada.
Smith fechou os olhos enquanto as músicas revelavam seus altos e baixos.
"Quando o amor está no auge, você pensa: 'Será que isso é bom demais para ser verdade?'", disse.
Inserir essa dualidade foi uma escolha consciente.
"Eu sinto todo tipo de coisa o tempo todo.
Nos momentos em que estou mais feliz, posso ficar profundamente triste."
Num álbum produzido segundo a lógica tradicional do pop, talvez essa tensão tivesse sido suavizada.
Mas, segundo amigos e colegas, Smith hoje tem clareza e confiança para não aparar mais as próprias arestas.
"Desde que se mudou para Nova York, sinto que Sam abraçou ainda mais suas excentricidades criativas", afirmou Simon Aldred, compositor e produtor de Manchester que conheceu Smith aos 21 anos e trabalhou tanto em seu álbum de estreia, "In the Lonely Hour", quanto em "Hazel Eyes".
"Pela primeira vez, deram liberdade total para que ele fosse exatamente a voz que eu conheço, aquela com quem já dividi tantas horas dentro de um estúdio."
Uma serenidade recém-descoberta
Durante anos, os fãs de Smith choraram e cantaram junto sucessos sobre amores não correspondidos, traições ("I'm Not the Only One"), auto sabotagem ("Too Good at Goodbyes") e casos de uma noite que poderiam se transformar em algo maior (a vencedora do Grammy "Stay With Me").
Por isso, quando Smith subiu ao palco em uma série de apresentações esgotadas em Nova York no fim do ano passado — e depois em San Francisco — para apresentar uma música inédita chamada "My Guy", a plateia praticamente prendeu a respiração.
"Estou bem.
Estou feliz", anunciou, usando um conjunto de jeans marrom bastante surrado, numa noite de inverno no Warsaw, casa de shows no Brooklyn onde fez 24 apresentações.
Sam Smith no Eletric Lady Studios, em Nova York:
David Billet / The New York Times
Em San Francisco, onde foi o primeiro artista a reabrir o histórico Castro Theater após a reforma, foi além: "Parece que esperei uma vida inteira para cantar uma música como esta."
Doce a ponto de doer, com um balanço inspirado no doo-wop, "My Guy" surgiu de uma única explosão criativa.
"Nasceu dessa percepção genuína e crescente de que Sam tinha encontrado a pessoa certa", contou Feist, coautora da faixa ao lado do respeitado multi-instrumentista Shahzad Ismaily.
A versão final nunca conseguiu superar a espontaneidade da primeira gravação.
Por isso, os vocais usados no disco são justamente os da demo inicial.
"Essa pode virar a primeira dança de muitos casamentos no futuro, sejam eles de casais queer ou héteros", prevê Feist.
Nos últimos meses, conversei longamente com Smith em duas entrevistas, assisti a duetos com Brandi Carlile e Ed Sheeran no Brooklyn, vi o cantor provocar o público usando hot pants de couro e botas acima da coxa no Castro Theater e se emocionar num minishow no Centro de Visitantes do Monumento Nacional de Stonewall, na abertura do fim de semana da Parada do Orgulho LGBTQIA+.
Mesmo assim, fiquei surpreso com o quanto Smith está integrado à cidade — inclusive mantendo uma conta no Instagram dedicada às suas aventuras gastronômicas — e com a naturalidade com que circula pelas ruas, apesar da atenção que desperta.
"Eu nunca tinha caminhado ao lado de alguém que provocasse tanta comoção só por estar passando", disse Feist.
Uma voz para atravessar gerações
Smith cresceu numa pequena vila próxima a Cambridge, na Inglaterra, numa casa cor-de-rosa cercada por campos e rios, onde costumava caminhar sozinho para recarregar as energias.
"Eu simplesmente saía andando por duas ou três horas", lembrou.
"Conversava com as árvores."
Curiosamente, Christian Cowan morava a apenas dez minutos dali.
Mas os dois só foram se conhecer anos depois, pela internet, já em Nova York.
Smith assumiu ser gay aos 10 anos, diante dos amigos e da família, que o acolheu sem reservas.
Tem duas irmãs mais novas.
A mãe, principal responsável pelo sustento da casa, trabalhava no setor bancário.
O pai era, como ele mesmo define, "um dono de casa" e cuidador.
A avó materna e as tias também tiveram papel importante em sua criação.
"Cresci num universo muito feminino e carregado de emoção."
O sucesso veio rapidamente.
Depois de se mudar para Londres, emprestou sua voz soul a uma faixa pulsante da dupla de música eletrônica Disclosure, em 2012.
Em 2016, já havia conquistado quatro Grammys e um Oscar, graças ao tema de James Bond "Writing's on the Wall".
Segundo Aldred, o que mais chamava atenção desde cedo era a ambição.
"Sam simplesmente tinha uma determinação impressionante.
Confesso que aquilo me surpreendeu.
E, claro, aquela voz."
A extensão vocal de Smith — capaz de ir de um grave rouco a um falsete cristalino — também impressionou outros artistas.
"A expressividade natural, o timbre, a extensão e a facilidade com que tudo acontece", maravilhou-se Feist, que nunca havia composto em parceria antes.
O convite veio por mensagem direta no Instagram.
A visão artística de Smith atingiu seu auge inicial com o irreverente e provocador sucesso "Unholy", que o cantor considera um divisor de águas.
Mas a música encontrou resistência durante a produção.
"Havia muitas vozes de homens heterossexuais naquela sala", contou.
"Algumas pessoas simplesmente não entenderam a proposta e achavam que ela nem deveria entrar no álbum."
Smith e Kim Petras prevaleceram, guiados pela identificação que sentiam com a música.
"Eu dançava sozinho no meu quarto usando as roupas da minha mãe na frente do espelho.
Era exatamente essa sensação que eu tinha quando ouvia essa música."
Depois acrescentou:
"Num ambiente cheio de tensão, eu e Kim simplesmente nos posicionamos, mostramos a língua e tiramos sarro da situação.
Isso também faz parte da força queer."
Essa energia também apareceu durante as gravações de "Hazel Eyes", de formas inesperadas.
"Oh Mother", uma faixa teatral e vibrante que faz referência tanto à linhagem materna de Smith quanto ao conceito de "mother" na cultura queer, foi, segundo o cantor, "a montanha mais difícil de escalar".
Insatisfeito com a energia da interpretação, regravou os vocais diversas vezes.
Até que, mesmo depois de já ter parado de fumar, pegou um maço de cigarros, tirou a camisa e pediu ao gerente do estúdio que trouxesse uma garrafa de uísque, relembra Aldred.
"Eu nunca vi ninguém se entregar tanto a uma gravação vocal."
Hoje, Smith já não alcança as notas mais agudas da mesma maneira.
Sua voz mudou com o tempo e com a experiência.
Antes, isso o apavorava.
Agora, porém, ao ouvir a própria voz neste disco, sente o efeito oposto.
"Ela me acalma", disse.
"Você consegue ouvir a vida dentro desse instrumento."