Sem chance de apoio explícito, Haddad faz agendas reservadas com prefeitos no interior para tentar minar Tarcísio - QTU Questões do Universo

Sem chance de apoio explícito, Haddad faz agendas reservadas com prefeitos no interior para tentar minar Tarcísio

Fonte: Bandeira da fonte

O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), tem realizado encontros reservados com prefeitos de partidos da base aliada do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) no interior do estado.
As reuniões, fora da agenda oficial, servem para aproximar a campanha de gestores e seus emissários, principalmente em cidades menos populosas, numa tentativa de desestabilizar os palanques do adversário.
Nesta sexta-feira (31), o próprio Haddad relatou uma agenda do tipo no giro por São José dos Campos e outras cidades do Vale do Paraíba.
De acordo com a assessoria, o encontro ocorreu a portas fechadas.
— Eu tenho falado com eles em ambiente restrito.
Os prefeitos de São Paulo estão muito descontentes e têm medo de retaliação, têm medo de dizer o que pensam do governador do estado.
Isso dito por eles, na frente de testemunhas — alega o petista.
O fato ocorreu ao menos em outras três cidades durante a pré-campanha, segundo apurou o GLOBO.
A primeira vez foi em Avaré, que fica no Vale do Paranapanema, distante cerca de 260km da capital paulista.
O petista evitou dar detalhes sobre o encontro em público, no final de maio, mas saiu de lá munido de novas críticas a Tarcísio.
Os mais recentes haviam sido em meados de julho, com prefeituras das regiões de Catanduva e São José do Rio Preto.
— Estamos tentando aproximá-los do nosso campo, para os candidatos terem um conhecimento mais pormenorizado dos desafios enfrentados pelas prefeituras.
É um espaço de convivência mesmo, que vem sendo feito de forma cuidadosa — afirma a deputada estadual Beth Sahão (PT), que organizou as reuniões no Noroeste paulista.
Os prefeitos, diz uma fonte do PT, não querem se associar diretamente a Haddad para evitar desconforto com o atual mandatário e por conta do eleitorado de base mais conservadora.
A campanha admite, nos bastidores, que dificilmente o petista terá apoios explícitos dessas figuras na corrida eleitoral, mas sustenta que a abordagem ajuda a recolher informações que podem ser usadas no enfrentamento a Tarcísio.

Um ponto que deve ser explorado a partir das conversas seria o da "ausência de um plano de desenvolvimento regional", assim como reclamações sobre o processo de privatização da Sabesp.
A campanha de Tarcísio identificou o movimento.
Um aliado com mandato no estado, próximo do governador, atenua dizendo que os convites foram atendidos apenas por prefeituras "de menor porte" e que seria "mais uma questão de preservar a relação" com parlamentares estaduais e com o governo federal do que propriamente uma inclinação pessoal ao candidato do PT.
Outro diz que o rival investe no discurso para fazer o governador "pisar numa casca de banana", o que não vai acontecer.

Outro auxiliar do republicano afirma que a situação está "sob controle" e atribui as críticas dos prefeitos a uma mudança de viés do governo, que estaria menos comprometido com "política de paróquia" e mais com obras de relevo e repasses menos flexíveis.
Ao reforçar o caixa em projetos específicos da saúde, por exemplo, os gestores municipais não estariam conseguindo se apresentar como "donos".
O diagnóstico é o de que as caravanas frequentes deste ano, quando Tarcísio viajou com secretários para o interior e fez entregas, apaziguaram os ânimos.

Sahão alega que a ofensiva do PT tem sido incentivada pela leitura de que existe um "descontentamento enorme" no interior do estado, sobretudo em cidades com menos de 50 mil habitantes.
A parlamentar acusa o governo de "abandonar os municípios durante três anos e meio" para depois "distribuir migalhas" nas caravanas estaduais.
A atual gestão, em contrapartida, aponta que os repasses atingiram níveis recordes durante o mandato.
Do 'cinturão vermelho' ao interior profundo
O anúncio da candidatura de Haddad ocorreu no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, no final de março, em São Bernardo do Campo, local histórico para Lula e o PT.
O ex-ministro da Fazenda resistiu a concorrer novamente ao governo do estado contra Tarcísio, mas disse ter sido convencido pelo presidente da República a ajudar a conter o crescimento de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas.
Sob o diagnóstico de que precisa ganhar terreno no interior, o petista procurou se aproximar de polos regionais como Sorocaba, Araraquara, São Carlos e Bauru.
Mais à frente, marcou presença em cidades menos populosas, como Jales, Fernandópolis e Votuporanga.
O investimento é inverso ao de Tarcísio, que concentra esforços na capital paulista e seu entorno, com ajuda do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
— O que deu a vitória a ele foram os votos do interior — resumiu Haddad em entrevista à rádio Nova Brasil FM, na quinta-feira (23).

A análise de todas as agendas de Haddad no período sugere que um grupo em especial serviu como plataforma para esses compromissos políticos: as instituições de ensino técnico e superior, onde deu palestras a convite de universidades e centros acadêmicos.
Ao mesmo tempo em que esses eventos reforçam a imagem de professor universitário e resgatam a sua passagem como ministro da Educação, eles também surgem como um sintoma da falta de apoio político.
A imensa maioria dos municípios visitados no período são comandados atualmente por prefeitos de partidos da base aliada de Tarcísio.
Campinas, escolhida para sediar a convenção estadual do PT e para compromissos anteriores no meio acadêmico, tem como prefeito Dario Saadi, do mesmo partido do governador.
A mesma situação ocorre em Limeira (Podemos), Botucatu (PSD), São Carlos (PP) e São José do Rio Preto (PL), para ficar em apenas mais quatro exemplos.