Sem logística reversa, cartões desafiam reciclagem - QTU Questões do Universo

Sem logística reversa, cartões desafiam reciclagem

Fonte: Bandeira da fonte

Os cartões utilizados como meios de pagamento enfrentam uma espécie de limbo quando o assunto é sua destinação pós-consumo.
Embora sejam predominantemente compostos por plásticos - sendo o policloreto de vinila (PVC) o material mais utilizado em sua fabricação - e contenham componentes como chips e antenas de aproximação, não estão incluídos, como categoria, nos acordos setoriais de logística reversa de eletroeletrônicos ou de embalagens.
Também não há uma regra específica que atribua ao banco emissor, bandeira ou à adquirente a responsabilidade pelo recolhimento e destinação dos cartões ao fim de sua vida útil.

Segundo o Banco Central, existem 477,1 milhões de cartões ativos em circulação no Brasil - entre cartões de crédito, débito e pré-pagos, com uma vida útil estimada entre três e cinco anos.
Faltam, contudo, dados sobre o percentual do resíduo que é efetivamente descartado e reciclado.
“A reciclagem dos cartões de PVC não alcança grandes volumes porque esses plásticos não têm uma substituição recorrente.
Além disso, têm outros componentes, como o chip e a tarja magnética que dificultam a reciclabilidade do material", diz Alfredo Schmitt, do Instituto SustenPlást, organização ligada ao Sindicato das Indústrias de Material Plástico do Estado do Rio Grande do Sul (Sinplast-RS).

O principal gargalo, contudo, está na ausência de enquadramento no resíduo nos acordos setoriais da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) e de um sistema de logística reversa com responsabilidades compartilhadas pelos diferentes elos da cadeia.
Hoje, há iniciativas piloto que buscam reciclar o material, mas que ainda não tem abrangência nacional.
Um exemplo é o Papa Cartão, programa de coleta e reciclagem de cartões fabricados com PVC, que conta com pontos de coleta espalhados em estações do metrô de São Paulo, empresas parceiras e órgãos públicos.
Nele, o consumidor pode descartar seus cartões inservíveis com segurança, pois o próprio equipamento corta o plástico em partes menores.
Hoje, são 52 coletores instalados em cinco capitais - além de São Paulo, estão presentes em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Belém e Campo Bom, na Grande Porto Alegre.
Os resíduos coletados passam por um processo de reciclagem mecânica e se transformam em chapas, que podem ser utilizadas para produzir itens como cadernos, pisos e letreiros.
A iniciativa nasceu da inquietação do empresário paulista Renato Soares De Paula, que fundou em 1997 a R.S.
de Paula, fabricante de cartões de PVC, e passou a pesquisar soluções de destinação ambientalmente correta para cartões, crachás e credenciais fabricadas com o material.
Em 2011, instalou o primeiro coletor do Papa Cartão no Metrô de São Paulo, originalmente voltado para os metroviários descartarem cartões de assistência médica.
O projeto chamou a atenção e logo foi instalada uma unidade na estação Tietê, voltada ao público geral.
De Paula estima que cada equipamento instalado nesses locais de grande circulação de pessoas coleta entre 3 mil e 4 mil cartões a cada quinzena, o que mostra uma disposição do consumidor de descartar o item de forma correta.
O principal modelo de negócio do Papa Cartão são parcerias com empresas para coleta e reciclagem dos cartões - entre elas, fabricantes de cartões, como a Thales, e empresas de benefícios, como a Edenred, além de shopping centers e unidades do SESC.
Falta, porém, uma iniciativa voltada à economia circular que agregue os vários agentes deste mercado, como bancos, bandeiras de cartão, a indústria dos plásticos e cooperativas de catadores.
“Os grandes emissores estão esperando a digitalização plena dos cartões, mas isso ainda vai levar anos para acontecer.
Precisamos de uma solução para todo o território nacional que una tecnologia e incentivos para o descarte correto", diz o fundador do Papa Cartão.
A Edenred Brasil, plataforma digital de serviços e meios de pagamento dona da marca Ticket, traçou uma estratégia para o ciclo de vida dos cartões, baseada na redução no uso de plástico, na circularidade e na compensação dos resíduos.
O primeiro pilar conta com ações como a substituição do cartão físico por carteiras digitais e do plástico virgem por PVC reciclado - em 2025, 87% dos novos cartões utilizam o insumo reciclado como matéria-prima.
Já a iniciativa de economia circular inclui a parceria com o Papa Cartão, que conta com 15 pontos instalados nos escritórios e em empresas parceiras e permitiu a coleta física de 68 mil cartões pós-consumo para reciclagem.

De acordo com Larissa Faresin, gerente de sustentabilidade da Edenred Brasil, a companhia buscou caminhos para o descarte dos cartões em razão do grande volume emitido anualmente - em 2025, foram mais de 6 milhões de unidades - e também para atender sua política ESG (ambiental, social e de governança).
“Estamos vivendo um período de transição em relação ao ciclo de vida dos plásticos, mas é fundamental criar um ecossistema de soluções, até para que outros setores que utilizam cartões também façam seus movimentos", diz ela, que defende uma coalizão setorial para fomentar a economia circular dos plásticos.
“As soluções futuras precisam ser coletivas e colaborativas", diz.

Bancos e demais emissores de cartões afirmam que vêm ampliando iniciativas para reduzir o impacto ambiental do plástico usado nas credenciais, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).
Entre as medidas estão a substituição do PVC virgem por materiais reciclados ou de menor impacto e alternativas de origem biológica, além da expansão de cartões virtuais, carteiras digitais e tokenização.
Segundo a entidade, essas iniciativas já alcançam uma parcela relevante dos cartões ativos no país, embora não haja um percentual consolidado para todo o setor.