Sem verde e amarelo, Instagram vira queridinho de Tarcísio e divide campanha às vésperas da estreia na TV e rádio - QTU Questões do Universo

Sem verde e amarelo, Instagram vira queridinho de Tarcísio e divide campanha às vésperas da estreia na TV e rádio

Fonte: Bandeira da fonte

A corrida do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição em São Paulo transcorre com o mandatário à frente nas pesquisas, mas, nos bastidores, alguns setores da campanha estão menos satisfeitos que outros.
“Obcecado” pelo Instagram, nas palavras de um desses profissionais, Tarcísio tem demonstrado certa impaciência com gravações para programas do horário eleitoral de rádio e TV, geralmente mais longas e que requerem maior atenção e preparação.
As inserções começam a ser veiculadas nesta sexta-feira (28), às 7h na rádio e às 13h na televisão.
Nos bastidores do Instagram de Tarcísio, quem tem ganhado espaço é o jovem Daniel Camargo Antunes, de 21 anos.
Admirador de políticos como Pablo Marçal e Nikolas Ferreira (PL-MG), ele abriu, em um ano, quatro empresas: ClipfyAI, Torian Market, Hypeai Tecnologia da Informação e Lyra e-books, esta última registrada há três meses.
Nas próprias redes, o empresário posta mensagens motivacionais, críticas à esquerda e viagens internacionais — em uma delas, na Disney, posava dirigindo um Mustang branco.

Embora não toque o dia a dia das páginas do governador (o responsável é outro jovem, de nome Vinícius), Antunes é visto internamente como “o xodó” de Tarcísio por ter "dado nova cara" às publicações pessoais e institucionais do titular do Palácio dos Bandeirantes, com vídeos curtos e cortes que agradam ao dono da página.

Com cerca de 60 mil seguidores e seguindo pouco mais de 800 pessoas, entre as quais Tarcísio, Pablo Marçal (PRTB) e Renan Santos (Missão), Antunes foi o responsável por instituir o recente tom azul das postagens do governador no Instagram.
Tarcísio teria "proibido" os tons majoritariamente verde e amarelos, ligados ao bolsonarismo, como forma de se comunicar com o eleitor centrista, ainda segundo o integrante da campanha.
As exceções foram em postagens durante a Copa do Mundo.

O GLOBO teve acesso a um contrato da Clipfy com um cliente de Brasília, em que as condições de trabalho, metas estabelecidas e valores cobrados são mencionados.
O acordo não tem relação com o governador de São Paulo ou a campanha à reeleição e apenas ilustram a forma de atuação de Antunes.
Por 30 dias de trabalho, a empresa cobrava R$ 100 mil reais para planejar, estruturar e operar conteúdos em vídeo no formato de cortes.
Em troca, a empresa "garante" o mínimo de 100 milhões de visualizações nos materiais criados.
Caso a meta não seja atingida, a empresa se compromete a devolver metade do valor pago pelo cliente.

A "desbolsonarização" tem sido uma marca do Instagram de Tarcísio nos últimos meses.
Desde que o ex-presidente Jair Bolsonaro determinou que o governador "ficaria em São Paulo" e não concorreria à presidência, em dezembro de 2025, a mudança nas páginas, gestos e falas foi aos poucos se mostrando mais evidentes.
Como mostrou O GLOBO, Tarcísio vem diminuindo as citações ao padrinho político nas redes.
Se em 2022 ele escreveu 990 vezes a palavra Bolsonaro, este ano foram apenas 13 menções.

O aceno aos eleitores centristas é validado pelas pesquisas.
A Quaest desta semana mostra que 11% dos que se declaram lulistas em São Paulo pretendem votar em Tarcísio no confronto com Fernando Haddad (PT), além de 11% dos que se consideram de esquerda não-lulistas.
Esse campo representa, como um todo, cerca de um quarto do eleitorado paulista.
O governador tem falado em reuniões e entrevistas que parte de seus votos virá de eleitores do presidente Lula, numa espécie de dobradinha "Tarula".

O veto aos tons verde-amarelos bolsonaristas nas postagens servem como uma espécie de "gesto antiextremismo", também segundo uma fonte com trânsito na campanha.

O encantamento com o Instagram, de acordo com aliados, está ligado à menor mobilização necessária para a produção dos conteúdos, seja em equipamentos ou pessoas, além da possibilidade de conferir os resultados quase automaticamente, com aferição de aceitação ou não do público em tempo real.
Apesar da certa má vontade de Tarcísio com as dinâmicas exigidas para o rádio e a TV, porém, o governador não deixou de fazer nenhuma gravação.

Outra dificuldade das equipes de TV é encontrar personagens que topem gravar comerciais que citem a Sabesp, privatizada no início da gestão.
O motivo é que há diversas queixas de falta de água e aumento na tarifa na cidade, principalmente onde houve trocas de medidores.
Além de o custo do equipamento ser do dono da residência, a instalação de novos relógios podem mostrar vazamentos antes não detectados, elevando as contas.
Também foram relatadas ao GLOBO dificuldades da campanha em localizar pessoas que tenham deixado a Cracolândia, por não quererem se expor ou não terem deixado definitivamente as ruas.

Tanto Sabesp quanto Cracolândia são temas caros ao governador e duas de suas principais bandeiras eleitorais.
Ambos os temas estarão nos primeiros programas de Rádio e TV, a partir desta sexta-feira.

Outro motivo da pouca paciência de Tarcísio com as gravações mais exigentes tem relação com um clima de "já ganhou", que vez ou outra vigora tanto no comitê da campanha, instalado na Av.
Brasil, quanto no estúdio de gravação, na Vila Mariana.
Segundo um assessor próximo de Tarcísio, porém, o governador mantém "os pés no chão" e chega até a repreender quem toque no assunto.
Na Quaest divulgada na terça-feira (25), Tarcísio tem 40% das intenções de voto, contra 27% de Haddad.

Procurado para comentar os bastidores da campanha, Tarcísio não se pronunciou.