Todo mundo que é apaixonado por escola de samba se sentiu particularmente realizado quando Bellinha Delfim foi anunciada, em julho, rainha de bateria da Unidos de Viradouro, atual campeã do Grupo Especial, para o carnaval 2027.
Dona de um carisma e samba no pé de primeira linha, Bellinha chegou à agremiação de Niterói em 2019, como passista, se tornando musa em 2022.
Em seu entorno, ao longo dos anos foi se formando um grupo cada vez maior de torcedores e foliões reivindicando à sambista um espaço de destaque ainda maior.
E agora, para além da coroa de soberana dos ritmistas da Viradouro, Bellinha ainda pode ostentar uma medalha.
A dançarina, empresária, estilista, e mãe da pequena Mel, de 3 aninhos, na noite desta quarta-feira (19) foi contemplada com a Medalha de Mérito Marielle Franco, em sessão solene realizada na Câmara Municipal de Niterói, promovida pelo vereador Anderson Pipico (PT), responsável pela iniciativa.
Em um papo com o Repinique, a rainha de bateria falou rapidamente sobre o caminho até o sonho realizado da coroa, a responsabilidade assumida ao ocupar o cargo e quais nomes mais inspiraram sua trajetória até aqui.
Rainha de bateria da Viradouro e agora dona de uma Medalha de Mérito em Niterói.
O que a Bellinha empresária, bailarina e estrela do carnaval de 29 anos diria à Bellinha criança?
Que é sempre importante lembrar que quando a gente tem ambição de chegar em algum lugar, é preciso precisa ter muita perseverança, dedicação, responsabilidade com os nossos sonhos e nunca desistir, porque obstáculos existem no meio do caminho, principalmente para meninas de comunidade como eu.
A gente cresce sem muitos privilégios, então nascemos sabendo que terão muitos obstáculos no caminho, mas que isso não pode ser motivo de desistência... eu acho que é preciso ter muita resiliência também.
Vereador Anderson Pipico ao lado de Bellinha Delfim, contemplada com a Medalha de Mérito Marielle Franco
Cadu Pilotto
Foram alguns bons anos com a torcida da Viradouro em peso pedindo seu nome à frente da bateria.
Como você lidou com essa "pressão boa", sendo que também fazia parte dos quadros da escola, como musa?
Eu fiquei muito feliz, obviamente, porque ser rainha de bateria é um dos meus maiores sonhos, mas eu nunca me deslumbrei no meio do caminho com a torcida, porque isso faz com que a gente acabe se perdendo, perdendo um pouco das nossas virtudes, pode acabar pensando alto demais e se frustrar, caso não aconteça.
Tem que manter o pé no chão com muita humildade, viver cada processo.
Eu acho que pra você chegar em algum lugar você precisa ter aquele processo de maturidade, né? A presidência também sempre me deixou muito, muito firme. Marcelinho (Calil, presidente da Viradouro) sempre foi de falar: "Bella, cabeça no lugar".
Porque eu acho que é importante que você tenha os valores éticos para que você consiga alcançar os seus sonhos. Por mais que a gente tenha aquela ansiedade, aquela pressa de querer realizar logo, é preciso ter calma e entender que existe tempo para tudo.
Podemos dizer que toda menina passista de uma escola de samba sonha em ser rainha de bateria? Como funciona isso entre vocês? É um sonho unânime, ou nem todas almejam?
Eu não gosto de generalizar, porque tem gente que participa das escolas de samba por puro prazer, hobby, não tem pretensão de um dia se tornar uma rainha de bateria, ou então uma diretora de barracão.
Mas eu acredito que a maioria, sim, sonha em ser, pois o cargo de rainha de bateria é um lugar que nos dá destaque, protagonismo, visibilidade e consequentemente a gente vai abrir portas para outras coisas, trabalhos.
Wander Pires, intérprete da Viradouro, marcou presença na sessão solene em homenagem a Bellinha Delfim
Cadu Pilotto
É inegável que ter você à frente da bateria gera uma pontinha de esperança em muitas jovens passistas.
Essa representatividade carrega um pouco de responsabilidade também, né? Lida bem com isso?
Eu acho desafiador, para ser bem sincera, porque você precisa ter um equilíbrio para não frustrar os sonhos de outras meninas. Então eu sinto que eu não posso falhar nesse lugar que eu estou. Não posso errar com as pessoas, eu tenho que manter sempre a boa postura, e não digo sobre a aparência, mas sobre o respeito, a humildade.
Devo entender o chão que a gente está pisando, compreender que a comunidade tem um estilo, a escola tem um estilo, que o pavilhão é a estrela maior, que a rainha de bateria é um lugar de destaque, mas que a bateria, em si, é um coletivo.
Eu quero que a minha história sirva de inspiração para que outras meninas continuem se dedicando, sejam disciplinadas, responsáveis com os próprios sonhos e também com a agremiação que elas sonham um dia se tornar rainhas.
Sessão solene contou com a presença dos ritmistas da Viradouro em celebração a sua rainha, Bellinha Delfim
Cadu Pilotto
Você acredita que o posto de rainha de bateria deve ser exclusivo a mulheres oriundas das comunidades? Ou há espaço para famosas e outras figuras de fora?
Na verdade, essa é uma pergunta um pouco polêmica porque eu sempre vou defender o lado do meu segmento, que é o de passista. Eu entendo que o cargo de rainha de bateria pode se tornar muito mais especial se a gente colocar meninas que de fato pertencem àquele chão ali e podem tornar aquilo mais ancestral, mais icônico. Mas eu não acredito que as famosas, as artistas, não possam participar, desde que elas tenham respeito. Eu não acredito que qualquer pessoa pode entrar e ocupar o cargo do nada. Eu particularmente não posso pilotar um avião porque eu não sei pilotar.
Quais rainhas de bateria a jovem Bellinha Delfim sempre enxergou como exemplos/espelhos?
Olha, a Quitéria Chagas é um exemplo de mulher inspiradora. Hoje nessa nova geração, destaco a Evelyn Bastos (Mangueira) e a Bianca Monteiro (Portela).
Cada uma delas soma qualidades que, para mim, são motivo de inspiração e com certeza eu vou tentar absorver para fazer de tudo e ser uma ótima rainha para minha escola.
'Sempre vou defender o segmento das passistas', diz Bellinha Delfim, rainha de bateria da Viradouro
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