O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, que nunca havia ocupado um cargo eletivo, estreou no poder diante de um desafio maior do que talvez imaginasse: um terremoto de magnitude 7,4 que atingiu o país três dias após sua posse, matando quase 300 pessoas.
Desde então, o líder ultradireitista, eleito com um discurso populista e de enfrentamento à classe política tradicional, acumula uma série de tropeços na condução da crise, o que afeta a imagem de seu governo.
Um dos episódios que mais repercutiram envolveu uma viagem de Espriella, acompanhado da mulher e de outros integrantes de seu gabinete, a Buenaventura, uma das cidades mais afetadas pelo terremoto.
Durante a visita, realizada no domingo (16), o presidente parou em uma rua para jogar bolas de futebol a crianças atingidas pelo tremor.
Os objetos levavam o logotipo do seu movimento político.
Um ativista local registrou a cena, que viralizou nas redes sociais.
A imagem remeteu a um episódio vivido por Donald Trump durante o seu primeiro mandato, quando o presidente americano foi criticado após distribuir rolos de papel a vítimas do furacão Maria, em Porto Rico.
No mesmo dia, um de seus principais aliados desde o início da campanha e hoje ministro da Habitação, o pastor Jamie Beltrán, virou alvo de críticas após ter sido flagrado em uma viagem de férias com a família.
O ex-prefeito de Bucaramanga foi fotografado nas praias de Santa Marta, balneário no norte do país, enquanto a população ainda buscava por mortos entre os escombros, menos de uma semana após o sismo.
O flagra foi especialmente amargo pois, segundo o jornal El País, 90% das moradias da Colômbia não têm seguro que cubra danos em caso de terremotos.
As vítimas, portanto, aguardam as diretrizes da pasta liderada por Beltrán para a reconstrução de suas casas.
Segundo balanço mais recente, ao menos 134.342 imóveis ficaram danificados, 29.554 foram destruídos e 267 desabaram.
Diante das críticas, Beltrán afirmou que havia viajado por pouco tempo para visitar a família, que não via durante a semana.
"Não podemos esquecer que, por trás do ministro, há um pai, há um marido, há um filho", disse.
Ele recebeu críticas até mesmo de aliados, como políticos do partido de direita Centro Democrático.
A legenda, que lançou Paloma Valencia para concorrer à Presidência no último pleito, apoiou Espriella no segundo turno.
"Enquanto milhares de famílias enfrentam as consequências do terremoto e algumas tiveram de dormir em abrigos improvisados porque perderam tudo, o ministro da Habitação, Jaime Andrés Beltrán, foi passar férias em Santa Marta", afirmou o senador Rafael Nieto Loaiza, por exemplo.
O também senador Andrés Forero, do mesmo partido, sugeriu que Beltrán deveria renunciar.
"Ao permanecer no cargo, ele está arrastando o presidente Abelardo para a resolução de um problema no qual não tem envolvimento e submetendo o governo a uma pressão prematura e desnecessária", disse.
Para além de declarações de repúdio, a ação do ministro pode ter uma consequência prática.
Na segunda (17), Alejandro Toro, deputado do Pacto Histórico, partido do ex-presidente Gustavo Petro, anunciou que apresentaria uma moção de censura contra Beltrán medida que poderia resultar em sua destituição.
"O país não pode se dar ao luxo de ter um ministro alheio ao sofrimento do povo enquanto milhares de famílias não sabem onde vão dormir nos próximos meses", afirmou ao anunciar a medida.
O caminho para uma eventual saída do ministro, no entanto, é longo.
Nesta terça (18), Toro afirmou que já havia reunido as 40 assinaturas necessárias para debater o assunto na Casa.
Para que o chefe da pasta seja efetivamente expulso do cargo, a medida ainda precisará ser aprovada pela maioria dos deputados em uma sessão posterior.
Embora tenha a maior bancada da Câmara, com 42 de 183 deputados, o Pacto Histórico precisará contar com outras siglas como o Centro Democrático, segundo maior grupo da Casa para aprovar a moção.
O episódio envolvendo Beltrán não foi o único a expor dificuldades na condução da resposta ao terremoto.
Na sexta (14), Rodrigo Lara, que coordena a pasta do Interior, afirmou que pediria que operadoras de celular doassem dados móveis às crianças para permitir acesso à educação virtual diante da destruição de escolas.
Paula Moreno, que foi ministra da Cultura no governo de Álvaro Uribe, afirmou, sem citar o governo diretamente, que era primeiro necessário reunir mão de obra para agilizar a reconstrução.
"Aulas virtuais não funcionam porque a região do Pacífico não tem conectividade à internet, e as crianças de lá não têm condições de comprar celulares", disse.
Na semana anterior, Espriella já havia sido alvo de escrutínio pela falta de organização na coordenação da ajuda internacional.
O governo autorizou a atuação de equipes estrangeiras de busca e resgate de apenas quatro países: Estados Unidos, Israel, Equador e El Salvador.
As nações são governadas por líderes alinhados ideologicamente ao presidente colombiano, embora Bogotá negue que a escolha tenha sido motivada por critérios políticos.
A decisão foi anunciada mais de dois dias depois do terremoto, quando as operações de resgate se aproximavam do fim da chamada janela crítica de 72 horas, período considerado decisivo para encontrar sobreviventes sob os escombros.
No total, 289 mortes em decorrência do terremoto tinham sido confirmadas até esta terça, segundo Espriella.
Outras 4.187 pessoas ficaram feridas.
