Todo mês de setembro, o amarelo volta às redes sociais, empresas, escolas, consultórios e campanhas institucionais.
A intenção é conhecida: ampliar a conversa sobre prevenção do suicídio, reduzir o estigma e estimular a procura por ajuda.
Nos últimos anos, porém, uma outra conversa também ganhou espaço: a de profissionais, pesquisadores, pessoas enlutadas e grupos que questionam não a prevenção, mas a forma como o Setembro Amarelo passou a ser feito.
Segundo dados divulgados pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) em materiais oficiais da campanha, o Brasil registra cerca de 14 mil suicídios por ano, o equivalente a mais de 38 casos por dia.
Boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde, com base no SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) do DATASUS, apontam números consolidados entre 14.000 e 15.500 óbitos anuais, considerando ajustes de subnotificação, o que resulta em uma média de 38 a 42 mortes por dia.
Parte das críticas mira uma campanha que, em alguns contextos, se transforma em calendário de marketing: laços, frases motivacionais e publicações concentradas em poucas semanas, enquanto acesso a tratamento, assistência social, renda, moradia, proteção contra violência e políticas públicas permanecem problemas durante o restante do ano.
O risco é transformar uma questão complexa em uma mensagem simples demais: "fale", "peça ajuda", "esteja atento aos sinais".
Falar e pedir ajuda importam.
Mas o que acontece quando a pessoa pede e não encontra cuidado? Ou quando seu sofrimento não cabe apenas em um diagnóstico?
Uma das críticas recorrentes diz respeito à medicalização do sofrimento.
Depressão, transtorno bipolar e outros transtornos mentais estão associados a maior risco de comportamento suicida e precisam ser levados a sério, mas não explicam sozinhos um fenômeno tão complexo.
É preciso compreender os fatores sociais, culturais e ambientais que também influenciam o risco.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) descreve o suicídio como um fenômeno multifatorial, atravessado por fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais.
Violência, perdas, isolamento, discriminação, racismo, homofobia, conflitos afetivos, dificuldades financeiras e uso problemático de álcool e outras drogas podem se combinar de maneiras muito diferentes.
Relatórios da OMS, como o Preventing Suicide: A Global Imperative e atualizações do Suicide Worldwide, apontam o Brasil como um dos poucos países das Américas em que as taxas absolutas e relativas de suicídio mantiveram tendência de alta na última década.
Reduzir tudo a "transtorno mental" ou "falta de ajuda" empobrece uma discussão que exige mais camadas.
É nesse ponto que Rodrigo Toledo, psicólogo clínico com atuação em São Paulo, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, chama atenção para uma contradição: "Não adianta dizer que precisamos falar sobre suicídio se a campanha não suporta ouvir as diferentes formas pelas quais o sofrimento aparece.
Nem todo mundo sofre do mesmo jeito, nem pelas mesmas razões".
Entre os homens, por exemplo, o sofrimento muitas vezes aparece menos pela fala direta e mais por irritabilidade, isolamento, abuso de álcool e outras drogas ou dificuldade de pedir ajuda.
No Brasil, as taxas de mortalidade por suicídio são consideravelmente maiores entre homens, realidade que também convida a discutir modelos de masculinidade que associam vulnerabilidade a fraqueza e fazem muitos carregarem o sofrimento sozinhos.
Nas mulheres, a escuta precisa alcançar sobrecarga emocional e de cuidado, relações afetivas difíceis, maternidade (ou a escolha de não maternar), violência, abuso, desigualdade, ansiedade, depressão e esgotamento.
Não como uma lista automática de causas, mas como experiências que podem atravessar profundamente a saúde mental e que não se resolvem com uma frase de incentivo.
Para pessoas LGBTQIA+, população que também faz parte da atuação clínica de Rodrigo Toledo, há fatores específicos: rejeição familiar, violência, discriminação, solidão, hipervigilância, medo da exposição, pressão estética, dificuldade de pertencimento e conflitos ligados ao corpo, à sexualidade e ao envelhecimento.
Outra crítica importante diz respeito à própria comunicação.
Falar sobre suicídio não é neutro.
A maneira como o tema é apresentado pode fortalecer ou enfraquecer esforços de prevenção.
Sensacionalismo, simplificações, exposição inadequada e informações imprecisas podem produzir efeitos indesejados; por outro lado, comunicação responsável, informação sobre ajuda, recuperação e formas de enfrentamento pode ter papel protetivo.
A discussão também chegou à pesquisa.
Estudos que procuraram avaliar os efeitos do Setembro Amarelo não permitem afirmar que a existência da campanha, por si só, produza redução das mortes por suicídio.
Isso também não significa que a campanha cause suicídios ou que falar sobre o tema seja prejudicial.
Mostra algo mais incômodo e talvez mais útil: visibilidade, sozinha, não é sinônimo de prevenção.
É justamente aí que o debate pode amadurecer.
Talvez a pergunta não precise ser "Setembro Amarelo deve acabar?", mas "o que precisa mudar para que ele cumpra melhor aquilo que promete?".
Uma campanha de prevenção pode falar menos em fórmulas universais e mais em acesso real ao cuidado; menos em responsabilizar amigos e familiares por "salvar" alguém e mais em redes preparadas; menos em motivação e mais em escuta, formação profissional, políticas públicas e continuidade.
O tema é polêmico, e as críticas merecem espaço.
Mas reconhecer limites não significa defender que o suicídio volte ao silêncio ou ao tabu.
Poder falar sobre ele sem vergonha, punição ou estigma é justamente um dos objetivos fundamentais de uma campanha de prevenção.
A questão talvez seja encontrar um equilíbrio: uma comunicação que não banalize, não assuste, não simplifique e não transforme sofrimento em campanha de ocasião.
Se o Setembro Amarelo conseguir incorporar as próprias críticas e se aproximar cada vez mais de seu objetivo, talvez a discussão deixe de ser apenas sobre manter ou acabar com a campanha.
Passe a ser sobre como torná-la mais responsável, mais alinhada à complexidade do sofrimento e presente para além de setembro, de maneira que possa efetivamente contribuir para salvar vidas ou, no mínimo, abrir uma discussão mais honesta, possível e eficiente sobre prevenção.
Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, todos os dias, 24 horas.
Setembro Amarelo: psicólogo Rodrigo Toledo analisa prós e polêmicas da campanha
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