Um estudo publicado na revista científica Nature Aging indica que o corpo humano não envelhece de forma linear e constante, mas em picos concentrados em janelas específicas da vida.
A pesquisa, conduzida por cientistas do Sanford Burnham Prebys Medical Discovery Institute, nos Estados Unidos, em parceria com o Instituto Nacional do Câncer americano (NCI), mapeou mudanças estruturais em 40 tipos de tecido humano e identificou que diferentes órgãos seguem calendários próprios de envelhecimento, ainda que sincronizados entre si por sinalização hormonal.
Segundo o ScienceAlert, a equipe liderada pela pesquisadora Anamika Yadav e pelo biólogo computacional Sanju Sinha analisou 25.306 biópsias post-mortem de 970 doadores com idades entre 21 e 70 anos, extraídas de um banco de dados público do Projeto de Expressão Genotípica-Tecidual (GTEx), ligado aos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH).
Uma ferramenta que lê a estrutura dos tecidos
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores desenvolveram um sistema de visão computacional batizado de PathStAR (sigla em inglês para "Taxa de Envelhecimento Estrutural baseada em Patologia").
Diferentemente de outros modelos usados em pesquisas sobre envelhecimento, o PathStAR não foi treinado para adivinhar a idade cronológica de uma pessoa a partir de imagens.
Em vez disso, ele examina exclusivamente a arquitetura física dos tecidos, como a organização das células, dos vasos sanguíneos e da matriz que sustenta os órgãos, em imagens de patologia de rotina.
O modelo segmentou cada lâmina histológica em milhões de fragmentos menores para extrair padrões estruturais e, a partir deles, reconstruir a trajetória de envelhecimento de cada tecido ao longo da vida.
O estudo identificou três padrões principais.
As artérias envelhecem cedo: a fase de mudança estrutural mais acelerada nesses tecidos ocorre entre os 30 e os 39 anos, o que coincide com registros de patologia que mostram formação inicial de placas nas paredes arteriais nessa mesma década.
Já o útero e a vagina seguem o caminho oposto, permanecendo relativamente estáveis até o início da meia-idade e apresentando as maiores alterações estruturais entre os 50 e os 55 anos, período que coincide com a menopausa.
O padrão mais comum, porém, foi o que os pesquisadores chamaram de envelhecimento bifásico: nove dos 14 tecidos analisados com maior confiança estatística, incluindo esôfago, estômago, cólon, intestino delgado, próstata e testículos, apresentaram dois surtos distintos de envelhecimento acelerado, geralmente concentrados na casa dos 30 e dos 50 anos.
Os ovários seguiram exatamente esse padrão, com picos de mudança estrutural entre 35 e 40 anos, período de declínio da fertilidade, e novamente entre 55 e 60 anos, já na fase pós-menopausa.
Ovários como possível "marca-passo" do corpo
O achado mais intrigante da pesquisa é que órgãos sem relação anatômica direta parecem envelhecer em sincronia.
Pessoas que apresentaram envelhecimento estrutural acelerado no cólon e no esôfago também tenderam a mostrar o mesmo padrão na próstata, mas a sincronia foi além dessas conexões pontuais.
"Mais da metade dos tecidos que estudamos seguiu o padrão de envelhecimento estrutural dos ovários", disse Sinha, em comunicado do Sanford Burnham Prebys.
"Por isso, vemos os ovários como uma espécie de marca-passo para o envelhecimento do corpo inteiro."
A hipótese dos pesquisadores é que hormônios funcionam como mensageiros que circulam por todo o organismo e não ficam restritos ao sistema reprodutivo.
De acordo com o artigo publicado na Nature Aging, as quedas mais acentuadas na capacidade de sinalização hormonal ocorreram justamente em tecidos gastrointestinais, o que é consistente com a presença conhecida de receptores de estrogênio ao longo do revestimento do sistema digestivo.
Em todos os órgãos analisados, os períodos de envelhecimento estrutural acelerado compartilharam uma mesma assinatura molecular: aumento de processos inflamatórios associado a queda na produção de energia celular, na capacidade de proliferação das células e nos sistemas de controle de qualidade que reparam danos internos.
Para os autores, essa descoberta pode abrir caminho para intervenções direcionadas a órgãos específicos, em vez de tratamentos genéricos contra o envelhecimento.
"Ao desenvolver terapias que protejam o envelhecimento reprodutivo, vemos potencial para proteger múltiplos outros órgãos e aumentar a expectativa de vida saudável", afirmou Sinha.
Os pesquisadores destacam algumas ressalvas importantes.
As amostras utilizadas são post-mortem, e a causa da morte pode ter influenciado a idade aparente dos tecidos analisados, sobretudo entre doadores mais jovens.
Além disso, os próprios autores do artigo alertam que nem toda mudança associada à idade representa declínio funcional: parte dela pode refletir remodelação adaptativa ou variação neutra.
As janelas etárias usadas na análise também são relativamente amplas, o que impede determinar com precisão quando, na vida de uma pessoa específica, cada mudança estrutural começa.
Ainda assim, o mapeamento reforça uma ideia que vem ganhando força na pesquisa sobre longevidade: o corpo humano não possui um único relógio biológico, mas dezenas deles, cada um seguindo seu próprio ritmo.
Seu corpo não envelhece aos poucos: estudo identifica picos de mudança nos 30 e nos 50 anos
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