Exército chinês exibe ogivas nucleares de mísseis intercontinentais DF-50 durante desfile militar em Pequim: arsenal atômico global tem crescido
Qilai Shen/Bloomberg
A arquitetura global de não proliferação nuclear, construída sob liderança dos EUA e sedimentada após o fim da Guerra Fria, enfrenta hoje desafios simultâneos e dá sinais de deterioração em várias frentes, dizem especialistas ouvidos pelo Valor.
Essas pressões ampliam as dúvidas sobre a capacidade americana de ajudar a conter uma nova corrida armamentista.
Enquanto aliados americanos discutem ampliar a proteção nuclear diante da ameaça da Rússia, Washington flexibiliza exigências históricas em seu acordo com a Arábia Saudita.
Ao mesmo tempo, os mecanismos de controle internacional perderam força após a guerra com o Irã e a inteligência artificial adiciona novos riscos aos sistemas de comando das potências atômicas.
Erin Dumbacher, pesquisadora de segurança do Conselho de Relações Exteriores (CFR, na sigla em inglês), diz ser razoável acreditar que uma ordem nuclear pós-americana está tomando forma e que, sem os EUA à frente, o regime de não proliferação, centrado principalmente no Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) de 1968, está se deteriorando.
“Os pilares da ordem nuclear global liderada pelos EUA começaram a rachar.
Esta [cooperação entre Arábia Saudita e EUA] é mais uma fissura”, afirma a analista.
Em texto publicado em janeiro na revista Foreign Policy, Dumbacher enfatizou que o retorno de Donald Trump à Casa Branca está acelerando essa fragilização da ordem nuclear liderada pelos EUA, uma vez que, sob o comando do republicano, Washington tem colocado em questão a necessidade de continuar à frente dos esforços globais de não proliferação.
Um sinal desse movimento, argumentou a pesquisadora, é que, ainda como candidato à Presidência, Trump já havia defendido que os aliados dos EUA deveriam adquirir suas próprias armas nucleares, posição compartilhada pelo subsecretário de Defesa Elbridge Colby, que, segundo relatos, manifestou apoio à proliferação nuclear sul-coreana antes de assumir o cargo atual.
EUA estão dando as costas a décadas de contenção de disseminação de tecnologia nuclear”
Embora o presidente americano tenha afirmado na semana passada que o acordo de cooperação nuclear com a Arábia Saudita “diz respeito apenas ao uso não militar”, a garantia do republicano de que Riad não poderá enriquecer urânio é colocada em dúvida por Daryl Kimball, diretor-executivo da Associação de Controle de Armas (ACA).
Kimball avalia que, se concretizado, o acordo entre Washington e Riad abriria um precedente perigoso, uma vez que não obtém da Arábia Saudita o compromisso de permitir que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) inspecione as instalações nucleares do país sob os termos do Protocolo Adicional, que, segundo ele, representa o nível mais elevado de salvaguardas contra o desvio de materiais para fins militares.
“Ao fazer isso, os EUA estão, de certa forma, dando as costas a décadas de política americana e internacional que defendem contenção no compartilhamento e na disseminação de tecnologias de enriquecimento de urânio e separação de plutônio, assim como a anos de esforços para fortalecer o sistema global de salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica”, afirma.
Tytti Erästö, pesquisadora do Programa de Armas de Destruição em Massa do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri), acrescenta que a postura mais permissiva dos EUA em relação à Arábia Saudita pode transmitir a mensagem de que a norma de não proliferação, ainda defendida ao menos formalmente por Washington, não é universal, mas aplicada seletivamente a países adversários, o que contribuiria para enfraquecê-la ainda mais.
Isso porque, ao mesmo tempo em que anuncia um acordo de cooperação nuclear com Riad, o governo americano afirma ter entrado em guerra contra o Irã para impedir que a República Islâmica desenvolva uma bomba atômica a partir de seu estoque de urânio altamente enriquecido.
“É um exemplo flagrante de dois pesos e duas medidas”, diz.
Para Erästö, o recurso de usar a força contra países vistos como potenciais ameaças nucleares pode ter um efeito ainda mais amplo - e contrário ao objetivo de conter a proliferação.
“Assim como a guerra de 2003 para promover uma mudança de regime no Iraque e a invasão da Ucrânia em 2022, os ataques israelenses e americanos contra o Irã enfraqueceram significativamente o regime global de não proliferação ao reforçar entre muitos países a convicção de que somente as armas nucleares podem garantir sua segurança nacional.”
No caso iraniano, acrescenta a especialista, a Guerra dos 12 Dias, em 2025, também reduziu a transparência sobre o programa nuclear.
“Os inspetores da AIEA perderam o acesso às instalações bombardeadas e aos estoques de urânio enriquecido.”
Enquanto Washington procura afastar temores de proliferação no Oriente Médio - em relação tanto a Riad quanto a Teerã -, aliados dos EUA na Europa também começaram a rever restrições de longa data relacionadas à presença de armas nucleares em seus territórios, em meio à ameaça da Rússia e a dúvidas sobre o compromisso americano com a segurança do continente no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Parlamentares da Finlândia, por exemplo, aprovaram em meados de junho a revogação da proibição total do país, que estava em vigor desde a Guerra Fria, sob a justificativa de que a medida fortaleceria a Otan.
Com a mudança, a nação nórdica, que compartilha uma fronteira de cerca de 1.340 quilômetros com a Rússia, passará a permitir que armas de seus aliados da aliança militar sejam importadas, transportadas pelo país ou armazenadas em seu território.
Em março, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, chegou a afirmar que a instalação de armas nucleares em território finlandês faria o país representar uma ameaça à Rússia e advertiu que Moscou responderia com “medidas apropriadas”, segundo o The Moscow Times.
A advertência de Peskov não impediu, porém, que a Lituânia, outro país vizinho da Rússia e membro da Otan, avançasse com um plano no Parlamento para retirar de sua Constituição a proibição de armas nucleares e de bases militares estrangeiras no país báltico, em mais um sinal de como a ameaça russa está redefinindo os cálculos de segurança na região.
Dumbacher afirma que os países da Otan localizados na fronteira oriental da Europa, ao permitirem a presença de armas nucleares em seus territórios, poderiam se tornar mais receptivos ao modelo de “dissuasão avançada” defendido pelo presidente da França, Emmanuel Macron.
A proposta francesa já conta com a cooperação de oito países: Alemanha, Reino Unido, Polônia, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca.
Segundo a Federação de Cientistas Americanos (FAS, na sigla em inglês), organização independente que monitora arsenais e riscos nucleares, a França possui atualmente cerca de 290 armas nucleares, que podem ser lançadas a partir de submarinos ou por mísseis transportados por aeronaves.
Em março, Macron anunciou sua intenção de aumentar o número de ogivas francesas.
De acordo com Dumbacher, porém, a crescente ênfase na dissuasão nuclear, que muitos líderes políticos acreditam ser a solução, não é o que impedirá uma guerra entre um país da Otan e a Rússia.
Para ela, um número maior de armas nucleares espalhadas pelo mundo aumenta a probabilidade de acidentes relacionados à segurança física ou operacional e de erros de cálculo.
Kimball também chama a atenção para um novo fator de risco: a incorporação da inteligência artificial (IA) aos sistemas de comando, controle e comunicações nucleares das principais potências atômicas, como EUA, Rússia e China.
Segundo ele, essas ferramentas permitem processar mais informações e tomar decisões com maior rapidez durante uma crise, mas podem, em contrapartida, reduzir o controle humano sobre decisões relacionadas ao eventual emprego de armas nucleares.
“À medida que a inteligência artificial é incorporada aos sistemas militares, ela aumentará os riscos, já graves, representados pelas relações de dissuasão nuclear entre EUA e Rússia, EUA e China, Índia e Paquistão, entre outros”, argumenta.
“Estamos, portanto, em uma corrida contra o tempo, na minha avaliação, para retomar um diálogo e negociações eficazes entre os Estados nucleares e construir novos tipos de salvaguardas para impedir que a inteligência artificial desestabilize os equilíbrios de dissuasão nuclear”, acrescenta Kimball
As preocupações vinculadas à tecnologia citadas por Kimball, além disso, levaram o Bulletin of the Atomic Scientists a colocar, em janeiro, o famoso “Relógio do Juízo Final” a apenas 85 segundos para a meia-noite - o ponto mais próximo de uma catástrofe global desde a criação do indicador, em 1947.
Entre as razões citadas pela organização estavam justamente o aumento dos riscos nucleares, a deterioração dos mecanismos de controle de armas e, mais precisamente, os perigos associados à incorporação da IA a sistemas militares.
Ainda nesse ínterim, para Kimball, o quadro também é agravado pelo fato de as principais potências atômicas, sobretudo EUA, Rússia e China, não estarem envolvidas em negociações para conter a corrida armamentista e, portanto, avançar no desarmamento, como prevê o Artigo 6 do TNP.
Sinais do crescente desinteresse dessas nações no desarmamento puderam ser vistos em maio, quando uma conferência de quatro semanas da Organização das Nações Unidas (ONU) de revisão do TNP terminou sem um consenso pela terceira vez consecutiva após quatro semanas de discussões.
Em outra ponta, o Sipri informou em seu anuário de 2026 que as potências nucleares continuaram modernizando seus arsenais em 2025.
Em janeiro deste ano, havia cerca de 12,2 mil ogivas nucleares no mundo, das quais aproximadamente 9,7 mil integravam estoques militares para uso potencial.
“Por isso, é importante que países sem armas nucleares, incluindo o Brasil, trabalhem em conjunto para exercer mais pressão pública e diplomática sobre os Estados dotados de armas nucleares, para que cumpram seus compromissos legais, que também são de seu próprio interesse nacional”, defende Kimball.
