O banco francês Société Générale mudou sua projeção para a política monetária dos Estados Unidos nesta sexta-feira (28) e passou a esperar uma elevação de juros de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Federal Reserve (Fed), no mês que vem, seguida por mais uma alta de mesma magnitude em dezembro e outra em março de 2027.
A revisão do cenário-base ocorre após o primeiro discurso de Kevin Warsh como presidente do banco central americano no Simpósio Econômico de Jackson Hole, que trouxe um tom mais duro e preocupado com a persistência da inflação americana.
"Está claro que o Fed enfrenta um problema de inflação, que antecede tanto a guerra entre Irã e EUA quanto as altas de tarifas de 2025", afirma a equipe do Société Générale liderada pelo economista-chefe para Estados Unidos, Jan Groen, em relatório.
Eles avaliam que, após o pico da inflação em 2022, o Fed passou a direcionar cada vez mais o seu foco para o mandato de emprego, dando uma falsa sensação de "missão cumprida" em relação à estabilidade de preços.
Como consequência, com a chegada dos dois recentes choques de oferta causados pelas tarifas comerciais e pelo conflito no Oriente Médio, a inflação subjacente voltou a acelerar rapidamente a partir de uma base que já era elevada, na visão do banco.
O Société Générale destaca que o choque nos preços do petróleo provocado pela guerra entre os Estados Unidos e o Irã, em especial, serviu como um alerta para muitos dirigentes do Fed sobre os riscos de tolerar um desvio persistente da meta de inflação.
"Em um ambiente no qual choques inflacionários ocorrem com maior frequência, em algum momento uma sequência desses choques poderia desancorar as expectativas de inflação, com todas as consequências negativas decorrentes disso", afirma a equipe do banco.
Ao mesmo tempo, eles destacam que o mercado de trabalho americano vem dando sinais claros de estabilização e recuperação desde o fim de 2025.
Diante dos dados mais recentes de inflação, sinais mais claros de que os dirigentes do Fed estão preocupados com o avanço de preços, a pressão do mercado de títulos sobre Warsh desde a reunião de julho e, agora, um reconhecimento da situação pelo próprio presidente do banco central americano, os economistas resolveram alterar sua projeção para os juros.
"Agora, esperamos que um ciclo de alta de juros comece na próxima reunião do Fed, em setembro", dizem os economistas liderados por Groen.
Eles também esperam uma alta de 0,25 ponto percentual nos juros americanos na reunião de dezembro deste ano e na de março de 2027, mas ponderam que há um elevado risco de esse último aperto não se concretizar.
"Isso é realista, considerando o quão cauteloso o Fed tem sido ao avaliar a possibilidade de tornar sua postura monetária restritiva.
Além disso, uma trajetória gradual dá ao Fed flexibilidade para avaliar o impacto das altas sobre a atividade econômica."
A equipe do Société Générale também acredita que a perspectiva de um ciclo de alta gradual também tornaria muito mais palatável para a maior parte dos membros do Fed que atualmente são favoráveis à manutenção dos juros concordar com um aperto monetário agora em setembro.
Em seu primeiro discurso como presidente do Fed em Jackson Hole, Warsh adotou um tom mais restritivo e disse nesta sexta-feira que o foco predominante do banco central americano deve ser na estabilidade de preços.
"A inflação está acima da nossa meta de 2%.
Portanto, o foco principal do Fed neste momento deve ser os preços", ele afirmou, destacando que "cabe ao Fed garantir a estabilidade dos preços".
Após o discurso, o consenso entre os operadores para a próxima reunião do banco central americano passou de uma manutenção de juros para um aperto monetário de 0,25 ponto percentual, com o mercado atribuindo 55,5% de probabilidade de que isso aconteça, conforme o CME FedWatch Tool, que compila dados a partir dos futuros dos Fed funds.
Céu nublado sobre a sede do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), em Washington
Valerie Plesch/Bloomberg
