A Hedgepoint estimou que o superávit global de cacau na safra 2026/27 será menor que no ciclo anterior e ficará em 111 mil toneladas, diante de sinais de recuperação da demanda.
Na safra 2025/26, a estimativa é de que a oferta tenha superado a demanda em 325 mil toneladas.
A projeção indica aumento de 2% na moagem, enquanto a produção pode recuar também 2%.
"O sentimento de curto prazo no mercado de cacau mudou", afirmou Carolina França, analista da consultoria, em entrevista coletiva.
Os preços começaram a subir em julho, acompanhados de maior volatilidade nas negociações.
Algumas empresas do setor apresentaram dados de vendas mais aquecidos, enquanto os números de moagem também deram ao mercado "um tom mais altista", segundo França.
A demanda vem mostrando sinais de recuperação principalmente na Ásia.
A moagem de cacau nas três principais regiões produtoras do mundo cresceu 6% no último trimestre.
A demanda asiática impulsionou, por exemplo, as exportações de cacau em pó da Indonésia, destinadas principalmente à Índia e à China.
Segundo a analista, não se espera que o terremoto de 15 de agosto tenha impacto significativo no setor, já que o epicentro ficou distante das regiões produtoras e processadoras.
Um dos países que contribuíram para a recuperação dos dados de demanda foi a Malásia, onde a atividade na produção de pasta de cacau cresceu 139%.
Segundo França, o preço elevado das amêndoas e a falta do produto em 2023/24 provocaram uma substituição de produtos pela indústria, impactando os fluxos comerciais.
Os EUA também estão aumentando sua participação como destino das exportações de derivados de cacau.
"A demanda do mercado americano está mais aquecida do que em outras regiões", disse.
Rússia, China e Japão também estão entre os principais destinos.
A União Europeia, por sua vez, vem alterando seu papel no mercado global.
Embora ainda seja o maior centro processador, a região está focando mais na importação de derivados.
As importações líquidas de amêndoas da União Europeia, de outubro de 2025 a julho deste ano, caíram 3% na comparação anual, enquanto as importações de subprodutos cresceram 16% no caso da manteiga de cacau e 5,8% no pó de cacau.
A Costa do Marfim é uma das principais origens.
Segundo França, o movimento reflete questões relacionadas a preço e qualidade.
A proximidade da entrada em vigor da lei antidesmatamento da União Europeia, a EUDR, pode limitar temporariamente o volume de cacau elegível para o bloco.
Um estudo recente indica que 50% da área de cacau da Costa do Marfim está em conformidade com a EUDR, enquanto, na Nigéria, a conformidade estaria acima de 50% e, em Camarões, alcançaria quase a totalidade da área.
As estimativas para Gana são mais incertas.
A proximidade da vigência da EUDR também pode antecipar movimentos de compra.
"Pode impulsionar as importações entre outubro e novembro da UE", disse França.
Segundo ela, isso pode ampliar as diferenças de preço entre o cacau em conformidade com a legislação e aquele que não atende aos requisitos.
Do lado da oferta, permanecem elementos altistas para o mercado global.
"Continuamos com problema de risco de clima nas principais origens, com problemas estruturais, e com demanda sendo um dos principais vetores de preço", afirmou.
Na Costa do Marfim, o clima melhorou nas últimas semanas, e a produção é estimada em 1,926 milhão de toneladas no ciclo atual.
Para a safra 2026/27, porém, a projeção é de queda para 1,801 milhão de toneladas.
A estimativa considera a taxa de fruto nas árvores e possíveis impactos do El Niño.
"Temos mantido uma postura cautelosa com esses impactos.
Quando vemos safras de El Niño, não vemos um padrão claro", disse França.
A produção de Gana deve cair 8% em 2026/27, segundo a Hedgepoint.
O impacto maior do El Niño pode ocorrer no Equador.
Porém, diante dos investimentos recentes do país para ampliar a área plantada e a produtividade, a consultoria estima que o país manterá uma produção elevada, em torno de 600 mil toneladas em 2026/27.
Neste cenário, França ressaltou que será preciso observar se a nova alta dos preços do cacau poderá afetar futuramente a demanda, "que segue sensível".
Apesar do novo sentimento no mercado, ainda há superávit e os estoques certificados estão mais altos, fatores que tendem a limitar novas altas de preços.
