Uma gravação feita durante um almoço entre fiscais da Secretaria da Fazenda de São Paulo registra o que o Ministério Público descreve como uma espécie de “conselho de ética” sobre como cobrar propina sem provocar a reação de quem era cobrado.
No diálogo, André Weiss, que chegou ao comando da administração tributária paulista, critica a postura de um fiscal considerado agressivo nas cobranças e afirma que o achaque precisa ser “bom para os dois lados”.
Caso contrário, segundo ele, o contribuinte poderia denunciar o esquema.
O áudio foi gravado em julho de 2023 pelo ex-auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, preso na investigação sobre o esquema envolvendo a Ultrafarma.
Segundo a representação apresentada pelo Ministério Público de São Paulo à Justiça, estavam à mesa, entre outros, o então delegado tributário Paulo Sérgio Siqueira Prado — que fechou acordo de delação premiada com o MP —, Weiss, Artur, Valmir Lucas Dornelles, Edgar Ishida e Bruno Alves de Oliveira.
A gravação ocorreu menos de um mês antes de uma das primeiras entregas de propina relatadas por Paulo Prado em acordo de colaboração.
O trecho sobre a cobrança envolve Daniel Paganotti, então lotado na Delegacia Regional Tributária de Osasco.
De acordo com a descrição do Ministério Público, os participantes passam a falar sobre Daniel porque ele seria “muito agressivo” na cobrança de propina.
É nesse momento que Weiss faz a ressalva: o pedido, na sua avaliação, deveria ser vantajoso para as duas partes, sob o risco de o contribuinte procurar as autoridades e denunciar o fiscal.
Em outro momento do mesmo almoço, os fiscais discutem a divisão dos valores relacionados a grandes contribuintes.
Ao ser questionado sobre o assunto de uma reunião reservada com Paulo Prado, Weiss responde com uma palavra: “Rateio”.
Na avaliação do Ministério Público, a conversa mostra que a discussão sobre os pagamentos não se limitava a um acerto entre um fiscal e determinado contribuinte, mas envolvia a repartição das vantagens entre diferentes integrantes do grupo.
O áudio também registra Weiss falando sobre uma forma de esconder dinheiro em um negócio com grande circulação de espécie.
Segundo a representação, ele conta que havia pensado em comprar uma sauna em São Paulo não apenas para realizar reuniões, mas também porque o estabelecimento poderia ser usado para lavar dinheiro.
— Em sauna quase todas [as pessoas] pagam em dinheiro.
Quem que vai passar um cartão em sauna? Ninguém — disse.
A conversa inclui ainda uma preocupação de Weiss com a exposição do patrimônio.
Em determinado momento, ele pondera que aparecer com uma Mercedes de cerca de R$ 250 mil poderia chamar a atenção da imprensa e fazê-lo "acabar algemado".
Para o Ministério Público, a fala indica consciência sobre o risco de descoberta e sobre a origem ilícita dos recursos discutidos no encontro.
Weiss assumiu a direção da Diretoria de Fiscalização em 2023 e, em agosto de 2024, chegou ao comando da Diretoria Geral Executiva da Administração Tributária, posição que deixou em maio de 2026.
O Ministério Público afirma que o ex-dirigente recebeu cerca de R$ 4,5 milhões em espécie de Paulo Prado, entregues em mochilas em restaurantes da região de Pinheiros.
A colaboração de Paulo Prado descreve que os pagamentos a Weiss ocorreram enquanto ele estava à frente da estrutura tributária.
Segundo o relato, Prado teria repassado mensalmente R$ 250 mil a Weiss para permanecer na Delegacia Regional Tributária do Butantã até sua aposentadoria, entre 2023 e 2024.
O valor total informado pelo colaborador chegou a aproximadamente R$ 4,5 milhões, entregues em espécie.
A investigação sustenta que a conversa do almoço se encaixa em um esquema mais amplo de cobrança de vantagens indevidas para acelerar e destravar pedidos de ressarcimento de ICMS-ST.
O Ministério Público afirma que pagamentos eram estabelecidos como percentuais dos valores que os contribuintes tinham a receber — havia referências a taxas de 1%, 1,5%, 2,5%, 3% e até 10%.
A representação, porém, trata as acusações como fatos ainda sob investigação.
O documento do Ministério Público pede novas medidas de busca e apreensão para aprofundar a apuração sobre a participação de Weiss e de outros servidores e operadores.
