Adultos que tomam pelo menos uma bebida açucarada por dia têm risco 2,45 vezes maior de desenvolver câncer de estômago do que aqueles que consomem menos de uma porção por mês.
O resultado vem de um estudo do Mass General Brigham, sistema de saúde ligado à Universidade Harvard, publicado na revista científica Gastro Hep Advances.
A análise é a primeira a identificar essa associação em uma população dos Estados Unidos, segundo reportagem do site ScienceAlert.
Cerca de 65% dos adultos americanos relatam consumir uma ou mais bebidas adoçadas com açúcar todos os dias, um hábito já ligado a maior risco de cânceres de intestino, mama e fígado, mas cuja relação com o tumor gástrico permanecia pouco documentada.
O autor principal do trabalho, o gastroenterologista e epidemiologista Andrew T.
Chan, classificou a pesquisa, em comunicado do Mass General Brigham, como o "primeiro estudo a demonstrar essa associação em uma população americana".
Ele lembrou que o câncer gástrico é a quinta causa de morte por câncer no mundo e que ainda se sabe pouco sobre a contribuição da dieta para a doença.
Quase quatro décadas de questionários
Os pesquisadores recorreram a dois estudos de longa duração, o Nurses' Health Study e o Health Professionals Follow-Up Study, que acompanham enfermeiras e profissionais de saúde americanos desde os anos 1970 e 1980.
Somados, os dois bancos reúnem 112.284 participantes, que preenchiam questionários a cada dois anos sobre alimentação, hábitos de vida e histórico médico.
Ao longo do acompanhamento, 278 deles desenvolveram câncer de estômago.
Na definição do estudo, bebidas adoçadas com açúcar incluem refrigerantes, ponches de frutas, limonadas e bebidas esportivas, em porções de 237 mililitros.
O risco elevado apareceu em homens e mulheres.
Entre as enfermeiras que tomavam mais de uma dessas bebidas por dia, a incidência foi 3,04 vezes maior do que entre as que raramente as consumiam.
A ingestão total de frutose, principal açúcar usado nessas bebidas nos Estados Unidos, também foi associada a maior incidência da doença.
Um dos resultados mais relevantes do trabalho é o que não foi encontrado.
Depois de controlar outros fatores, o consumo mais alto de bebidas adoçadas artificialmente, definidas no estudo como refrigerantes de baixa caloria, não apareceu associado a mais casos de câncer gástrico.
O achado contrasta com a preocupação em torno dos adoçantes artificiais desde 2023, quando a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde, classificou o aspartame como possivelmente cancerígeno para humanos.
Para Chan, a diferença entre os dois grupos de bebidas aponta para o metabolismo.
Em entrevista ao site HCPLive, ele afirmou que o resultado sugere um caminho ligado à disfunção metabólica, por vias como a elevação dos níveis de insulina e glicose no sangue, já associadas ao risco de tumores gastrointestinais.
O artigo lista ainda ganho de peso, inflamação, dano ao DNA e desequilíbrio da flora intestinal entre os mecanismos propostos, nenhum deles testado diretamente pelos autores.
Trata-se de um estudo observacional, o que significa que ele identifica correlações, sem estabelecer relação de causa e efeito.
Outros fatores presentes na vida de quem bebe mais refrigerante podem ter contribuído para os casos registrados.
Os autores também listam limitações específicas.
A infecção por Helicobacter pylori, bactéria que é o principal fator de risco conhecido para o câncer de estômago, só pôde ser avaliada em um subgrupo de 940 participantes.
Pouco mais de um terço deles tinha sinais de infecção, e não houve associação entre a bactéria e o consumo de bebidas açucaradas.
Os participantes eram predominantemente brancos, o que limita a extensão dos resultados a outros grupos raciais e étnicos.
Os pesquisadores afirmam que novos estudos são necessários para confirmar os achados.
No Brasil, o câncer de estômago responde por 3,1% dos diagnósticos oncológicos, com cerca de 21 mil casos novos por ano no triênio 2023-2025, segundo a Estimativa do Instituto Nacional de Câncer.
Nas regiões de menor Índice de Desenvolvimento Humano, ele é o segundo ou o terceiro tumor mais frequente entre os homens.
O consumo de refrigerantes vem caindo no país.
A proporção de adultos que bebem refrigerante em cinco ou mais dias da semana passou de 30,9% em 2007 para 14,9% em 2023, de acordo com o Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde.
Entre 2018 e 2023, porém, o indicador ficou estável.
Mais Lidas
Tomar bebida açucarada diariamente mais que dobra risco de câncer de estômago
Fonte:
