Tradição e reputação histórica garantiram a cervejeiros de Guarapuava, na região central do Paraná, a primeira Indicação Geográfica (IG) do Brasil para uma cerveja artesanal.
O registro, na modalidade Indicação de Procedência (IP), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), foi divulgado no início de agosto.
“Entre os motivos para essa conquista está a forte ligação da nossa região com a cultura da cevada e do malte.
Aqui, o processo vai do campo ao copo”, afirma Larissa Vier, presidente da Associação das Cervejarias de Guarapuava (Guaracerva).
O município tem nove cervejarias que, juntas, produzem 100 mil litros mensais de cervejas artesanais, geram cerca de 150 empregos diretos e movimentam mais de R$ 2,5 milhões por mês.
“A partir de agora, com a IG, temos projetos para estruturar cada vez mais o turismo cervejeiro e tornar nossa presença mais forte no mercado”, destaca Vier, que é sócia-proprietária da Cervejaria Água do Monge.
A tradição cervejeira de Guarapuava tem origem na imigração europeia, especialmente de alemães, suíços e suábios do Danúbio, que levaram à região conhecimentos e técnicas seculares de produção da bebida, orientadas pela Lei da Pureza Alemã.
O município, juntamente com Ponta Grossa (PR), é a principal região produtora de cevada -- a matéria-prima do malte -- do país.
Juntas, as duas regiões têm quase 70% da área semeada na safra nacional do grão, com 105 mil hectares, conforme dados da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná.
Outro diferencial é a presença de duas unidades de maltaria da Cooperativa Agrária em Guarapuava, com produção de maltes, maltes especiais, extratos, lúpulos, leveduras, entre outros ingredientes para a produção de cerveja.
“Temos a vantagem competitiva de ter a matéria-prima para a cerveja no quintal de casa”, diz Vier.
Larissa Vier, presidente da Guaracerva: produção local de matéria-prima é uma vantagem
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Na Cervejaria Água do Monge, são desenvolvidas cervejas especiais, no estilo “saison”, com processo de fabricação que inclui rótulos da bebida envelhecidos em barris de carvalho francês, adição de frutas produzidas na região e refermentação.
“Cada lote é único, para agradar ao consumidor que busca degustar algo diferente”, explica.
A marca já conquistou prêmios nacionais e internacionais e tem entre os principais mercados de Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro.
Para Ricardo de Almeida Lima, da Irmandade Cervejaria, a IG reconhece uma atividade que, quando ainda era um hobby, já tinha um diferencial.
“Essa conquista atesta que nossa cerveja é de alta qualidade e reconhece a importância da produção artesanal, que resulta em pequenos lotes com muita diversidade”, comemora.
Somente na cervejaria Irmandade, são 59 rótulos registrados.
A comercialização ocorre no bar da própria fábrica com rótulos fixos, como IPA e Pilsen, e novidades a cada temporada, como cerveja ácida com goiaba, cerveja picante e receitas com ingredientes inusitados, como caldo de chucrute, abóbora, erva-mate e pinhão.
Ricardo de Almeida Lima, da Irmandade Cervejaria
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Reconhecimento
Segundo Heverson Miloch, consultor do Sebrae/PR, o registro reconhece a excelência e a singularidade das cervejas artesanais de Guarapuava.
“A indicação de procedência está relacionada ao processo produtivo e à tradição da cultura alemã dentro daquela delimitação territorial.
Foram anos de trabalho, pesquisa e desenvolvimento de empreendedores e instituições parceiras”, conta.
Ele avalia que a conquista fortalece o setor cervejeiro e agrega valor à produção local.
Entre os desafios do setor, agora, está a expansão para os mercados nacional e internacional.
Segundo a Associação Brasileira de Cervejas Artesanais (Abracerva), em torno de 85% das 1.954 cervejarias no Brasil são de pequeno porte.
“Esse reconhecimento oficial obtido por Guarapuava é muito importante e, com a maturidade em que o setor se encontra hoje, novas IGs devem surgir pelo país”, acredita Gilberto Tarantino, presidente da Abracerva.
Renato Mocellin Lopes, da Jordana Bier, também destaca a boa reputação das cervejas locais.
A capacidade de fabricação em sua cervejaria é de 30 mil litros por mês, mas a produção efetiva fica abaixo disso, principalmente no inverno.
“Vamos fazendo adaptações e aproveitando o período para focar na produção de outros estilos de cervejas, com maturação mais longa”, relata.
Ele espera que a IG contribua para ampliar a divulgação da produção de Guarapuava, mas acredita que o selo também exigirá um trabalho constante de manutenção dos requisitos que levaram à conquista.
