Transição energética vira questão de segurança nacional - QTU Questões do Universo

Transição energética vira questão de segurança nacional

Fonte: Bandeira da fonte

Em 2022, a Europa descobriu o custo de depender demais de um único fornecedor de energia.
A vulnerabilidade do continente já vinha de antes da invasão da Ucrânia pela Rússia.
A participação do país governado por Vladimir Putin no abastecimento de gás da União Europeia havia passado de cerca de 30% em 2010 para mais de 45% em 2019 e, no fim de 2021, os estoques do bloco estavam no nível mais baixo em quase uma década.
Com a guerra, os cortes no fornecimento se aceleraram.
As importações de gás russo por gasodutos caíram pela metade em 2022, redução estimada em 83 bilhões de metros cúbicos.
No verão daquele ano, o gás no principal mercado europeu custou, em média, mais de quatro vezes o valor registrado no verão anterior.
Este ano, o bloqueio do estreito de Ormuz, após os ataques americanos e israelenses ao Irã, voltou a colocar no centro das discussões a segurança energética, em um momento em que o mundo tenta reduzir os danos causados pelo aquecimento global.
O fechamento do transporte de cargas depois da escalada do conflito no Oriente Médio atingiu uma rota por onde passaram, em 2025, aproximadamente um quarto 25% do comércio marítimo mundial de petróleo.
“Esses países [Rússia e Irã] usam gás e petróleo como arma econômica, ou como arma bélica”, diz Nivalde de Castro, coordenador geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal Federal do Rio de Janeiro.
Para ele, essa dependência ajuda a explicar por que Europa e China estão entre os principais motores da transição energética.
“Quem é que puxa a transição energética do ponto de vista de investimentos em novas tecnologias, em ampliação da capacidade instalada, é Europa e China.
E por que eles fazem isso? Porque estão na mão dos produtores de petróleo e gás.”
Para Castro, o avanço dos carros elétricos na China está relacionado à necessidade de reduzir a dependência das importações de combustíveis fósseis.
A China é hoje o maior mercado de veículos elétricos do mundo e responde por mais da metade das vendas globais.
A Europa, por sua vez, investiu em 2021 - antes da invasão à Ucrânia - cerca de US$ 260 bilhões por ano em energia limpa.
No ano passado, após a guerra, o volume chegou a quase US$ 390 bilhões.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), esse avanço de quase 50% está associado à crise provocada pelo corte no fornecimento do gás russo, além dos novos incentivos e da queda no custo das tecnologias renováveis.
Europa e China lideram mudança por dependerem de importação de fósseis, diz especialista
No mundo todo, a IEA estima que US$ 3,4 trilhões devem ser investidos em energia em 2026.
Cerca de US$ 2,2 trilhões devem ir para redes, armazenamento, renováveis, nuclear, combustíveis de baixa emissão, eficiência e eletrificação, ante US$ 1,2 trilhão em petróleo, gás e carvão.
Segundo a agência, parte desse movimento está ligada à busca por maior segurança energética.
No Brasil, o assunto também é tratado como prioridade.
Em janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o país precisa de soberania na área energética.
“A gente não pode ficar dependendo de nenhum país do mundo e de tecnologia de outros países”, afirmou.
O Brasil, no entanto, tem uma posição mais confortável na oferta e na composição de suas fontes de energia.
Só na geração de eletricidade, quase 87% vieram de fontes renováveis em 2025, segundo o Balanço Energético Nacional, mas só 49,5% da matriz energética total foram de fontes limpas.
O desafio brasileiro já não está tanto na eletricidade, mas na substituição dos fósseis nos transportes e em outros usos.
Mas a nova geopolítica mundial também expôs vulnerabilidades.
A guerra na Ucrânia mostrou o peso da Rússia no fornecimento de fertilizantes ao Brasil.
Em 2025, cerca de um quarto das importações brasileiras do produto vieram do mercado russo, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Ormuz atingiu ainda outra dependência.
Embora seja produtor e exportador de petróleo, o Brasil precisa importar diesel para suprir a demanda; no ano passado, 23% do combustível consumido aqui foi importado, segundo o Ministério de Minas e Energia, que criou uma sala de situação para acompanhar o abastecimento.
Matriz diversa dá ao Brasil alternativas em geração
Enquanto grandes economias aceleram a transição energética para reduzir a dependência de importações de combustíveis fósseis que colocam em risco seu abastecimento, o Brasil parte de uma posição diferente.
Quase 87% da oferta interna de eletricidade veio de fontes renováveis em 2025.
Considerando apenas fontes efetivamente limpas, o percentual é de 49,8%.
Mesmo assim, a matriz energética brasileira, combinada com a produção de petróleo e gás e uma indústria consolidada de biocombustíveis, dá ao país alternativas para reduzir dependências externas e atrair novos investimentos.
Isso não significa, entretanto, que o país esteja protegido das crises de abastecimento.
Apesar de produzir e exportar petróleo, o Brasil ainda precisa recorrer ao mercado externo para completar a oferta de alguns derivados.
Em 2025, as importações responderam por 23% do óleo diesel necessário para atender a demanda interna, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME).
“O Brasil tem uma vantagem muito particular nessa nova geopolítica da energia: não precisamos escolher uma única rota”, afirma o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.
De acordo com ele, a transição energética no país “será gradual, com diferentes tecnologias convivendo por décadas”.
Parte dessa estratégia passa por substituir combustíveis importados por produção nacional.
Uma das medidas foi a elevação temporária de 30% para 32% da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, em vigor desde o início de agosto.
O MME estima que o E32 pode reduzir a necessidade de importação de gasolina em 900 milhões de litros por ano.
A Lei do Combustível do Futuro, sancionada em 2024, criou ainda programas para combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês), diesel verde e biometano, e o hidrogênio de baixa emissão ganhou marco legal próprio no mesmo ano.
A oferta de eletricidade renovável também começa a pesar na atração de novos investimentos.
Só no Nordeste, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) identificou interesse de 30 projetos de data centers e outros 21 ligados à produção de hidrogênio verde até 2038.
São atividades que consomem muita energia e precisam de fornecimento contínuo.
Ao mesmo tempo, o país ainda precisa cortar parte da geração solar e eólica em determinados períodos por excesso de oferta e baixa demanda, o chamado curtailment, o que aumenta a pressão por investimentos em transmissão e armazenamento.
O primeiro leilão de baterias está previsto para ocorrer em dezembro.
Há, também, um novo elemento surgido com a tecnologia e que ocupou lugar central na segurança energética: os minerais usados em baterias, turbinas, redes e outros equipamentos.
O Brasil possui reservas importantes, mas Silveira defende que o país não repita o papel de mero fornecedor de matéria-prima.
“Nosso objetivo não pode ser simplesmente extrair e exportar minério.
Precisamos agregar valor, avançar no beneficiamento, no refino, na produção de materiais e componentes e transformar essa riqueza mineral em indústria, inovação, empregos qualificados e desenvolvimento tecnológico no Brasil”, diz.
Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) do Instituto de Economia da UFRJ, vê o novo cenário como um vetor de alavancagem para a indústria.
“Essa é a oportunidade criada por essa nova geopolítica.
A gente pode deixar de ser apenas um país, enfim, com recurso energético abundante, para acabar se tornando um fornecedor de energia e de produtos industriais de baixo carbono.”