Ucrânia precisa de mudanças para evitar perder a guerra, diz ex-ministro da Defesa - QTU Questões do Universo

Ucrânia precisa de mudanças para evitar perder a guerra, diz ex-ministro da Defesa

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A Ucrânia parece estar perdendo lentamente a guerra contra a Rússia, afirmou à Reuters o ex-ministro da Defesa ucraniano, Mykhailo Fedorov, alertando que Kiev tem uma janela de alguns meses para tomar decisões importantes necessárias para virar o conflito a seu favor.
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Fedorov, um jovem reformista cuja demissão no mês passado desencadeou semanas de protestos, afirmou que a Ucrânia não tem uma visão geral de como vencer o conflito, que já dura quatro anos, e que sua incapacidade de inovar tem prejudicado o país.

A corrupção arraigada e as redes de favorecimento, assim como a falta de independência política das instituições governamentais, também estão prejudicando o país, afirmou em entrevista.

“Acho que estamos agora em um ponto de inflexão que determinará nossa trajetória futura, mas parece que estamos perdendo gradualmente, lentamente”, disse Fedorov, em uma clara divergência em relação ao discurso oficial de Kiev.

A Ucrânia ainda tem “todas as chances” de vencer, mas precisa urgentemente de um plano para encerrar a guerra, acrescentou.

O gabinete da Presidência da Ucrânia afirmou, em resposta às declarações de Fedorov, que ele fazia avaliações positivas sobre a condução da guerra quando estava no ministério e que a única coisa que mudou foi sua situação pessoal.

Manifestantes seguram cartazes durante um protesto contra a decisão do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de substituir Mykhailo Fedorov no cargo de ministro da Defesa, em meio à guerra com a Rússia, em Kiev, Ucrânia, em 16 de agosto de 2026
REUTERS/Anatolii Stepanov
Falta de interceptores prejudica Ucrânia
A Rússia vem atingindo fábricas e armazéns ucranianos com dezenas de mísseis balísticos por mês, que a Ucrânia, em sua maioria, não consegue derrubar à medida que seus estoques de interceptores diminuem.
Embora a Rússia esteja conquistando menos território do que no ano passado, ainda avança lentamente no Donbass, enquanto as esparsas posições de infantaria ucranianas na linha de frente são ocupadas principalmente por recrutas pouco motivados.

A Ucrânia, por sua vez, intensificou seus próprios ataques com drones e mísseis em áreas no interior da Rússia, atingindo algumas fábricas militares importantes, causando danos significativos a refinarias de petróleo e provocando escassez de combustíveis em todo o país.

Uma pesquisa realizada no fim de julho mostrou que 82% dos ucranianos acreditavam que a Ucrânia venceria, embora a maioria esperasse que os combates continuassem até 2027 ou além.

Fedorov, de 35 anos, foi demitido seis meses depois de assumir o cargo, após iniciar reformas nas áreas de compras e mobilização que o colocaram em rota de colisão com a cúpula militar e adversários políticos.

Na semana passada, ele abalou a política ucraniana ao se tornar a primeira figura política de peso a exigir a realização de eleições durante a guerra, denunciando uma crise “sistêmica” de governança.

Em entrevista na segunda-feira, Fedorov ressaltou a importância de desenvolver drones autônomos guiados por inteligência artificial, mísseis interceptores baratos para conter os ataques aéreos russos e um programa próprio de mísseis balísticos da Ucrânia para mudar o rumo da guerra.

Fabricantes ucranianos já trabalham nessas tecnologias, mas Fedorov afirmou que o país precisa de uma estratégia coordenada para maximizar seus efeitos quando forem empregadas.

Ele apresentou uma visão de uma linha de frente coberta por sensores eletrônicos para detectar inimigos, com drones terrestres e aéreos para reduzir ao mínimo a presença humana.

“Já existem tecnologias que poderiam deter completamente os russos, mas nossa falta de visão (...) significa que não as utilizamos”, afirmou.

Fedorov criticou o desperdício de potencial e a ineficiência do Estado ucraniano, que, segundo ele, opera com “5% de eficiência”.
Militares ucranianos caminham ao lado de um lançador do sistema de defesa aérea Patriot , em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia, em local não divulgado, Ucrânia, 4 de agosto de 2024
REUTERS/Valentyn Ogirenko/Foto de Arquivo

Troca de acusações sobre rombo orçamentário
Fedorov afirma ter sido uma das principais forças por trás de uma campanha de drones realizada neste ano contra a logística de combustíveis e militar da Rússia na região ocupada do sul da Ucrânia, causando dificuldades para as forças de Moscou na linha de frente.

Segundo ele, ainda há uma janela de oportunidade de alguns meses para avançar com essa operação, buscando isolar a Crimeia ocupada pela Rússia, antes que Moscou descubra como responder às táticas ucranianas.

Essa campanha de ataques foi um fator importante para mudar as avaliações sobre as perspectivas da Ucrânia na guerra.

Fedorov afirmou anteriormente que o sucesso da campanha foi favorecido por sua decisão de antecipar gastos que estavam previstos para o segundo semestre de 2026.

O presidente Volodymyr Zelensky — antigo padrinho político de Fedorov, agora seu adversário — afirmou no fim de semana que a antecipação dos gastos deixou um rombo de US$ 27 bilhões no orçamento do ministério, para o qual a Ucrânia, dependente de recursos de doadores internacionais, não tem solução.

Fedorov disse não saber de onde Zelensky tirou esse número e argumentou que seu ministério elaborou um plano de gastos baseado em economias obtidas com novas licitações e no apoio internacional.

Fedorov alegou que, ao chegar ao Ministério da Defesa, encontrou chefes de departamentos que haviam sido nomeados a pedido de empresas ucranianas do setor de defesa para defender seus interesses.

“Até o fim do ano, o déficit orçamentário, segundo nosso planejamento, era de cerca de US$ 5 bilhões, e sabíamos de onde obteríamos esse dinheiro”, afirmou.
“Talvez o plano tenha mudado e tenham surgido novos projetos que exijam um orçamento desse tamanho.”
Militares da 13ª Brigada de Emprego Operacional “Khartiia”, da Guarda Nacional da Ucrânia, disparam um morteiro durante um exercício entre missões de combate, em meio à guerra com a Rússia, na região de Kharkiv, Ucrânia, em 18 de agosto de 2026
REUTERS/Vyacheslav Madiyevskyy

Pedido por eleições
O pedido de Fedorov pela realização de eleições foi recebido com consternação por muitos ucranianos, e pesquisas têm mostrado de forma consistente pouco entusiasmo pela realização de um pleito durante a guerra.

Zelensky condenou a proposta de Fedorov, argumentando que a realização de eleições poderia destruir a Ucrânia enquanto o país luta contra a Rússia.

Desde a invasão russa, em fevereiro de 2022, a Ucrânia está sob lei marcial, que proíbe a realização de eleições por razões de segurança.

O presidente afirmou que Fedorov poderia estar sendo pressionado por forças externas a pedir eleições.
Fedorov negou categoricamente a acusação.

Embora existam enormes desafios logísticos para a realização de eleições durante a guerra, Fedorov afirmou que a Ucrânia encontraria soluções inovadoras.
Disse, porém, que ainda é cedo para afirmar se disputaria a Presidência.

Enquanto isso, Fedorov pretende dividir seu tempo entre a campanha pela retomada das eleições na Ucrânia e iniciativas voltadas a tecnologias militares inovadoras, incluindo um fundo de investimentos para o qual pretende captar recursos durante uma próxima viagem aos Estados Unidos.
O ex-ministro da Defesa da Ucrânia Mykhailo Fedorov fala durante entrevista à Reuters, em meio à guerra com a Rússia, em Kiev, Ucrânia, em 24 de agosto de 2026
REUTERS/Anatolii Stepanov