Desde a capitalização em 2022, a Axia Energia, maior geradora e transmissora do setor elétrico brasileiro, reestruturou sua área de inovação para alinhar e integrar as iniciativas de pesquisa e desenvolvimento (P&D), então espalhadas em cinco empresas diferentes.
A vice-presidência de tecnologia e inovação é responsável por conduzir a estratégia, centrada em um modelo que organiza as diferentes iniciativas de pesquisa e tecnologia em entregas de valor, lideradas pelas áreas de negócio.
Concebidas para eliminar barreiras entre diferentes áreas, maximizar retornos e resolver “dores” de cada linha de negócio, as entregas de valor combinam capacidades em tecnologia, ciência de dados, automação, P&D e inovação aberta.
No fim de 2025, eram mais de 70 projetos ativos, cujo potencial estimado de geração de valor alcança R$ 2 bilhões.
“Isso faz com que a inovação esteja presente em toda a companhia e que os seus resultados fiquem transparentes”, diz o vice-presidente da área, Juliano Dantas.
Os resultados práticos dessa estratégia podem ser vistos em várias áreas.
As mudanças climáticas estão no centro das preocupações da Axia Energia.
Chuvas mais intensas (ou menos) podem ter impacto sobre a geração das hidrelétricas; ventos extremos e queimadas podem causar danos às linhas de transmissão.
Os impactos vão da operação até a área de comercialização.
De olho nesse cenário, a Axia inaugurou no ano passado um centro de monitoramento de ativos e clima do Brasil em sua sede no Rio de Janeiro.
A empresa estima que a iniciativa gere ganhos anuais superiores a R$ 11 milhões, decorrentes da redução de multas por desligamentos, menor ocorrência de danos a equipamentos, otimização de apólices de seguro e diminuição de penalidades por indisponibilidade.
Em 2026, avanços foram registrados nessa área, com ferramentas criadas em parceria com startups que participam de seu ecossistema de inovação.
Um exemplo é o sistema de monitoramento de queimadas, que utiliza imagens de satélite e inteligência geoespacial para identificar focos ativos, mapear áreas afetadas e gerar alertas em tempo quase real.
A solução monitora continuamente mais de 74 mil quilômetros de linhas de transmissão — distância equivalente a quase duas voltas ao redor da Terra — e que representam 37% do Sistema Interligado Nacional.
Ainda tem como diferenciais o monitoramento 24 horas, uso de imagens de mais de 20 satélites e análises atualizadas a cada dez minutos, cobrindo todas as linhas de transmissão no país.
A iniciativa foi desenvolvida em parceria com a Inspectral, startup selecionada em desafio criado pela empresa.
A colaboração viabilizou a evolução da ferramenta, ampliando sua precisão, estabilidade e integração aos sistemas corporativos.
Dantas afirma que o projeto reforça o papel do ecossistema de inovação da Axia na busca por soluções tecnológicas aplicadas à gestão de riscos, contribuindo para a resiliência dos ativos e para a geração de valor sustentável.
“Com isso, contribuímos diretamente para o ODS 9 ao fortalecer a infraestrutura do setor elétrico com tecnologia espacial integrada.” O executivo se refere ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável n° 9 da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU): “Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação”.
Dantas, VP da Axia: de olho nas oportunidades, mas mantendo a rede elétrica em pé
Divulgação
Sobre o desafio de avançar em inteligência artificial (IA) e na análise de dados, a Axia desenvolveu, em parceria com o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), um neocloud, modelo de infraestrutura de computação em nuvem baseado em computadores de última geração e projetado especificamente para IA e computação científica.
A capacidade computacional equivale a 15 mil notebooks pessoais e é disponibilizada para parceiros, incluindo universidades, instituições de pesquisa e startups.
“Isso potencializa o ecossistema de inovação e permite que se possam construir soluções de ponta.” Por enquanto, o serviço é oferecido sem pagamento aos parceiros, mas poderá se tornar uma fonte de receita no futuro.
Ampliar a instalação de sensores nos ativos de geração e transmissão da empresa também é outra iniciativa da empresa relacionada a dados — com mais informações em mãos, é possível analisar processos e antecipar-se a eventuais problemas.
A Usina Hidrelétrica de Tucuruí (PA) foi a primeira a receber um projeto de modernização e expansão da capacidade de rede e conectividade.
Com atuação de 50 profissionais especializados, a usina se tornou 100% conectada com tecnologia Wi-Fi no ano passado.
Os sensores identificam a incrustação de mexilhões-dourados — um grande problema para as usinas hidrelétricas — no sistema de resfriamento, proporcionando mais precisão e economia na manutenção, evitando paradas não planejadas e perdas de receita.
Outra inovação foi o desenvolvimento de um sistema de refrigeração que utiliza sensores, automação e IA para monitorar e otimizar o tratamento da água, permitindo intervenções mais precisas e controladas.
Sua implementação reduz em até 75% as paradas por superaquecimento, evitando perdas de até R$ 177 milhões anuais e diminuindo custos de manutenção em R$ 11,3 milhões.
Além disso, o sistema promove ganhos ambientais ao tornar o uso de produtos químicos mais eficiente e controlado, com potencial de aplicação em outras usinas.
“Escalar as soluções permite reduzir o custo marginal de adoção dos sensores, ter mais dados e aplicá-los em soluções com ganhos”, diz Dantas.
Outra frente de atuação é estudar o armazenamento de energia elétrica, uma nova fronteira que será aberta no Brasil no fim do ano, quando o governo federal irá realizar o primeiro leilão de contratação dessa tecnologia.
Recentemente, a empresa iniciou a operação de um polo de inovação às margens do rio São Francisco, em Petrolina (PE) e em Sobradinho (BA).
O complexo reúne uma usina heliotérmica, sistemas de armazenamento por baterias, módulos solares flutuantes e um data center.
Foi construída uma pequena rede de energia elétrica para abastecer um pequeno data center de 1 MW, instalado em Casa Nova (BA), perto da Usina Hidrelétrica de Sobradinho — onde são feitas simulações de consumo de eletricidade.
A ideia da empresa é entender o impacto que essas cargas têm sobre a rede e quais serviços são demandados, como o armazenamento de energia.
O projeto ainda permite testar estratégias de armazenamento térmico de longa duração.
Estudam-se ainda soluções para o curtailment (corte de geração renovável).
Em 2025, cerca de 20% da capacidade de geração solar e eólica do país sofreu cortes involuntários pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), motivados pelo excesso de energia durante os períodos de maior insolação.
Já no reservatório da hidrelétrica de Sobradinho, a empresa instalou uma planta-piloto de geração solar flutuante ligada a um sistema de baterias (BESS).
O local vai funcionar para a validação de pesquisas de tecnologias emergentes em ambiente real.
“Há uma série de impactos e de oportunidades que podem ser criadas com a mudança das redes em que vivemos”, diz Dantas.
Um dos mantras que o CEO da Axia, Ivan Monteiro, repete é: “keep the lights on”.
“Em todas as nossas iniciativas buscamos oportunidades, mas sempre olhando os impactos, porque nossa missão é que o sistema fique em pé.”
ESTRATÉGIA
Investimento em P&D no Brasil: : cerca de R$ 800 milhões
Centros de pesquisa no Brasil: 1 - Com duas unidades (Fundão e Adrianópolis)
Centros de inovação no Brasil: 5
Patentes no Brasil: 72 - Mais 71 registros de software
Patentes no exterior: 1
Funcionários em PD&I: 2.128 - 778 em dedicação exclusiva
Parcerias (em inovação): mais de 150
