Os efeitos do El Niño no Brasil alcançam também as matérias-primas agrícolas usadas na fabricação de biocombustíveis, como a cana-de-açúcar, o milho e a soja.
Justamente essa diversidade de insumos para combustíveis, porém, é o que pode amenizar o impacto do fenômeno climático no setor.
Especialistas avaliam que é baixo o risco imediato de falta da produção agrícola.
Como boa parte da soja e do milho da safra 2025/26 já foi colhida, o alerta se desloca para o ciclo 2026/27, cujo plantio e desenvolvimento coincidirão com a fase mais intensa do El Niño.
Mesmo assim, o sinal de alerta foi ligado para a cana-de-açúcar, principal insumo para a produção de etanol e também ligada à geração de bioeletricidade pelas usinas.
Em julho, uma reunião da Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) reuniu relatos de atrasos na colheita e moagem da cana devido a chuvas no centro-sul do país, mas a avaliação foi que o impacto na produção de etanol tende a ser limitado.
Relatório da consultoria Argus Media identificou que, em meio aos relatos de atraso, ao menos uma parcela de produtores fez o contrário: acelerou a moagem para evitar ter cana em pé na fase mais crítica do El Niño.
“Os maiores riscos decorrem da possibilidade de as chuvas postergarem a moagem na reta final da safra e aumentarem a quantidade de cana bisada - aquela que, em vez de ser moída na safra vigente, é mantida no campo para o ciclo seguinte”, afirma o texto.
O Brasil deve bater recorde de etanol na safra 2026/27, produzindo 41,9 bilhões de litros, alta de quase 12% em relação à última temporada, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
A estatal projeta produção de pouco mais de 700 milhões de toneladas de cana em 2026/27, cerca de 5% ante o ciclo anterior.
Já a soja é colhida entre janeiro e abril.
A tendência é que o Centro-Oeste, região mais produtora do grão, tenha um início da safra com menos umidade e temperaturas mais altas.
O óleo de soja responde por cerca de 74% de toda a matéria-prima do biodiesel brasileiro.
O milho é mais versátil.
A primeira safra é colhida de fevereiro a maio, e a segunda, de junho a agosto ou setembro.
Com a alta recente do petróleo e dos combustíveis fósseis e a maior atratividade do etanol hidratado na bomba, a produção do biocombustível sobe.
A maior parte, 71,5%, ainda é de cana, mas o milho deve produzir 11,9 bilhões de litros de etanol em 2026/27, com alta de 17%.
O presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil, Jerônimo Goergen, diz que a soja é o principal ponto de atenção.
Mas, segundo ele, o nível de produção é muito superior ao volume necessário para a fabricação de biodiesel e não deve haver falta do insumo.
“O risco está em uma eventual quebra de safra reduzir a disponibilidade excedente e aumentar a competição entre os diferentes usos da matéria-prima.”
Para Fábio Cordeiro de Lisboa, especialista em biocombustíveis e professor de engenharia automotiva da UnB, a diversidade de matérias-primas para produção de biocombustíveis no Brasil é uma vantagem diante dos efeitos de fenômenos climáticos.
A possibilidade de recorrer a diferentes culturas e resíduos, de acordo com ele, reduz a dependência de uma única fonte e pode dar mais resiliência à produção de combustíveis de origem renovável.
“Quando há um evento climático assim, ele é diferente no Norte e no Sul.
Se a produção de soja for afetada, por exemplo, você consegue fazer algum tipo de substituição.
No álcool, a gente consegue uma substituição da cana-de-açúcar pelo milho, pela mandioca, pela beterraba”, explica Lisboa.
Variedade de matéria-prima ameniza impacto do El Niño em biocombustíveis
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