Vorcaro diz que PF recusou sua proposta de delação por envolver pessoas ligadas ao atual governo - QTU Questões do Universo

Vorcaro diz que PF recusou sua proposta de delação por envolver pessoas ligadas ao atual governo

Fonte: Bandeira da fonte

Ex-banqueiro Daniel Vorcaro
Ana Paula Paiva/Valor - 2/12/20219
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que a Polícia Federal (PF) não aceitou a sua proposta de colaboração premiada por envolver pessoas ligadas ao atual governo.
Segundo ele, o atual diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, seria um dos implicados.

O relato foi revelado pelo jornal O Estado de S.
Paulo.
O Valor teve acesso ao conteúdo da oitiva, realizada na semana passada na Papudinha, onde o ex-controlador do Master está preso.
Como mostrou o Valor na quarta-feira (2), o depoimento foi visto como “inócuo” pelos investigadores por não trazer provas concretas envolvendo o diretor-geral da PF e pelo fato de que a própria Procuradoria-Geral da República (PGR) também havia rejeitado a delação de Vorcaro.

"Toda a minha colaboração, ela, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo", afirmou o ex-banqueiro.

Para os investigadores, o relato foi mais uma parte da estratégia da defesa de Vorcaro de tentar contato direto com o relator do caso em seu esforço de obter uma colaboração premiada.
A relação entre Mendonça e a cúpula da PF tem sido marcada por atritos devido a essa e outras investigações que estão com o ministro, como a das fraudes do INSS.

No depoimento, Vorcaro admite que as relações que supostamente construiu com autoridades acabaram cruzando “linhas de moralidade”.
“E aí, nesses momentos, teve uns casos que foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude, que esses eu pretendia relatar.
Eu pretendia....
Na minha opinião, os fatos estão tão diferentes da realidade, doutor, que só a verdade hoje vai me libertar.
Então, eu quero muito, desde...
tem alguns meses que eu quero falar a verdade.
Eu não sou perfeito, eu errei, eu errei mesmo, eu quero falar no que eu errei”, seguiu o ex-banqueiro.

Apesar de fazer referências a políticos e autoridades, ele citou nominalmente apenas o diretor-geral da PF, ainda assim de forma genérica e sem detalhar a relação que ele teria com ele.

“Eu vou dar um exemplo de situações que aconteceram, como, por exemplo, o próprio diretor-geral, o Andrei, que viajou para eventos comigo, com namorada, teve ingressos, teve uma relação pretérita a esse caso, especificamente.
E aí, depois, os delegados que estão fazendo a colaboração, que estão escutando o que eu tenho para falar, não quiseram escutar, não quiseram fazer”, afirmou Vorcaro.

Em outro ponto, ele chegou a afirmar que a relação com Rodrigues não chegou a ser de “amizade”.
“Não chegou a ser uma amizade, mas uma relação de estar em eventos conjuntos, de estar em eventos de charuto, juiz, de ter uma tratativa cordial, amistosa, de ir com família em eventos do banco, convites para eventos de Fórmula 1, de outras coisas”, seguiu.

Em seu relato, Vorcaro ainda disse que pretendia colaborar desde que foi solto pela primeira vez, no fim do ano passado, e chegou a elogiar a postura da PGR, com quem também tentou negociar uma colaboração, sem sucesso.
“Fiquei, inclusive, surpreso com a própria PGR, com a atuação que foi proativa de tentar saber, entender a realidade.
Mas isso não aconteceu, desde o começo, com a polícia.”

Vorcaro também mencionou em seu depoimento que teria recebido recados de advogados, sem citar nomes, afirmando que ele não deveria tentar fazer um acordo.
Ele não deu mais detalhes sobre esses recados.
Ainda segundo o ex-controlador do Master, as intimidações da PF teriam cessado depois que foi encerrada suas tratativas para uma colaboração premiada.

Um relatório elaborado pela Polícia Federal na semana passada e tornado público pelo STF mostra que Vorcaro também manteve contato com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que teria lhe pedido inclusive para incluir o filho em uma viagem para um evento promovido pelo Master em Londres, o que foi aceito por Vorcaro.
O relatório também expôs que o ex-banqueiro manteve contato com o ministro do STF Alexandre de Moraes na véspera de ser preso e chegou a perguntar para ele se deveria deixar o país dois dias antes de ser detido.

Na oitiva, ele voltou a defender as negociações para vender o extinto Banco Master para o banco estatal de Brasília, o BRB.
Ele também defendeu a tentativa de vender depois o Master para um grupo de investidores estrangeiros e tratou a liquidação do banco como uma forma de perseguição do “sistema”.

Procurada, a PF informou que não iria se manifestar.
Internamente na corporação o relato foi considerado “absurdo”.
Procurada, a PGR ainda não se manifestou a respeito.