Jornal da CBN apresentou nesta segunda-feira (3) mais uma edição do “50 Debates para o Brasil”, série que discute temas relevantes para o futuro do país até a semana das eleições.
A proposta é reunir especialistas com diferentes perspectivas e oferecer argumentos para que os ouvintes formem a própria opinião.
Nesta edição, o programa debateu a privatização dos Correios.
A estatal registrou prejuízo de R$ 8,5 bilhões em 2025 e enfrenta a perspectiva de um resultado ainda pior neste ano.
Ao mesmo tempo, permanece responsável pela prestação do serviço postal em todas as cidades brasileiras.
A discussão abordou se a transferência da empresa para a iniciativa privada poderia aumentar a eficiência e reduzir os custos para os contribuintes ou se colocaria em risco a universalização do atendimento, especialmente nas regiões mais distantes e menos lucrativas.
Mediado pelos âncoras Mílton Jung e Cássia Godoy, o debate reuniu Gesner Oliveira, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio da GO Associados, e David Deccache, doutor em Economia e diretor do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD).
Favorável à privatização, Gesner defendeu a transferência para a iniciativa privada das operações nas quais já existe concorrência.
Para ele, uma combinação de regulação, concessões e parcerias público-privadas poderia preservar a universalização do serviço com um custo menor.
Contrário à medida, Deccache argumentou que os problemas financeiros e de gestão não decorrem necessariamente do controle estatal.
O economista citou experiências internacionais e sustentou que os Correios precisam ser recuperados e permanecer públicos para garantir o atendimento de regiões que não despertam interesse comercial.
Confira os principais trechos do debate:
Mílton Jung: Os defensores da privatização afirmam que ela tornaria os Correios mais eficientes e competitivos.
Que mudanças o cidadão perceberia e por que elas não poderiam ser alcançadas com a manutenção da empresa pública?
Gesner Oliveira: Precisamos observar três aspectos: a qualidade do serviço, o custo e a governança.
O índice de entregas dentro do prazo está abaixo da meta estabelecida pelos próprios Correios.
Em dezembro de 2025, chegou a 74,15%, o que significa que aproximadamente um quarto das entregas não ocorreu no prazo.
Os mercados nos quais os Correios atuam mudaram.
Nos segmentos mais dinâmicos da economia digital, a empresa não consegue competir com os operadores privados, que já possuem condições de prestar esses serviços.
Também existe o custo fiscal.
Os prejuízos acumulados desde 2022 superam R$ 20 bilhões.
Essa conta é paga pelo Tesouro Nacional e, portanto, pelos contribuintes.
Como a arrecadação brasileira é baseada principalmente em impostos indiretos, esse custo pesa proporcionalmente mais sobre os mais pobres.
Há ainda um problema de governança, com um histórico de interferências políticas e escândalos.
Defendo a privatização nos mercados em que já existe concorrência, acompanhada de uma regulação independente e tecnicamente qualificada.
A universalização pode ser garantida por concessões patrocinadas ou parcerias público-privadas.
Populações ribeirinhas no Amazonas, por exemplo, poderiam ser atendidas mediante obrigações previstas em contrato, com um custo menor do que o provocado pelo atual modelo.
Mílton Jung: Como garantir que os Correios continuem cumprindo sua função social sem perder eficiência nem depender permanentemente de recursos públicos?
David Deccache: As experiências internacionais demonstram que o modelo estatal não apenas é viável como pode alcançar excelência.
A União Postal Universal, agência vinculada às Nações Unidas, publica desde 2017 um ranking dos melhores sistemas postais do mundo.
O sistema da Suíça, inteiramente estatal, ocupa a primeira posição há nove anos.
Dos sete sistemas postais mais bem avaliados, cinco são estatais.
Precisamos separar os problemas setoriais e de gestão daqueles relacionados à forma de propriedade.
Não podemos encaminhar uma solução com base em um diagnóstico equivocado sobre a origem dos problemas.
Os Correios brasileiros são apontados pela União Postal Universal como o melhor sistema postal da América Latina.
O relatório de 2025 apresenta o Brasil como uma referência porque, apesar das dificuldades financeiras e administrativas, a empresa consegue preservar a universalidade do atendimento em um território muito extenso e desigual.
Nos últimos meses, mais de 90% das entregas ocorreram dentro do prazo e o índice de satisfação dos consumidores aumentou.
Precisamos recuperar os Correios e reconhecer a importância das nossas empresas estatais.
Alguma participação do Estado continuará sendo necessária mesmo em um modelo privatizado, porque o setor possui falhas de mercado.
Existem serviços indispensáveis para a população que não são comercialmente atraentes para as empresas privadas.
Cássia Godoy: O ouvinte Douglas Nascimento pergunta se os Correios exercem um papel estratégico e quais riscos o país correria com a privatização.
Gesner Oliveira: Existe um papel estratégico relacionado à universalização do serviço, especialmente nas regiões e nos mercados que não são atendidos adequadamente ou não interessam aos operadores privados.
Já os serviços relacionados ao comércio eletrônico estão plenamente atendidos por diferentes empresas.
Para garantir a universalização nas áreas menos atrativas, o governo poderia realizar uma concessão administrativa ou uma parceria público-privada, estabelecendo obrigações e metas sob uma regulação técnica e independente.
O modelo atual é insustentável.
Além dos prejuízos acumulados, houve uma redução superior a 60% nos investimentos.
Os Correios não conseguem competir nos mercados em que já existem operadores privados e, consequentemente, deixam de gerar os recursos necessários para atender o restante da população.
A Suíça possui uma realidade muito diferente da brasileira.
Países como Alemanha, Países Baixos, Áustria e Bélgica tiveram experiências positivas com a privatização dos serviços postais.
É possível realizar uma mudança bem-sucedida, desde que ela seja gradual, bem planejada e acompanhada por uma boa regulação.
Cássia Godoy: David, os Correios exercem um papel estratégico? Quais seriam as consequências de uma privatização?
David Deccache: Os Correios são estratégicos porque os serviços postais constituem um serviço público e precisam ser universalizados.
Os principais desafios do setor não decorrem do fato de a empresa ser pública ou privada.
O custo unitário de entregar cem encomendas em um único quarteirão de São Paulo ou de Copacabana é muito baixo.
O custo de realizar três entregas ao longo de centenas de quilômetros na Região Norte é extremamente elevado.
O sistema precisa operar com preços uniformes e subsídios cruzados entre os segmentos mais lucrativos, como o de encomendas, e as redes de baixa densidade.
Se os Correios ficarem concentrados apenas nas regiões de alto custo, enfrentarão inevitavelmente um problema de caixa.
A empresa também exerce funções importantes em emergências sanitárias, como a distribuição de vacinas e medicamentos, e na entrega de provas de concursos e do Enem.
Um país continental e extremamente heterogêneo precisa manter uma estrutura estatal preparada para responder a necessidades emergenciais.
A maior parte dos sistemas postais mais bem avaliados do mundo é estatal.
Existem experiências privadas de excelência, mas elas são exceções.
Os problemas enfrentados pelo setor postal não podem ser automaticamente associados à propriedade pública, principalmente porque esse setor passa por uma crise em diversos países.
O “50 Debates para o Brasil” segue no Jornal da CBN até a semana das eleições.
Os debates ficam disponíveis no site, no aplicativo e no canal da CBN no YouTube.
Veja o debate na íntegra no Youtube
