Atafona: saiba como avanço do mar engoliu casas e transformou paisagem de distrito no Norte Fluminense ao longo dos anos - QTU Questões do Universo

Atafona: saiba como avanço do mar engoliu casas e transformou paisagem de distrito no Norte Fluminense ao longo dos anos

Fonte: Bandeira da fonte

O avanço do mar transformou totalmente a paisagem de Atafona, distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, ao longo das décadas.
O processo, que começou na década de 1960, já provocou a destruição de casas, ruas, redes de esgoto e estruturas de eletricidade.

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Com o passar do tempo, a erosão já avançava até 6 metros por ano, e mais de 500 casas haviam sido submersas em uma faixa de aproximadamente 2 quilômetros.
Além disso, até 2022, centenas de casas com moradores permaneciam em área de risco, como mostrou reportagem do GLOBO.
Atafona
AFP
Onde antes havia avenida e areia...
A mudança da paisagem pode ser medida pelos relatos de moradores.
Em 2024, Sônia Ferreira contou ao GLOBO que construiu sua casa em 1978, quando ainda havia dois quarteirões entre a residência e o mar, além da Avenida Atlântica asfaltada, calçadão e uma extensa faixa de areia.
— É como morar em um castelo de areia.
Quando construímos a casa, em 1978, nós não víamos o mar.
Havia dois quarteirões na frente da casa e a avenida Atlântica asfaltada, com calçadão e um pedaço enorme de areia até chegar, enfim, à praia.
Não imaginávamos que um dia ele chegaria à nossa casa.
Eu acompanhava o estado das marés como se eu fosse pescadora, porque pensava em continuar ali — relatou, na época.
Sonia Ferreira
Thiago Freitas
Em 2019, quando a água começou a atingir o muro dos fundos, Sônia deixou a antiga casa e passou a viver em um apartamento pequeno construído no mesmo terreno.
Ainda assim, mantinha a expectativa de voltar.
— Vou pintar a casa de novo e vou voltar a morar aqui.
Em outra ocasião, ela registrou a água atingindo a lateral da residência.
Segundo Sônia, a erosão retirava a areia sob o terreno e deixava o muro sem sustentação.
— Eu estava na varanda do meu quarto quando a minha vizinha da frente, que também perdeu sua casa, me ligou pedindo que filmasse a situação do mar, que batia muito na lateral da casa.
O muro já estava com a sapata fora, sem sustentação, porque o mar vai tirando a areia que fica por baixo do terreno e deixando a construção oca.
Para impedir o processo, nós até pensamos em colocar pedras na frente do muro, mas ia prejudicar os vizinhos — explicou.
Casas perdidas e impacto na pesca
Em 2022, João Waked Peixoto acompanhava a ameaça à casa construída por sua família.
Ele dizia não saber quando teria de abandonar o imóvel.
— É uma incógnita (quando vamos ter que sair).
O mar avançou em 15 dias uns 3 ou 4 metros.
Então, a gente não sabe.
Esse muro pode não estar mais aqui semana que vem — contou à agência de notícias France-Presse (AFP).
A possível perda da residência também significava deixar para trás lembranças de várias gerações.
— É uma pena a gente perder uma casa tão boa.
As lembranças da minha família inteira, meus pais, irmãs, sobrinhos, primos, netos.
A família toda vinha pra cá.
A erosão também atingiu a atividade pesqueira.
A redução da vazão do rio Paraíba do Sul dificultou a entrada de barcos e afetou a economia local.
O que está por trás da erosão
O geólogo Eduardo Bulhões, da Universidade Federal Fluminense, atribuiu o agravamento do problema a uma combinação de fatores naturais e humanos.
No longo prazo, apontou o aumento do nível do mar associado às mudanças climáticas.
No curto e médio prazo, citou ressacas excepcionais e períodos prolongados de chuva e seca.
Bulhões também relacionou a erosão a alterações no rio Paraíba do Sul.
Atividades realizadas ao longo de cerca de 40 anos, como mineração e desvios de água para a agricultura, teriam reduzido a vazão do rio e sua capacidade de transportar areia até a foz.
Com menos sedimentos chegando à costa, a praia perdeu capacidade de recomposição natural.
A ocupação do litoral também retirou parte da proteção formada por dunas e vegetação.