“Max Overseas é um personagem histórico, porém absolutamente contemporâneo, a síntese do arquétipo do malandro moderno e genuinamente brasileiro”.
É assim que José Loreto resume o protagonista que interpreta (em alternância com Tiago Barbosa) no musical “Ópera do malandro”, clássico de Chico Buarque que estreia nesta quinta (6) no Teatro Multiplan, no Rio de Janeiro, após sucesso em São Paulo.
Com direção de Jorge Farjalla, a montagem revisita a Lapa dos anos 1940 a partir de um olhar não naturalista, com referências que vão da umbanda e das entidades do “povo da rua” à dança folclórica catira.
Programe-se: 'O beijo no asfalto' prorroga temporada no Teatro Gláucio Gill; vendas abrem nesta quinta-feira (6)
Crítica: ‘Anunciação’ desvia dos clichês dos musicais da MPB ao mergulhar de cabeça no universo criativo de Alceu Valença
— Tudo é em cima do teatro vitoriano, do exagero, da farsa, desse corpo que é quase commedia dell’arte — explica o diretor, que se inspirou também na adaptação para o cinema de Ruy Guerra, de 1985.
— E se a gente está falando da Lapa, não tem como não falar do Zé Pilintra.
Brinco que a encenação é como a jornada do herói, mas a transformação é de malandro em Zé.
Inspirado em “A ópera dos três vinténs” (1928), de Bertolt Brecht (sendo esta inspirada em “A ópera do mendigo”, de 1728, de John Gay), Chico Buarque explora a complexa marginalidade carioca.
No centro da trama, o contrabandista Max, após se casar secretamente com Terezinha (Carol Costa), filha dos cafetões Duran (Edgar Bustamante) e Vitória Régia (Totia Meireles), passa a viver em guerra com os sogros e o delegado Chaves (Amaury Lorenzo).
Família Duran (Duran, Teresinha e Vitória Régia) marca um caótico núcleo da peça Ópera do Malandro
Divulgação/Adriano Dória
Estreando na montagem nesta temporada, o carioca Tiago Barbosa recorreu à origem periférica para criar seu Max.
— A malandragem corre nas veias de quem precisa se refazer todos os dias para fechar as contas e botar comida na mesa — diz o ator, que, em meio a uma carreira internacional decidiu voltar ao país para o musical.
Outro ponto de destaque na montagem é o olhar contemporâneo dado à personagem Geni, interpretada pela atriz trans Valéria Barcellos.
Protagonista de “Geni e o Zepelim”, uma das faixas mais emblemáticas do repertório, a personagem, antes descrita como travesti e chamada de Genival por outros personagens, nesta montagem não aceita tratamento que não por seu nome: “É Geni!”.
Relembrando a trajetória da artista e ativista pelos direitos LGBTQIA+ Andréa de Mayo, primeira mulher trans a interpretar a personagem, na década de 1970, Valéria reflete sobre a importância de seguir contando a história de Geni:
— Se a gente não coloca em palavras, parece que não existe.
Falar desta personagem fictícia, que ao mesmo tempo é tão real, talvez possa ajudar a demarcar existências.
Gostaria que a gente reverenciasse quem esteve aqui antes, como a Andréa, e também passasse a vislumbrar um amanhã promissor.
Serviço
Onde: Teatro Multiplan, Village Mall.
Quando: Qui e sex, às 20h.
Sáb, às 16h e às 20h.
Dom, às 15h30 e às 19h30.
Até 30 de agosto.
Estreia quinta (6).
Quanto: de R$ 50 (frisas) a R$ 350 (plateia vip).
Classificação: 14 anos.
