O tarifaço dos EUA sobre as exportações brasileiras e a guerra contra o Irã, que completa seis meses na sexta, não trouxeram desequilíbrios nas contas externas brasileiras até agora.
Apesar de encarecer insumos, o conflito no Oriente Médio elevou os preços das commodities e fez o Brasil bater seu recorde de exportações em valor em junho (US$ 36,4 bilhões).
A balança comercial foi o principal fator a reduzir o déficit em transações correntes, enquanto os investimentos diretos na produção subiram no segundo trimestre a 3,6% do PIB em 12 meses, segundo o Ipea.
As reservas internacionais aumentaram US$ 24 bilhões nos 12 meses encerrados em junho, para US$$ 368 bilhões.
Mas o comércio global já não flui livremente, e outras restrições, além das americanas, foram colocadas pelos maiores parceiros do Brasil, como China e União Europeia.
O governo Trump está acusando o Brasil, erradamente, de auxiliar na maquiagem de produtos chineses reexportados para os EUA.
A guerra contra o Irã teve efeitos positivos diretos na balança comercial.
A guerra, porém, não acabou e não há acordo à vista entre Estados Unidos e Irã, que retornaram à fase de agressões verbais mútuas, enquanto o Estreito de Ormuz continua bloqueado.
Os preços do petróleo estão em alta.
Até o início de agosto, houve certa acomodação.
Os preços dos fertilizantes, que subiram 25% logo após a eclosão do conflito, recuaram 14% desde maio, segundo estudo do Ipea.
Os preços dos fretes marítimos, que saltaram 125% quando a guerra começou, caíram 31% desde o pico.
Mesmo assim, isso significa que a safra brasileira terá seu transporte e os insumos mais custosos encarecidos, sob ameaça de estresse hídrico severo com a chegada do El Niño.
Os conflitos também não afetaram as exportações brasileiras para o Oriente Médio.
As vendas para a região aumentaram 3% e as importações, 9%.
Sua participação no total das vendas brasileiras declinou um pouco, mais como efeito da realocação dos produtos brasileiro para outros mercados, diante da barreira protecionista dos EUA.
Nos primeiros sete meses do ano, a parcela das vendas para a América do Norte recuou 6%, devido à redução de 12% das compras dos EUA.
Essa perda foi compensada pelo aumento de 3,4 pontos percentuais nas exportações para a Ásia, que adquiriu 46% do total vendido pelo Brasil no período.
Não foi uma via de mão única.
O Brasil importou 10% menos dos EUA e passou a comprar mais dos países asiáticos - 41,4% do total importado.
A fatia da China nos dois casos é determinante.
No atacado, as exportações brasileiras vão bem; no varejo, as tarifas de Trump colocam um peso grande sobre setores da indústria (especialmente manufaturados).
Quase um quarto da pauta de vendas para os EUA foi atingira pelas sanções com base na seção 301 (tarifa total de 37,5%), e outro quarto, pelas tarifas anteriores sobre aço, cobre e veículos, de até 50%.
Da fatia de 23,1% das exportações sobretaxadas em julho, 16,5% pagarão 37,5% para ingressar no mercado americano, 4,7% até 12,5% e 1,9% dispenderão 25%.
O peso das sanções sobre o comportamento do PIB é irrisório, porém atinge fortemente 42% da pauta exportadora do Ceará, 18,5% da do Espírito Santo e 9,7% da de Santa Catarina.
O maior parceiro comercial do Brasil, a China, principal mercado para a carne brasileira, impôs salvaguardas para o produto.
A cota, de 1,1 milhão de toneladas, já praticamente preenchida em junho, segundo o Ipea, pagará 12% e o excedente mais 50%, em um total de 67%.
A cota reduz os embarques feitos em 2025 (1,65 milhão de toneladas) em 33%, em importações chinesas que renderam US$ 8,84 bilhões.
Em junho, os embarques de carne para a China caíram 47% em relação ao mês anterior e vários frigoríficos deram férias coletivas a seus funcionários.
As carnes em geral sofreram outro baque com as restrições regulatórias impostas pela UE, que também abrangem ovos e mel.
A partir de 3 de setembro, o bloco não comprará mais esses produtos até que o Brasil seja capaz de rastrear e certificar toda a cadeia produtiva para atestar que produtos antimicrobianos não são usados.
Além disso, a UE reduziu a cota sem tarifa do aço em 47% e elevou a tarifa extracota para 50% sobre 26 produtos siderúrgicos.
Aço e carnes estão, assim, com severas restrições em dois dos maiores mercados compradores.
Além disso, há sempre o imprevisível Trump.
O governo americano classificou o Brasil como comparsa da China na maquiagem de produtos que entram nos EUA.
A acusação não tem pé nem cabeça.
A autora de um dos estudos utilizados, que não cita o Brasil, Caroline Freund, da Universidade da Califórnia, disse ao Valor que as tarifas americanas sobre produtos brasileiros são umas das maiores e que as tarifas de importação do Brasil também são altas, quando a triangulação visa, exatamente, a escapar de tarifas.
Além disso, o Brasil não é grande exportador de manufaturados nem fica na rota da China para os EUA.
Mas o Brasil corre risco de novas sanções.
O Brasil conseguiu dar rápidos passos para escapar do cerco tarifário dos EUA.
A manutenção do canal aberto de diálogo entre os presidentes Lula e Trump mostra pragmatismo que pode pelo menos evitar, em tese, que o Brasil seja novamente penalizado.
A maior diversificação de exportações se tornou ação inadiável.
Contas externas resistem, mas diversificação é inadiável
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