A segunda pesquisa Quaest para a Presidência de 2026, contratada pelo jornal O GLOBO e pela Globo e divulgada nesta quarta-feira, revela algumas mudanças no cenário após o início da propaganda eleitoral na TV e no rádio.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 37% das intenções de voto na simulação de primeiro turno.
Flávio Bolsonaro (PL), com 30%, aparece na sequência.
O levantamento aponta ainda que o escritor Augusto Cury (Avante) surpreende, vai a 10% e se isola em terceiro lugar.
Primeiro turno Quaest: Augusto Cury surpreende, vai a 10% e se isola em 3º; Lula tem 37%, e Flávio, 30%
Segundo turno Quaest: Lula lidera pesquisa Quaest no 1º turno com 37%, contra 30% de Flávio; Cury vai a 10%
No cenário do segundo turno, a vantagem do presidente ante seu principal adversário cai de 8 pontos para 1 em dois meses: Lula está em empate técnico com Flávio, e marca 42% contra 41% do senador.
Os colunistas do GLOBO Merval Pereira, Fabio Graner, Miriam Leitão e Renato Meirelles comentaram a segunda rodada de pesquisas durante uma live transmitida no site do jornal e no YouTube, comandada pela também colunista Vera Magalhães.
Entre os temas em destaque também estão o voto dos evangélicos e dos eleitores chamados independentes, a repercussão das últimas revelações do caso Dark Horse, Lulinha e do Banco Master.
O impacto na economia também permeou o debate.
Toda a semana, um time de colunistas do GLOBO comentará as rodadas de pesquisas Quaest para a eleição presidencial, que serão divulgadas até o início de outubro, quando ocorre o primeiro turno.
O que dizem os colunistas
Vera Magalhães
Lula tem uma leve vantagem entre aqueles que o consideram mais moderado do que o PT, enquanto Flávio Bolsonaro vem avançando entre os eleitores que o veem como mais moderado do que o bolsonarismo.
Esse é um investimento específico da campanha dele.
Sua propaganda na televisão começa com a mulher dizendo que ele foi educado para ser menos radical do que o pai e lembrando que foi criado pela mãe.
Enquanto isso, a campanha do PT aposta em apresentá-lo como o pior dos Bolsonaro.
Parece haver um problema para Lula na tentativa de alcançar os independentes.
É nesse grupo que começa a se abrir a “boca do jacaré”: 35% dizem que Lula é o melhor candidato que a esquerda poderia ter, enquanto 54% respondem que não.
Isso talvez ajude a explicar sua dificuldade para ampliar a votação e abrir vantagem nas simulações de segundo turno.
Perguntei a Felipe Nunes se a pesquisa já captaria algum reflexo das novas revelações sobre o Banco Master.
Ele explicou que o trabalho de campo ainda estava sendo concluído, mas que a maior parte das entrevistas já havia sido feita quando o caso veio à tona.
Portanto, não podemos considerar que o impacto desse escândalo esteja inteiramente refletido nos resultados.
Miriam Leitão
A primeira coisa é que caiu bastante o percentual de indecisos.
Isso coincide com o período da campanha eleitoral: a campanha começa e os indecisos vão diminuindo.
O crescimento de Augusto Cury chamou a atenção de todo mundo, mas ele também passou a falar e deu entrevista ao Jornal Nacional.
Assim, passou a ser visto para além do que era conhecido anteriormente.
Passou a ser visto como candidato e despontou como o terceiro colocado nas intenções de voto.
O fato de o quarto ser Renan Santos mostra o quanto o projeto de Ronaldo Caiado está ficando mais distante.
Há um descolamento entre os indicadores — neste momento, com a inflação em queda — e o que as pessoas sentem.
Os preços subiram muito e, quando recuam em relação ao patamar anterior, o índice registra essa queda.
Isso, porém, não significa mais espaço no orçamento, porque a renda está comprometida com o endividamento, os juros elevados e outras despesas.
É essa percepção que influencia as decisões de voto.
Mais importante do que o número é o sentimento.
Acho que a corrupção terá um papel importante.
Como você mencionou, 66% dos entrevistados souberam do caso “Dark Horse”, e 52% consideram que Flávio Bolsonaro não deu explicações suficientes.
Mas o noticiário mais recente vinha sendo dominado pelas informações sobre as relações de Lulinha com a empresária Roberta Luchsinger.
Agora, o caso envolvendo os diálogos de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro passou a ocupar o centro das atenções.
Merval Pereira
Esse empate no segundo turno mostra que todo mundo que não é Lula tende a se unir ao segundo colocado, que, até agora, é Flávio.
Embora Cury tenha crescido muito, não me parece que tenha estrutura partidária, tempo de televisão e propaganda para tirar Flávio Bolsonaro do segundo turno.
Mas deve chegar com condições de negociar seu apoio.
Esse é o ponto fundamental: a disputa continua muito claramente empatada entre Lula e Flávio.
Lula busca o eleitor de centro e quer ser visto como um candidato mais moderado.
Sempre que venceu uma eleição, foi por essa linha da moderação.
Flávio Bolsonaro também procura se diferenciar do pai.
Embora Jair Bolsonaro seja seu principal cabo eleitoral, Flávio tenta se apresentar como alguém mais moderado e tranquilo.
É também uma tentativa de se aproximar do eleitorado feminino.
O impacto dessa crise no Supremo é muito grande e afeta mais Lula.
O presidente se deixou associar a Alexandre de Moraes, que intermediou encontros com Davi Alcolumbre.
O presidente do Senado, por sua vez, segura e deve continuar segurando, enquanto puder, os pedidos de impeachment de ministros do STF.
A união de Lula, Moraes e Alcolumbre passa a imagem de um cordão para que todos se mantenham no poder.
É uma articulação política que ficou muito evidente e que, a meu ver, pode atingir bastante Lula.
Renato Meirelles
Sempre se fala, entre analistas e jornalistas, no eleitor “nem-nem”: aquele que não é nem Lula nem Bolsonaro, chamado pela Quaest de independente.
Mas esses eleitores não são iguais.
Há uma parcela revoltada com a política, antissistema, cujo espaço foi ocupado por Renan e pelo discurso do Missão.
Mas existe outro “nem-nem”: aquele que estava órfão e que não está de saco cheio da política, mas cansado de uma política que não dialoga com sua vida.
É com esse eleitor que Augusto Cury conseguiu falar.
O campo de batalha da eleição será determinante para o voto evangélico.
Se a campanha caminhar para um debate sobre costumes, esse eleitorado tenderá mais ao bolsonarismo.
Se começar a discutir questões presentes no cotidiano, especialmente na vida das mulheres evangélicas, como saúde, assistência e segurança, isso tende a beneficiar Lula.
O presidente tem autoridade para falar sobre assistência, mas, quando o assunto são os chamados valores da família, o eleitorado não reconhece nele a mesma autoridade.
Muitas vezes, esquecemos que quem tem título de eleitor também tem cartão de crédito.
A dificuldade para encher o carrinho, somada a uma propaganda que explora um dos principais problemas do governo do PT na percepção da população — o fato de não ter entregado a “picanha com cerveja” —, ajuda a explicar a queda da avaliação de Lula no Nordeste.
Se o governo não entrega aquilo que todos se lembram de que foi prometido, sua avaliação cai.
Com o início da campanha, muita gente voltou a se lembrar dessa promessa.
Fábio Graner
Esse saldo negativo entre a aprovação e rejeição do governo é um problema para quem disputa a reeleição.
Alguns especialistas avaliam que o índice de aprovação é um bom indicador do potencial de votos, especialmente no segundo turno.
Para Lula, a situação está ficando mais complicada.
Seu teto parece estar próximo dos 45%, e os riscos aumentam, embora esse percentual ainda represente um bom potencial eleitoral para o presidente.
Na economia, o ano começou forte, mas a atividade perdeu tração.
Quando se abrem os dados do PIB, percebe-se que o consumo das famílias caiu.
Elas estão mais apertadas, e há certo mal-estar econômico por causa do endividamento.
Mesmo com o desemprego baixo, a renda não está dando conta das despesas.
As medidas do governo, embora tenham ajudado na transição entre o primeiro e o segundo trimestre, começam a perder fôlego e impacto.
O campo dos indecisos está em disputa.
Será uma grande batalha, que deve se estender ao segundo turno, e chegará mais forte quem tiver um bom desempenho na primeira etapa da eleição.
Augusto Cury pode exercer um papel importante nesse cenário.
É possível que, em breve, comece a ser cortejado pelas duas principais candidaturas em busca de seu apoio no segundo turno.
