Para o jornalista e fotógrafo catarinense Giovanni Bello, 25 de novembro de 2016 marcaria apenas um tranquilo início de férias em Cuba — mas não foi bem isso o que aconteceu.
No finzinho daquela sexta-feira, a dona do hostel para mochileiros onde ele estava hospedado, em Havana, atendeu a um telefonema, o que era algo incomum àquela hora, e sua reação deixou bem claro que algo de surpreendente acabara de acontecer.
— Fidel morreu?! — assustou-se ela.
Àquela altura, a TV estatal já havia transmitido o comunicado oficial da morte do grande líder, feito pelo seu irmão Raúl, mas parecia que pouca gente tinha assistido, conta Bello em “Se murió Fidel” (Ed.
Vento Leste), livro com fotos e um curto ensaio que está lançando agora, a poucos meses dos dez anos da despedida de um dos mais conhecidos e importantes líderes políticos do século XX.
Cubano durante manifestações no funeral de Fidel Castro
Divulgação/Giovanni Bello
As férias de Bello terminaram naquele momento — seus próximos nove dias seriam de intenso trabalho.
Assim que a notícia se confirmou, o jornalista tomou o rumo da Plaza de la Revolución, centro emblemático da cidade.
Não encontrou ninguém, mas não porque fossem duas da madrugada.
Na verdade, “a população esperava pelo anúncio do governo sobre a programação de eventos pelo luto, para saber, então, o que faria.” Daí a calmaria — até porque estava proibida a venda de álcool e a execução de músicas no espaço público.
“Sem música não há festa e não se baila”, diz ele.
Bello, que desde 2020 trabalha como jornalista da BBC em Londres, ainda tentou conseguir credencial para a cobertura do “evento” em locais privilegiados, próximo a autoridades e visitantes importantes, mas não conseguiu.
Melhor assim, porque conseguiu circular livremente por Havana, entre a “multidão de indiferentes e apaixonados”, enquanto o governo ainda planejava como seria a despedida do comandante, morto aos 90 anos.
‘Meio rei’
Pelo que registrou com seus “olhos visitantes” e apurou nas ruas, o jornalista percebeu que Fidel havia sido meio rei em seus 49 anos de liderança, dependendo do ponto de vista do interlocutor.
“Meio rei”, diz ele.
Para uns, era o líder que olhava por seu povo.
Para outros, “com um olhar mais crítico, veem-se os privilégios de realeza, a falta de espaço para dissidências, absoluto”.
Pescador faz pausa no Malecón, em Havana, às vésperas do funeral de Fidel Castro
Divulgação/Giovanni Bello
Quando a Comisión Organizadora de los Funerales divulgou o cronograma de eventos, ficou acertado que as cinzas do comandante percorreriam mil quilômetros de Havana a Santiago de Cuba, com manifestações da população devidamente autorizadas nos dois pontos do trajeto.
“Se murió Fidel” é uma fotorreportagem sobre essa experiência histórica, sobre o momento em que cubanos tomaram consciência de que “o líder da revolução que moldou o país estava morto e, sem seu teimoso rei, o futuro se tornava mais incerto”, como relata Bello no curto texto, com críticas equilibradas e pertinentes, que acompanha as imagens.
Dez anos da morte de Fidel Castro: livro de fotógrafo brasileiro traz registros do funeral do cubano
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