O grande barato de pensar a programação do Doce Maravilha, para Nelson Motta (curador do evento desde a 1ª edição, em 2023), é juntar “artistas que batem no coração e na cabeça”.
Para este ano, no Jockey, encontros como os de Paulinho da Viola com Maria Bethânia e de Caetano Veloso com Emicida se misturam a shows comemorativos, como Os Paralamas do Sucesso com os 40 anos de “Selvagem?” e o tributo a Belchior com Chico Chico e Juliana Linhares.
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— A música brasileira vive um grande momento, com novos artistas de qualidade e as velhas gerações em plena produtividade — enfatiza o curador.
— Os encontros, quanto mais inusitados melhor, permitem shows grandiosos, no padrão de Ney Matogrosso com Marisa Monte (em 2025).
A festa começa amanhã, com um line-up dedicado ao rock nacional dos anos 1990 e 2000.
Para a alegria dos fãs, o Fresno fecha a noite com um show inédito em celebração aos dez anos de “A sinfonia de tudo que há”, com a Nova Orquestra.
O trabalho, na época, “não foi unanimidade”, admite o vocalista Lucas Silveira:
— Foi nesse disco que percebemos que éramos capazes de abrir o horizonte (musical).
Incorporamos orquestra e arranjos mais elevados e levamos isso à última consequência.
Na época, os fãs não entenderam, mas esse disco ganhou, com o tempo, uma dimensão que hoje praticamente nos obriga, com felicidade, a revisitá-lo.
Fresno: 10 anos de “A sinfonia de tudo que há”, com a Nova Orquestra
Camila Cornelsen
Sobre os headliners de sábado e domingo (Paulinho & Bethânia e Caetano & Emicida, respectivamente), Motta enfatiza que são encontros “pesos pesadíssimos” capazes de “derrubar qualquer palco”.
— O primeiro é, na verdade, um reencontro.
A ideia surgiu do filme “Saravah” (1969), com Bethânia e Paulinho novinhos, gatos e cantando juntos.
Esse encontro vai se repetir 50 anos depois, com os dois estrelas monumentais da música brasileira — conta o curador.
— E o segundo é especial pelo contraste de gerações, culturas e estilos e, ao mesmo tempo, pela confluência de uma grande atuação além-música na vida política e nas questões brasileiras.
Paulinho da Viola e Maria Bethânia: juntos no palco do Doce Maravilha no sábado
Divulgação
Antes, sábado, o festival recebe outros dois amigos: com a potiguar Juliana Linhares, o carioca Chico Chico celebra a força e a atualidade da obra de Belchior, autor de clássicos como “Apenas um rapaz latino-americano” e “Sujeito de sorte”.
— Belchior nunca escreveu para confortar ninguém.
Ele escrevia para inquietar, e é isso que faz com que a obra dele siga tão viva: as perguntas que ele fazia ainda estão abertas — afirma Juliana.
Para o parceiro de palco, essa permanência passa pela combinação entre crítica social e temas universais:
— Suas letras ainda dialogam com o presente, mas também falam de dilemas inerentes a qualquer pessoa — diz Chico Chico.
Chico Chico e Juliana Linhares: tributo a Belchior, no sábado
Michelle Castilho/Elisa Mendes
No mesmo dia, o Cortejo Afro traz a Bahia para os pés do Corcovado.
O grupo, que movimenta o pré-carnaval de Salvador, receberá Luedji Luna e Margareth Menezes.
— O Rio e a Bahia se conectam, sobretudo, a partir da origem do tambor e da forte veia percussiva.
E, apesar de sermos do samba reggae, bebemos na fonte da cultura do Rio.
Não à toa abrimos os shows com “Sorriso negro” (hit na voz de Dona Ivone Lara) — afirma o presidente do grupo, Rogério Alves, que acredita na cultura para fazer frente à intolerância religiosa.
— Nossa bandeira é a partir da música.
O rock volta ao Jockey no domingo, com Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, Os Paralamas do Sucesso.
“Alagados”, “Teerã”, “Selvagem” e mais músicas que poderiam ter sido escritas esta semana vão ganhar o coro de diversas gerações, quatro décadas depois.
— Ainda tropeçamos em questões que estão aí desde a redemocratização.
De repente, a caretice e o sentimento de retrocesso voltaram com força — analisa Barone.
— Desde sempre, nossa questão foi colocar no trabalho as mazelas do Brasil.
Bi Ribeiro (à esq.), Herbert Vianna e João Barone, os Paralamas do Sucesso: 40 anos de "Selvagem", no domingo
Leo Martins
O baterista acredita na força de transformação da arte:
— Nenhum artista é obrigado a ter posicionamento político, mas a arte pode ser entretenimento e uma forma de conscientização ao mesmo tempo.
Os Paralamas têm baladas de amor maravilhosas e letras que falam da realidade do Brasil.
E o que esperar as próximas edições do festival? Nelson Motta tem sonhos não realizados — “ainda”, ele enfatiza: Tim Bernardes com orquestra; e Anitta cantando Carmen Miranda.
Serviço
Onde: Jockey Club Brasileiro.
Praça Santos Dumont 31, Gávea.
Quando: Sex, às 17h.
Sáb e dom, às 14h.
Quanto: De R$ 218,40 (2ºlote solidário, sex) a R$ 286,65 (2ºlote solidário, sáb e dom); passaporte: R$ 515,97 (2ºlote, sáb e dom).
Classificação: 16 anos.
Doce Maravilha volta ao Jockey Club, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro
Diego Padilha/Divulgação
Veja a programação completa:
SEXTA-FEIRA
Palco Bradesco.
18h25: Dibob: 25 anos convida Danilo Cutrim, Vitor Isensee, Diego Miranda e Dedé Teicher.
19h35: Raimundos convida Charlie Brown Jr.
(Thiago Castanho e Marcão Britto).
21h: Fresno: 10 anos de “A sinfonia de tudo que há”, com Nova Orquestra
SÁBADO
Palco Corona.
16h50: Cortejo Afro convida Luedji Luna e Margareth Menezes.
19h: Paulinho da Viola convida Maria Bethânia.
20h15: Nelson Motta e Lou Cascudo apresentam: Noites Tropicais DJ Set.
20h50: Bloco do Silva.
Palco Bradesco.
14h35: Amanda Magalhães.
15h45: Chico Chico celebra Belchior com Juliana Linhares.
17h55: Leci Brandão e Rappin’ Hood
DOMINGO
Palco Corona.
16h50: Falamansa convida Ruan Vitor Vaqueirinho.
19h: Os Paralamas do Sucesso: 40 anos de “Selvagem?”.
20h15: Nelson Motta e Lou Cascudo apresentam: Noites Tropicais DJ Set.
20h50: Caetano Veloso convida Emicida.
Palco Bradesco.
14h35: Nova Orquestra toca “Bloco do eu sozinho”.
15h45: Academia da Berlinda: 10 anos de “Nada sem ela” com Louise.
17h55: Sandra Sá: 40 anos de “Sandra Sá” (1986)
