O anúncio do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice de Flávio Bolsonaro (PL) na corrida à Presidência abriu caminho para o ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL) no flanco da direita na disputa às vagas do Senado por Alagoas.
Horas antes da confirmação da chapa puro-sangue do PL, Gaspar e Lira haviam sido oficializados como candidatos à Casa legislativa.
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Quem é Alfredo Gaspar, escolhido candidato a vice de Flávio Bolsonaro
Até esta quarta-feira, acreditava-se que Gaspar e Lira disputariam os votos da direita para as duas vagas disponíveis de senador pelo estado.
Em junho, ao confirmar a pré-candidatura no Legislativo, o agora candidato a vice-presidente frisou que a aliança entre os dois partidos advinha de um acordo com o presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto.
No entanto, Gaspar frisou que nenhum dos dois deveria pedir votos para o outro.
O apoio nos respectivos redutos não era condição para o acerto.
— O Lira não tem obrigação de me fortalecer nos municípios que ele detém votos de prefeitos, e nem eu tenho essa obrigação com ele em relação aos meus eleitores.
Nossa aliança é partidária e de projetos para Alagoas — explicou Gaspar, na ocasião.
Em nota pública após a confirmação para o Senado, nesta terça-feira, os partidos haviam citado um compromisso para "andar juntos".
Reportagem da série "O voto nos estados", do GLOBO, mostrou que a consolidação de Gaspar nas eleições — impulsionado pela maior visibilidade devido à relatoria da CPI do INSS no Congresso Nacional — impunha dificuldades aos planos de Lira, que poderia perder votos mais à direita por conta da forte identificação de Gaspar com o bolsonarismo.
No mês passado, Gaspar recebeu a visita do ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL), candidato ao Senado por Santa Catarina, em um evento realizado em Maceió.
Carlos afirmou que a escolha do deputado foi feita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que também estendeu seu apoio a Lira.
— Falei para ele (Bolsonaro) que viria para cá (Maceió), e ele me perguntou como estava a situação política aqui.
Ele afirmou que os pré-candidatos dele ao Senado são o Alfredo Gaspar e o Arthur Lira.
Isso foi sacramentado — disse Carlos, em declaração ao portal local Gazeta Web.
Gaspar, do PL, vinha liderando algumas pesquisas de opinião, em disputa apertada com Renan Calheiros (MDB).
Uma pessoa envolvida nas discussões relatou à coluna de Fabio Graner, do GLOBO, que as negociações sobre a candidatura de Gaspar correram pela noite desta terça até esta quarta e envolveram o próprio Lira, que foi aliado de Jair Bolsonaro em 2022.
Apesar de ter apoiado o ex-presidente, Lira também foi o primeiro político de peso a reconhecer a legitimidade da eleição de Lula no último pleito, gesto importante naquele momento por conta do risco de ruptura institucional.
A avaliação de aliados de Lira sempre foi de que o cenário predileto para o ex-presidente da Câmara seria polarizar a disputa com o senador Renan Calheiros (MDB), candidato à reeleição apoiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no pleito.
A dupla protagoniza uma das maiores rivalidades políticas do país.
O arranjo, para Lira, poderia garantir a ele o voto dos eleitores avessos à esquerda.
O anúncio da aliança ao Senado — agora revisitada — ocorreu no mesmo dia do lançamento da pré-candidatura à Casa legislativa do deputado estadual José Wanderley Neto (MDB), conhecido como Dr.
Wanderley.
Ele irá concorrer ao lado de Calheiros e de Renan Filho (MDB), ex-ministro da gestão Lula e candidato ao governo alagoano.
Para Gaspar, a divulgação da chapa ao Senado nesta terça foi feita apenas para "externar e consolidar" a aliança "já existente".
O objetivo, segundo ele, era fortalecer a chapa de oposição em Alagoas, estado que "precisa de oportunidades e menos corrupção".
A chapa da direita, por sua vez, ainda aguarda a definição do ex-prefeito de Maceió JHC (PSDB).
Ele é cotado para concorrer ao governo do estado, mas ainda não definiu em qual lado ficará da disputa.
O desejo de Gaspar, enquanto presidente do diretório local do PL, é contar com o ex-prefeito, considerado o nome mais competitivo para disputar contra Renan Filho.
JHC saiu do PL no final de março, quando foi destituído da presidência local do partido por Valdemar.
O ex-prefeito ficou insatisfeito por não ter autonomia para formar sua própria composição política, já que a Executiva Nacional já havia prometido uma das vagas ao Senado para Lira.
Eudócia Caldas, mãe de JHC, também é candidata ao Senado por Alagoas este ano.
Escândalo do INSS no centro da campanha
A definição da chapa puro-sangue de Flávio, feita no último dia do prazo para as convenções partidárias, encerra uma negociação que se estendeu pelos últimos meses e envolveu diferentes nomes e tentativas de ampliar a coligação presidencial.
Com a escolha, o senador leva para o centro da campanha o escândalo do INSS, e direciona a estratégia para pressionar as relações de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
Gaspar tentou usar a CPI do INSS como ativo eleitoral para concorrer ao Senado por seu estado.
O relatório do deputado, que foi rejeitado pelos parlamentares na CPI, previa o indiciamento de Lulinha e pedia medidas como prisão preventiva de investigados.
Ao todo, o parecer previa mais de duas centenas de indiciamentos, incluindo empresários, operadores financeiros e agentes públicos.
Quem é Alfredo Gaspar
Antes de atuar na política e ganhar notoriedade na CPI, Gaspar, que tem 55 anos, fez carreira no Judiciário.
Ele se formou em direito em 1993, além de obter pós-graduação em direito público no ano de 1999 e ter trabalhado como professor universitário por mais de 10 anos.
Em 1996, o parlamentar ingressou no Ministério Público de Alagoas (MP-AL), onde atuou por 24 anos.
No MP-AL, ele atuou nas promotorias das cidades de Maravilha e Palmeira dos Índios, até chegar a 48ª Promotoria de Justiça da capital Maceió.
Em 2016, ele foi eleito procurador-geral de Justiça do estado, reeleito por dois biênios, e saiu do cargo somente em 2020, quando pediu exoneração do órgão para se dedicar à vida política.
Gaspar trabalhou no primeiro caso de maior repercussão em 1998, quando a ex-deputada federal Ceci Cunha foi assassinada no dia 16 de dezembro daquele ano, em Maceió.
Ela foi morta a tiros junto de seu marido, seu irmão e uma prima.
O crime foi um homicídio planejado por seu suplente, Talvane Albuquerque Neto, que queria assumir sua vaga na Câmara dos Deputados.
Ele foi condenado a mais de 100 anos de prisão.
A parlamentar é mãe do ex-senador e atual vice-prefeito de Maceió, Rodrigo Cunha (Podemos).
Depois, entre 2010 e 2012, Gaspar também teve atuação de destaque quando Maceió enfrentou uma série de assassinatos de moradores de rua, com 73 mortes registradas.
As autoridades locais suspeitavam que os crimes tinham sido praticados por grupos de extermínio, mas as investigações mostraram que os crimes foram motivados por dívidas de drogas.
Sua experiência profissional também inclui a chefia da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) por dois períodos — de 2015 a 2016 e, posteriormente, de 2021 a 2022.
Ele também presidiu o Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC), que é vinculado ao Conselho Nacional de Procuradores-Gerais, e participou de conselhos de segurança e direitos humanos no estado de Alagoas.
Em 2012, ele foi homenageado com a Medalha Mérito do Ministério Público, a maior honraria que a instituição pode conceder.
Em 2022, Gaspar recebeu 102.039 votos para ser eleito deputado federal pela primeira vez.
Ele foi o segundo mais votado do estado de Alagoas, atrás apenas de Arthur Lira (PP).
Pouco antes, em 2020, o político já havia sido candidato à Prefeitura de Maceió (AL).
No pleito municipal, o parlamentar concorreu contra JHC, candidato pelo partido PSB.
Gaspar perdeu a disputa no segundo turno, alcançando 156.704 votos (41,36%).
Seu rival — que já chegou a ser, por duas vezes consecutivas, o deputado federal mais votado de Alagoas — conquistou 222.147 (58,64%).
