Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática - QTU Questões do Universo

Fungos podem restaurar terras degradadas e combater crise climática

Fonte: Bandeira da fonte

Invisíveis a olho nu e espalhados em um sistema subterrâneo complexo, fungos são a aposta de um grupo de cientistas para restaurar terras degradadas, combater a desertificação e a crise climática.

A possibilidade foi apresentada pelas pesquisadoras Toby Kiers e Burenjargal Otgonsuren, que lançaram o resultado de estudos recentes, durante encontro na Embaixada da França em Ulaanbaatar, Mongólia, no contexto da 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação (COP17).

Conhecidos como fungos micorrízicos, por estabelecerem simbiose com raízes das plantas, esses organismos formam extensas redes no solo.
Enquanto recebem carbono produzido pelas plantas durante a fotossíntese, ajudam-nas a obter água e nutrientes como fósforo e nitrogênio.

Pesquisadoras usam fungos para recuperar solo e conter crise climática.
Foto: Tomas Munita/SPUN

As redes também contribuem para agregar as partículas do solo, reduzir a erosão e aumentar a resistência das plantas à seca e a outros estresses ambientais.

A estratégia testada durante os estudos na Mongólia é simples: pequenas áreas de pastagem são cercadas para impedir temporariamente a entrada de animais e a ação humana.

Essas áreas protegidas podem funcionar como refúgios de biodiversidade subterrânea e, no futuro, como fontes de fungos locais para projetos de restauração de terras degradadas, explicou a bióloga evolucionista Toby Kiers, diretora-executiva da Society for the Protection of Underground Networks (SPUN).

“É como um banco de sementes, mas de fungos.
Eles criam uma infraestrutura viva subterrânea que mantêm o solo unido.
São como um sistema circulatório que conecta a vida acima e abaixo do solo.”

Um solo mais estável e com uma comunidade microbiana saudável oferece melhores condições para o retorno das plantas, que, por sua vez, alimentam novamente os fungos com carbono.

“É um ciclo.
Você perde a diversidade de fungos, perde o carbono que está entrando no solo e perde parte da capacidade de manter o solo unido.
Isso dificulta o crescimento das plantas e pode alimentar ainda mais a degradação”, disse Toby Kiers.

Pastagens em recuperação
A estratégia ainda está em fase experimental, com a liderança da pesquisadora local Burenjargal Otgonsuren.
Ecóloga especializada em micorrizas (associação entre fungos e raízes das plantas), ela cresceu em uma região rural da província de Uvurkhangai e passou parte da infância acompanhando os avós, que eram pastores.

A experiência também influenciou sua escolha profissional.
Ela contou que o avô conhecia as plantas das pastagens e sabia identificar aquelas associadas à qualidade do campo ou utilizadas para fins medicinais.
“Tornei-me uma ecóloga que pode ajudar a tratar o planeta.”

A especialista instalou seis áreas cercadas em regiões de estepe e deserto para interromper temporariamente a pressão do pastoreio.
Os primeiros resultados, obtidos em 2025, são promissores: a vegetação dentro das áreas protegidas já apresentava maior altura do que as plantas encontradas fora das cercas.

A pesquisadora pretende acompanhar os experimentos por pelo menos três anos.
Entre as possibilidades futuras está a criação de corredores ou áreas de refúgio mais amplas para conservar os fungos.

Segundo Burenjargal Otgonsuren, pesquisas indicam que até 91% das pastagens degradadas da Mongólia poderiam ser recuperadas em algum grau.
Para isso, porém, não basta replantar a vegetação.

“Para recuperar a pastagem, a questão mais importante é ter um solo saudável.
E, quando falamos de solo saudável, precisamos também proteger a biodiversidade que vive dentro dele.”

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Biodiversidade ainda desconhecida
A dimensão da biodiversidade encontrada nas estepes mongóis surpreendeu as pesquisadoras.
Nas amostras coletadas, cerca de 90% das sequências de DNA fúngico analisadas pertenciam a espécies ainda desconhecidas pela ciência.

Fungos em microscópio.
Foto: Tomas Munita/SPUN

Foram identificadas 541 unidades taxonômicas associadas aos fungos micorrízicos apenas na região do Gobi.
Parte desses organismos parece ser altamente adaptada às condições locais e pode não ocorrer em outras regiões do planeta.

Isso torna a conservação dos fungos locais particularmente importante.
A ideia não é simplesmente transportar fungos de outras regiões para áreas degradadas.
“Precisamos proteger essas espécies endêmicas e reproduzi-las nós mesmos para depois utilizá-las”, afirmou Otgonsuren.

Nova agenda de conservação
Para Toby Kiers, a descoberta reforça a necessidade de mudar a forma como políticas ambientais tratam a biodiversidade.
Em geral, esforços de conservação se concentram em plantas e animais visíveis, enquanto os organismos subterrâneos permanecem fora das áreas prioritárias.

“Precisamos superar esse viés em favor do que está acima do solo e começar a proteger aquilo que não conseguimos ver.”

Segundo a pesquisadora, cerca de 90% dos hotspots de biodiversidade microbiana identificados pela SPUN estão fora de áreas protegidas.
Ela defendeu que fungos passem a ser incorporados às políticas de combate à desertificação e aos instrumentos de monitoramento da degradação da terra.

A organização já trabalha com pesquisadores e comunidades locais em diferentes partes do mundo para mapear essas redes subterrâneas.
A proposta é que o conhecimento produzido localmente seja incorporado a um atlas global e também às políticas públicas.

“Estamos convidando as pessoas a integrar os fungos às políticas”, ressaltou.
“Eles são componentes vitais de como monitoramos e combatemos a desertificação”, completou.

*O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.