Martha Batalha lança coletânea de 58 crônicas com humor, mas sem ser superficial:

Martha Batalha lança coletânea de 58 crônicas com humor, mas sem ser superficial: 'Um dos textos mais políticos'

Fonte: Bandeira da fonte

Em 2020, Martha Batalha voltou ao ponto de partida.
A autora de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, adaptado para o cinema em 2019 por Karim Ainöuz, “Chuva de papel” e “Nunca houve um castelo” começou a escrever uma coluna quinzenal para O GLOBO, onde havia sido repórter no início do século, quando passou também pelo jornal Extra.
O resultado destas colaborações, publicadas alternadamente às quartas-feiras, resultou em “O algoritmo sou eu”, coletânea de 58 crônicas que será lançada nesta quinta-feira (6) na Livraria da Travessa do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em conversa com Cora Rónai, também colunista do jornal, às 18h.
Se a arte do repórter é não se mostrar no texto e dar espaço aos entrevistados e aos fatos, na crônica, o leitor quer o contrário: impressões pessoais do autor a partir do que é e do que não é notícia.
“O algoritmo sou eu” tem exemplos variados desse exercício, que tratam das torneiras com sensores que não funcionam aos queijos quentes da cantina da escola ou os sofás velhos abandonados por americanos na Califórnia onde mora a escritora.
‘Vamos rir um pouco’
A política e a pandemia também estão no volume.
As admirações literárias são representados em lembranças de Millôr Fernandes (de quem se aproximou ao fundar a editora Desiderata, que publicou coletâneas do jornal O Pasquim e livros do humorista) ou homenagens a Vinicius de Moraes.
O amor pelo jornal impresso é confessado em “O baiacu sobre a mesa” , título que traz uma das marcas da escritora: todos os assuntos são tratado com leveza, humor e reflexões inusitadas como “todo mundo deveria ser muito ruim em alguma coisa”.
—Crônica para mim é voz.
Não é sobre o que se escreve, mas como se escreve.
Também é o olhar.
Não é para o que se olha, mas como se olha —explica a autora.
— Eu imagino ter um contrato com o leitor, algo como: me dê seu tempo e prometo não desperdiçá-lo.
Por estes poucos minutos vamos pensar em algo diferente e interessante, rir da vida ou, ao menos, de mim.
É por adotar esse tom que Martha aborda problemas já descritos por outras escritoras e personagens femininas ao longo da história da literatura, mas em um tom confessional e com espaço para o riso, em narrações de frases curtas e sem intercalações — a forma clássica da narração jornalística.
“A escritora profissional senta para escrever” lembra as dificuldades das mulheres de exercerem a profissão de escritora.
“Se eu fosse boa de praga, desejaria aos homens um parto”, frase que abre “O que falta nos homens”, também lembra uma das frases mais marcantes do monólogo da “Medeia” de Eurípides — “Antes ir à guerra três vezes de escudo e lança do que parir uma única vez”.
Mas sem drama.
A escritora procura diferenciar, no entanto, a leveza da superficialidade.
— Eu acredito que tenho que oferecer este respiro, a brecha nas notícias na forma de um devaneio que à primeira vista pode parecer supérfluo, mas é o contrário.
A crônica é um dos textos mais políticos do jornal, porque ela força o leitor a interpretar as ironias e sutilezas do texto — explica.
— Ela obriga o leitor a entender as nuances, a assimilar frases elaboradas e um vocabulário mais rico, e quando se lê bem um texto, se lê bem o mundo.
Também autora de um livro infantil, “Liz sem medo”, Martha reconhece que sair dos relatos fictícios longos para os textos sobre o cotidiano de tamanho mais restrito exigiu uma adaptação.
— Primeiro tive que encontrar a minha voz de cronista para depois aprimorá-la — conta.
— Escrever uma crônica é diferente de escrever um romance ou artigo de jornal.
São “caixinhas com ferramentas” diferentes da mente.
As colunas de “O algoritmo sou eu” foram escolhidos por sua capacidade de serem atuais a qualquer tempo, diz a autora.
— Desde que comecei a escrever no GLOBO tinha a intenção de fazer textos que permanecessem, que pudessem ser lidos no jornal daquele dia e também dali a dez anos — diz Martha.
— Outro critério foi a diversidade de assuntos.
Eu e o Luís Pellanda (editor) queríamos fazer um livro que não se definisse somente por um tema.
Um livro que falasse de tudo um pouco e que se mantivesse coerente e coeso.