‘Meus familiares foram levados diante dos meus olhos’: Vítimas de inundação no Nepal narram desastre que deixou 160 mortos - QTU Questões do Universo

‘Meus familiares foram levados diante dos meus olhos’: Vítimas de inundação no Nepal narram desastre que deixou 160 mortos

Fonte: Bandeira da fonte

Pelo menos 160 pessoas morreram nesta quarta-feira após uma enchente avançar violentamente por vales de rios na região da fronteira entre Nepal e China.
Edifícios foram soterrados e destruídos, desencadeando uma busca frenética para encontrar sobreviventes em meio aos escombros.
Centenas de pessoas, incluindo turistas estrangeiros, estão desaparecidas.
A tragédia — a mais devastadora no Nepal desde o terremoto de 2015 —, deixou a nação “chocada e angustiada”, segundo o premier nepalês, Balendra Shah.

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“Hoje venho até vocês com o coração profundamente pesado.
A devastadora inundação que atingiu repentinamente o rio Bhotekoshi, em Rasuwa, causando enormes perdas humanas e materiais, deixou todo o país chocado e profundamente consternado.
O inesperado golpe desta catástrofe natural mergulhou muitos de nossos irmãos, irmãs e crianças pequenas em uma profunda dor”, escreveu o premier nas redes sociais.
À BBC, Kalpana Malla, moradora do distrito de Nuwakot, no Nepal, disse que seu pai, mãe, irmã e os filhos de sua irmã foram todos levados pela água diante de seus olhos.
Ela e o filho, Sugam Malla, sobreviveram após subir no telhado de uma casa.
Antes disso, ele havia dado o telefone à irmã “para que ela ficasse em segurança e pudesse entrar em contato para pedir ajuda”, disse, acrescentando que não consegue falar com ela.

— O celular está desligado.
Estou preocupado que ela tenha sido levada pela água — disse Sugam.

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Sonan Dorjee, um guia de trekking para turistas internacionais que mora na vila de Rasuwa Syafru Besi, no distrito de Rasuwa, disse à BBC que o local foi atingido pela inundação às 9h no horário local.
Ele havia saído uma hora antes para dirigir até Katmandu para uma visita que já estava planejada, mas sua irmã, Dechen Tamang, está desaparecida, assim como o marido dela e outros familiares.
Enquanto se afastava da vila, disse, ele ouviu “os sons da inundação”.

— Parece um terremoto.
Minha casa desabou, eu vi uma foto — disse ele, descrevendo o fenômeno como “repentino e devastador”.
— Muitos sobreviventes agora estão sem casa e precisam de resgate e retirada de emergência, além de comida, acomodação temporária e assistência médica.
Espero que minha irmã seja encontrada com vida.

Sobreviventes cobertos de lama são resgatados de casas atingidas por deslizamento no Nepal
Mais cedo, a polícia do Nepal publicou uma lista de algumas das vítimas das inundações que estão recebendo tratamento em diferentes hospitais.
Foram divulgados detalhes de 29 pessoas, incluindo um bebê de apenas três meses, que estaria em condição “normal”.
Duas crianças de três anos e adolescentes de apenas 12 e 14 anos também aparecem na lista.
Não está claro quantas pessoas ficaram feridas e quantas estão internadas.

A lista também inclui detalhes dos ferimentos.
Alguns pacientes apresentam hematomas ou arranhões “por todo o corpo”, enquanto outros sofreram ferimentos na cabeça.
Vários são descritos como “incapazes de falar”.
Segundo o premier, mais de 250 pessoas foram resgatadas por meio de helicópteros do Exército, e pelo menos 100 leitos foram reservados em hospitais de Katmandu.
Equipes médicas e de resgate também foram “rapidamente mobilizadas”.

— Não era água.
Era uma enorme torrente de lama vindo diretamente em nossa direção.
À medida que se aproximava, subia cada vez mais — disse Keshav Prasad Baral, de 68 anos, à Reuters, acrescentando que o helicóptero chegou para resgatá-lo quatro ou cinco horas depois, mas que ele não conseguiu localizar sua esposa.
— Tentei segurar a mão dela e levá-la para o terraço, mas ela foi levada pela lama.
Ela se foi.

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‘Não sobrou nada’
Ainda assim, o Ministério da Cultura, Turismo e Aviação Civil do Nepal informou que cerca de 403 turistas, 341 deles estrangeiros, continuam sem ser localizados.
Entre esse grupo estão americanos, indianos, malaios, britânicos e um australiano, além de 62 viajantes nepaleses.
Na mesma publicação nas redes, o primeiro-ministro do Nepal fez um apelo à união, pedindo “paciência” à população enquanto o governo assume a responsabilidade pelos resgates.

“Quero assegurar a vocês que não estão sozinhos nestes momentos difíceis: o Estado está com vocês, com todos os seus meios e recursos”, escreveu.
“Tenham paciência.
O governo assume toda a responsabilidade por seu resgate, atendimento médico, alimentação e acomodação.
Em momentos de uma catástrofe como esta, devemos permanecer unidos”.

A inundação atingiu Syabrubesi, ponto de partida da popular rota de trekking de Langtang, assim como outras áreas utilizadas por viajantes para a peregrinação hindu a Kailash Mansarovar.
Em imagens compartilhadas pela polícia do Nepal, era possível ver um rio transbordado arrastando várias casas no distrito de Rasuwa.
Em outra imagem, feita pela AFP, era possível ver uma residência cercada de lama.

— Vi as águas levarem oito ou nove caminhões, além de casas e pessoas — disse Suman Chalise, um professor de 34 anos, na localidade nepalesa de Nuwakot.
— Foi absolutamente devastador, uma destruição de tal magnitude que nunca havia visto nada parecido.

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Um porta-voz da polícia disse à AFP que as autoridades ainda desconheciam a extensão dos danos, mas afirmou que haviam alertado as pessoas que estavam perto das margens do rio “para que se afastassem”.
Raju Bhadel, 56, contou que recebeu uma ligação do cunhado durante a manhã.
Eles choravam porque a casa havia sido destruída, disse ele, acrescentando que três membros de sua família foram resgatados, mas que seu irmão continua desaparecido.
Outra mulher, Goma Pandit, diz que perdeu seus búfalos e todo o seu outro gado.
— Minha terra agrícola também foi levada pela água.
Dez sacos de sementes de mostarda, toneladas de milho e arroz em casca desapareceram.
Não sobrou nada.

‘Numerosas vítimas’
Este já é o desastre mais devastador no Nepal desde o terremoto de 2015, que deixou quase 9 mil mortos.
Autoridades dizem que houve uma enorme perda de vidas e danos materiais, sem apresentar uma estimativa clara.
Vários povoados nos distritos de Rasuwa e Nuwakot, às margens do rio Bhotekoshi, estão entre os mais afetados.
São áreas pouco povoadas, mas suas estradas funcionam como uma importante rota para o comércio entre Nepal e China.
Infraestruturas essenciais, incluindo usinas hidrelétricas, rodovias e pontes na região, foram destruídas.
Milhares de turistas, incluindo cidadãos indianos, atravessam essa região para fazer a viagem até Kailash Mansarovar, localizado no Tibete.
Todos os anos, durante o festival hindu local de Janai Purnima, centenas de peregrinos nepaleses visitam Gosaikunda, situado dentro de um parque nacional na região, para prestar culto, publicou a BBC.
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Os meios de comunicação estatais chineses informaram sobre “numerosas vítimas” após a catástrofe e, posteriormente, divulgaram um balanço preliminar de três mortos e 265 desaparecidos.
Até o momento, não está claro se há alguma sobreposição entre os números chineses e os anunciados pelo Nepal, já que a emissora estatal chinesa CCTV informou que os dados concretos sobre as vítimas ainda estão sendo verificados.
Enquanto isso, o presidente chinês, Xi Jinping, afirmou, segundo a CCTV, que “a tarefa mais urgente é fazer todo o possível para procurar e resgatar as pessoas desaparecidas (...), atender rapidamente os feridos e reduzir ao mínimo o número de vítimas”.
(Com AFP)